SERAFINA
Sentei-me na frente da minha penteadeira e escovei meu cabelo, movimento após movimento, tentando encontrar a calma. Eu podia ouvir os primeiros convidados lá embaixo, ouvir risos e música.
Eu precisava descer. Respirando fundo, levantei. Eu escolhi um vestido azul-escuro justo até o chão, que combinava com a cor da camisa de Samuel. Toquei meu estômago, ainda plano, mas sabia que em poucos meses não poderia mais usar vestidos assim.
O bebê de Remo. Eu fechei meus olhos. Eu estava feliz e triste, aterrorizada e esperançosa. O que Remo diria se soubesse? Ele se importaria? Eu tinha sido um meio para um fim, uma rainha em seu jogo de xadrez, e ele ganhou.
Ele me deixou ir como se eu não fosse nada.
Eu ouvi os rumores de suas lutas de gaiola. Ele estava de volta às lutas, de volta a sua vida. Eu me perguntei se ele já havia se mudado para uma das muitas prostitutas à sua disposição? Provavelmente.
Eu fui uma i****a.
Sam estava certo. Remo tinha torcido minha mente para que ele pudesse me controlar, e eu deixei.
Uma batida familiar soou e Samuel entrou. Não nos falamos desde que revelei minha gravidez a minha família. Tornou-se óbvio que eles precisavam de tempo para assimilar, hora de colocar suas máscaras públicas para que nossos convidados não descobrissem a verdade. Ainda não.
Ele parou perto da porta, me observando como se eu estivesse me dividindo diante de seus olhos. Eu me virei, mostrando meu vestido para ele. — Nós estamos combinando. — Eu queria ver o sorriso dele, qualquer coisa além da escuridão esmagadora da alma.
— Você está linda, — ele disse, mas não sorriu. Eu andei em direção a ele, e quando o fiz seus olhos foram atraídos para o meu estômago. — Fina, se livre disso.
Eu congelei. Sam se aproximou de mim e segurou meus braços. — Por favor, livre-se disso. Não suporto a ideia de que algo dele esteja crescendo dentro de você.
— Sam, — eu sussurrei. — Este é um bebê. É inocente. Seja o que for que Remo tenha feito, esse bebê não vai sofrer por isso.
Samuel se afastou de mim. — Mas você irá! O que você acha que as pessoas dirão se você der à luz a sua cria? E essa coisa vai lembrá-la do i****a a cada dia. Como você vai esquecer se olhar para o resultado dos pecados de Remo todos os dias?
Eu me virei e fui em direção à janela, segurando o peitoril da janela em um aperto de ferro, tentando manter minha compostura. Se eu quisesse aparecer na festa do papai, não poderia perdê-la agora.
Samuel veio atrás de mim e tocou meus ombros. — Eu não deveria ter dito isso.
— Tudo bem, — eu disse. Eu coloquei minha mão sobre a de Samuel. — Eu preciso de você ao meu lado, Sam. O bebê e eu... nós dois precisamos de você. Por favor.
Samuel colocou o queixo na minha cabeça e suspirou. — Eu sempre estarei ao seu lado.
Ficamos assim por um tempo até que eu me virei e dei a Samuel um sorriso firme. — Vamos lá mostrar às pessoas que somos fortes juntos.
Samuel estendeu a mão e eu peguei. Descemos juntos, e o aperto de Samuel em mim aumentou quando a atenção mudou para mim. As pessoas estavam tentando ser discretas, mas falhando miseravelmente. Cada subchefe estava lá, até o Danilo. Ele ficou afastado, ao lado do bar, tomando uma bebida cor de âmbar. Nossos olhos se encontraram brevemente, mas depois eu desviei o olhar.
Samuel permaneceu colado ao meu lado. Minha sombra, meu protetor, mas até mesmo seu olhar severo não conseguia parar os olhares piedosos ou os sussurros, e as pessoas nem sabiam da minha gravidez ainda. Eu podia imaginar quão pior a fofoca se tornaria então.
Eu era conhecida como a Princesa do Gelo, destinada a me tornar a Rainha do Gelo ao lado de Danilo.
Agora eu era a mulher que Remo havia corrompido. Os homens m*l podiam olhar para mim. De alguma forma eu me tornei todos os seus fracassos.
A mão de Samuel na parte inferior das minhas costas se contraiu, e um olhar em seu rosto me disse que ele estava perto de perder o controle.
— Dance comigo, — implorei.
Samuel assentiu com um pequeno sorriso tenso e me envolveu em seu abraço, em seguida, endureceu quando o meu estômago ainda plano pressionou contra ele. Seus olhos dispararam e angústia brilhou em sua expressão antes que ele pudesse mascará-la. Como se ele já pudesse ver minha gravidez quando ainda estava escondida em segurança. Eu aumentei meu abraço nele brevemente, e finalmente ele encontrou meu olhar. Nós começamos a dançar. Todos os olhos estavam em nós.
Samuel segurou meu olhar porque estava prestes a perder o controle. Um olhar para os outros e ele quebraria. Eu sorri e ele relaxou. Eu também senti os olhares. Poderia praticamente ouvir os sussurros. Algumas mulheres da minha idade que sempre se ressentiram de mim pelo meu status pareciam quase... triunfantes, felizes por testemunhar minha desgraça.
Levantei meu queixo mais alto, com raiva e depois me preocupei... por que como todas essas pessoas tratariam meu filho?
Depois de três danças, papai assumiu e Samuel ficou de lado assistindo.
— Você está linda, pomba, — ele disse baixinho. Sua expressão era controlada, calma. Seu rosto público. Mamãe também parecia equilibrada e elegante ao lado de Sofia, Anna e Valentina.
— Obrigada, pai, — eu disse, em seguida, acrescentei: — Me desculpe, eu não tenho um presente para você.
Eu não saíra da casa desde o meu retorno e, para ser honesta, havia esquecido completamente de comprar um presente. Minha mente estava ocupada com muitas outras coisas.
— Eu já tenho o meu presente, — disse ele, e por um momento achei que ele quisesse dizer o meu filho, mas depois percebi que ele quis dizer a minha liberdade. Ele não mencionou minha gravidez.
Dante dançou comigo em seguida.
Eu encontrei seus olhos, me perguntando o que ele achava da minha gravidez, me perguntando que tipo de futuro estaria à frente para o meu filho, se fosse um menino. Ele seria permitido na Outfit? Ou a identidade de seu pai fecharia todas as portas antes que pudessem ser abertas? Eu não ousei perguntar ao meu tio. Não em público, não na festa de aniversário do meu pai.
Depois da dança, voltei para Samuel, que conversava com um de seus amigos mais antigos. Ele me deu um aceno de cabeça, mas também teve problemas em encontrar meus olhos. Samuel notou e sua mandíbula flexionou. Ele se desculpou, tocou minhas costas e me levou embora.
Samuel e eu entramos no saguão de entrada. Eu tinha a sensação de que Samuel precisava ficar longe das festividades por alguns minutos. Alguns Homens Feitos mais novos que eu não conhecia se reuniram lá e, quando passamos por eles, suas palavras conseguiram chegar até nós.
— Eu não entendo porque eles não a escondem. É uma p***a de desgraça que ela ande por aí como se Falcone não a tivesse corrompido.
Mal registrei meu choque quando Samuel atacou. Ele quebrou o nariz do primeiro cara com um estalo doentio, em seguida, empurrou o segundo para o chão, pressionando a faca contra a garganta do homem. — Sam, — eu disse com firmeza, segurando o ombro dele.
Ele se inclinou, aproximando o rosto do outro homem. — Eu deveria cortar sua garganta por insultar minha irmã. Peça desculpas.
O homem olhou para seus amigos. Um deles estava cuidando de seu nariz quebrado, o outro obviamente incerto se deveria interferir, considerando que nosso pai era o chefe de seus pais.
— Peça desculpas! — Samuel rosnou.
— Sinto muito, — o cara deixou escapar.
Eu aumentei meu aperto no ombro de Sam. Ele recuou, pegou minha mão e me arrastou para fora, não para o jardim, mas para a entrada onde estaríamos sozinhos. Ele me soltou, virando as costas para mim. Ele respirou fundo. Eu pressionei minhas palmas nas suas omoplatas e depois descansei minha testa contra suas costas. — Não deixe que as palavras deles cheguem até você. Eu não me importo com eles e você também não deveria.
— Como você pode não se importar com eles? Você é uma princesa da máfia. Eu deveria cortar suas línguas por ousar sussurrar seu nome em uma frase com o dele.
O nome dele.
Remo Falcone. O pai do meu filho.
E pior, o homem que enchia minhas noites não com pesadelos, mas com saudade.
Na manhã seguinte, papai, Samuel e Dante queriam falar comigo.
Quando entrei no escritório do papai, soube pelas expressões deles que não seria uma conversa fácil e definitivamente não seria uma que eu gostaria. Papai estava sentado atrás de sua mesa, Sam empoleirado em sua borda, e Dante estava com as mãos na calça ao lado da janela. Eu fui direto para o sofá e afundei. Meu cérebro parecia lento por falta de sono. Eu passei a noite toda tentando aceitar o fato de que estava carregando um bebê, o bebê de Remo.
— Sobre o que vocês querem conversar?
Três conjuntos de olhos dispararam para minha barriga e minha mão automaticamente - de forma protetora – pressionou o local.
— Se você manter essa criança, — começou Dante.
— Eu vou manter a criança.
Papai olhou para o lado e depois para a moldura da foto em sua mesa. Uma foto da nossa família tirada pouco antes de eu ter sido sequestrada.
— Você terá que mantê-la escondida, — disse o pai.
Eu pisquei para eles. — O quê?
— Assim que você começar a mostrar, teremos que mantê-la longe dos olhos do público, Serafina, — disse Dante, com a voz decidida. — Eu duvido que Remo Falcone tenha o menor interesse em sua prole, mas ele pode usá-la contra nós. A Outfit precisa ser forte. Essa criança pode causar tensão dentro da Outfit, e não precisamos disso no momento atual.
— Ou nós poderíamos arranjar um casamento rápido com alguém que concorde com um casamento falso e fingir que é seu filho, — meu pai sugeriu gentilmente.
Eu olhei entre eles. Samuel olhou para o chão, as sobrancelhas unidas.
— Não vou me casar com ninguém e não vou mentir sobre o pai do bebê. As pessoas não acreditariam mesmo assim.
Agora eu era a mulher grávida do filho bastardo de Remo. Logo minha barriga protuberante carregaria a culpa e a vergonha da Outfit.
— Eventualmente as pessoas vão perceber que tenho um filho. Quando ficar mais velho, será difícil mantê-lo oculto. E se ele for um menino? Ele não fará parte da Outfit?
Eles trocaram um olhar.
— Você nem deu à luz ainda. Ainda é cedo — disse Dante secamente. Eu examinei seus rostos e, quando o fiz, foi difícil manter minha indignação e raiva. Meu sequestro havia deixado suas marcas. Eles ainda estavam abalados. Talvez com o tempo as coisas melhorassem. Eu daria a eles o tempo que precisavam para aceitar a situação. Eu devia isso a eles. Eu lhes devia mais do que devia a Remo.
Este bebê e eu pertencíamos a Outfit. Essa era minha família, minha casa.
Ainda assim, parte de mim se perguntava se eu estava mentindo para mim mesma, se não era melhor voltar para Las Vegas.
Mas Remo me mandou embora. Eu servi ao seu propósito. Quanto eu realmente sabia sobre ele? E como eu poderia ter certeza se tudo que ele fez não fazia parte de um show, sua manipulação magistral. Tinha funcionado, não tinha? E como eu poderia ter certeza de que o que eu estava sentindo era real? Poderiam sentimentos como esse nascer em cativeiro?
Minha gravidez se tornou o elefante rosa na sala, uma presença cada vez maior que todos tentavam ignorar, e fiz o meu melhor para tornar isso mais fácil para eles. Eu usava roupas folgadas, feliz pelos dias frios de inverno que permitiam suéteres grossos e casacos ainda mais grossos. Acho que minha família muitas vezes conseguiu esquecer que eu estava grávida.
Só quando eu estava sozinha no meu quarto me permitia admirar minha barriga. Não estava grande ainda. Eu até consegui participar da festa de Natal de Dante e Val, porque na minha décima sétima semana, se meus cálculos fossem precisos, um vestido reto ainda escondia tudo o que deveria. Se as pessoas suspeitaram de algo, elas guardaram para si mesmas. Era uma possível vergonha que a Outfit não queria falar em voz alta.
Era início de janeiro quando Samuel e minha mãe me acompanharam a primeira consulta com meu médico. Até agora eu não havia pedido por uma, mas minha mãe me surpreendeu a alguns dias perguntando se deveríamos checar o bebê. Foi sua desculpa silenciosa, sua tentativa de aceitar o que era muito difícil para todos eles aceitarem.
O médico vinha trabalhando com a Outfit há anos. Ele tratou a maioria das mulheres grávidas da Outfit e manteria o segredo que eu carregava.
O medo me encheu quando me estendi na mesa de exame. Eu não tinha certeza do que exatamente me assustou. Não era como se eu não soubesse que estava grávida. Era evidente neste momento.
O médico estava do meu lado com o ultrassom enquanto Samuel e mamãe ficavam do outro lado. Eu engoli quando empurrei o meu suéter, revelando o solavanco pela primeira vez na frente dos outros.
O rosto de Samuel ficou estoico e mamãe engoliu antes de conseguir um sorriso encorajador e apertar minha mão.
— Isso vai ser frio por um momento, — o médico me avisou.
Eu balancei a cabeça distraidamente, meus olhos fixos no ultrassom.
O médico começou a franzir a testa, movendo o ultrassom na minha barriga. O baque surdo de uma batida de coração encheu a sala e meu próprio coração acelerou, inchando de amor e admiração. Mas o baque surdo estava estranho, como se estivesse fora do ritmo, dois ritmos fora de sincronia.
Os olhos de mamãe se arregalaram, mas eu não tinha certeza do por que, e o medo me encheu. Eu olhei para ela, depois para o médico, depois para Samuel, mas ele parecia tão confuso quanto eu me sentia.
— Oh Deus, — mamãe sussurrou.
— O quê? O que está acontecendo?
Os olhos da mamãe se encheram de lágrimas. — Gêmeos.
O médico assentiu e meus olhos se voltaram para Samuel.
— Como nós, — eu disse maravilhada.
Ele conseguiu um pequeno sorriso, mas seus olhos se preocuparam.
O conhecimento que eu carregava gêmeos mudou as coisas para a mamãe. Era como se ela pudesse finalmente ver os bebês como meus, não como algo estranho.
Samuel parecia estar mais próximo também. Ele pintou o berçário e armou a mobília para mim. E Sofia? Ela estava extasiada com a perspectiva de ser uma tia. Mas papai... papai tinha mais dificuldade. Ele não mencionava a gravidez e nunca olhava em qualquer lugar abaixo do meu queixo. Eu o entendia, não poderia ficar com raiva porque seus olhos refletiam seu conflito.
Muitas vezes conseguia me sentir como se pertencesse mais uma vez, conseguia fingir que não estava sendo forçada a me esconder em nossa casa para que ninguém descobrisse que eu estava grávida. O que eu não consegui foi parar de pensar no homem que era a razão de tudo.
Toda noite que eu ficava acordada na cama. Toda vez que eu acariciava minha barriga, eu o via diante dos meus olhos. E toda vez eu ficava dividida entre raiva e saudade. Às vezes eu me perguntava se deveria encontrar uma maneira de avisá-lo, mas depois pensava na minha família, em seu lento processo de cura, no que meu sequestro havia feito a eles e não pude fazê-lo. O que você deve ao homem que sequestrou você? Aquele que tentou destruir as pessoas com quem você se importava? O homem que levou seu coração, apenas para te afastar?
Nada.
Eu não devia nada a Remo Falcone.
Esses eram meus filhos e eles cresceriam como parte da minha família, como parte da Outfit. Eu esconderia a verdade deles o quanto pudesse. Eles não descobririam quem era seu pai até que precisassem. Se eu quisesse que eles tivessem uma chance na Outfit, eles não poderiam ser Falcones. Eles não poderiam ser associados a Remo.
Em meados de maio dei à luz as mais belas criações que pude imaginar e sabia com absoluta certeza que tudo o que eu desejava para elas nunca se tornaria realidade.