Levei Samanta nos braços até a varanda. O vento fresco da tarde soprou suave, fazendo com que ela fechasse os olhos e respirasse fundo. Escolhi uma das poltronas acolchoadas e a sentei com cuidado ali, antes de me acomodar na poltrona ao lado.
Ela passou as costas da mão pelo rosto, limpando as lágrimas, ainda fungando baixinho.
— Pronto. Disse, observando-a com atenção. — Agora respira fundo.
Samanta puxou o ar tremido pelos lábios e olhou ao redor, tentando se acalmar.
— Eu num tô chorano de tristeza, tá? Murmurou, com a voz rouca. — É que... é que ninguém nunca fez uma coisa dessas pra mim...
Cruzei os braços, recostando-me na poltrona, sem tirar os olhos dela.
— Se acostume. Agora você tem o meu pai. Disse, com um sorriso discreto nos lábios.
Ela sorriu, ainda meio sem jeito, e perguntou:
— E você vai mesmo me ensiná a lê e escrevê? Igual gente esperta?
Dei de ombros, fingindo indiferença.
— Você dará aula de esperteza quando terminar. Brinquei, lançando-lhe um olhar provocador.
Samanta deu uma risadinha tímida, esfregando as mãos nas pernas.
— E será que eu consigo sê chique também? Falá bonito, igual a Isabela?
Fingi pensar, colocando a mão no queixo de maneira exagerada.
— Bom... se esforçar bastante, você consegue. É inteligente! Pisquei para ela.
Ela gargalhou, jogando a cabeça para trás, tão espontânea.
— Eu prometo que vou estudar direitinho. Inté gastá o dedo de tanto escrevê! Disse, animada.
— É isso aí. Concordei, olhando para ela com orgulho. — Quando você tiver aprendido o básico, vamos trazer os melhores professores para te ensinar etiqueta, boas maneiras... tudo que você merece aprender.
Seus olhos brilhavam como os de uma criança que acabara de ganhar o maior presente da vida.
— Puxa, vida. Sussurrou, emocionada.
As lágrimas voltaram a escorrer, agora mais mansas, e ela as limpava rapidamente, como se estivesse com vergonha.
— Vai me afogar se continuar chorando desse jeito.
Ela riu em meio aos soluços e assentiu.
— Eu paro, juro. Fungando.
— Boa menina. Murmurei, relaxando na poltrona ao lado, enquanto observava o sorriso sincero dela.
Ficamos em silêncio, só ouvindo o barulho suave do vento e o estalar distante das folhas. Pela primeira vez em muito tempo, estavamos começando a nos dar bem.
Nosso silêncio foi quebrado por uma confusão no portão. Era a mãe do Alessandro, dona Vitória.
— Senhora, por favor... O segurança tentava apaziguar.
Vitória — Quero falar com seu patrão, e quero agora! Gritou ela. — Diga que é a esposa do governador!
Alessandro se apressou em tentar acalmá-la.
Alessandro — Mamãe, se acalma, por favor. Vamos para casa. Amanhã a senhora conversa com a Samanta.
Mas ela estava irredutível.
Vitória — Eu quero vê-la hoje, Alessandro! E não tentem me impedir. Chamem aquele grosso!
Samanta olhou para mim e disse, levando a mão à boca enquanto sorria:
— Ela tá brava com você.
— Pode deixar ela entrar. Falei, curioso para entender o que a tinha trazido até a minha casa àquela hora.
Vitória entrou, determinada, com Alessandro logo atrás. Quando se aproximou de mim, sem dizer uma palavra, me deu duas bofetadas. Arregalei os olhos e franzi a sobrancelha, sem entender.
Alessandro — Mamãe, por favor! Ele pediu, tentando contê-la.
Ela se soltou dele e tentou me bater novamente. Quando ia desferir o terceiro tapa, Samanta, em um gesto inesperado, sentou-se no meu colo e me abraçou forte, agarrando-se ao meu pescoço.
Fiquei completamente paralisado.
Ela, chorando, disse:
— Num bate nele... vai machucá... isso dói...
Um nó se formou na minha garganta, e engoli seco, sentindo as lágrimas queimarem nos meus olhos.
Olhei para dona Vitória, sem entender o motivo da agressão. Mas ela estava tão paralisada quanto Alessandro e eu. Logo, porém, se recompôs:
Vitória — Você ousou machucá-la? Vou mandar meu marido expedir uma ordem de prisão. Vou colocá-lo na cadeia!
Franzi a testa e, quando abri a boca para me defender, Samanta, ainda agarrada a mim, se adiantou:
— Ele não me machucou. Eu caí... meu pé torceu... num bate nele...
Dona Vitória a olhou com atenção e balançou a cabeça, emocionada com a forma de como Samanta me defendia.
Saí do meu torpor e falei:
— Quem pensa que eu sou? Eu nunca a machucaria! O que está pensando? Que sou um monstro?
Ela desviou o olhar de Samanta para mim e respondeu:
Vitória — Espero que não, Maike. Se eu souber que levantou a mão para ela, farei com que passe anos da sua vida na cadeia.
Depois, se voltou para Samanta com um semblante mais doce: — Desculpe, querida. Não queria assustá-la. Você está bem? Dói muito?
Samanta sorriu, meio tímida, e disse:
— Um pouquinho... mas tá quase ficano sarado. Maike cuidou dele.
Olhei para Alessandro, que observava Samanta com uma expressão de emoção e alegria que eu não conseguia decifrar.
— Algum problema, Alessandro? Perguntei, desconfiado.
Ele desviou o olhar e respondeu:
Alessandro — Nenhum problema. Mas, Maike, não a faça sofrer e nem a machuque... ou da próxima vez, serei eu a te surrar. Gosto da Sam.
Ergui uma sobrancelha, surpreso, mas tentei disfarçar o calor que sentia com Samanta ainda sentada no meu colo... e a emoção profunda que me invadia ao tê-la me defendendo daquela maneira.
Dona Vitória então disse:
Vitória — Quando estiver melhor, quero que vá à minha casa. Adoraria passar uma tarde com você.
Ela acariciou os cabelos de Samanta antes de se virar e ir embora. Alessandro a seguiu logo depois.
Respirei fundo, tentando controlar a respiração acelerada. Levantei-me, ainda com Samanta no colo, e subi apressado para o quarto. Eu não sabia lidar com o que ela acabara de fazer comigo.
Deixei-a no quarto e voltei para o meu escritório, sentindo o coração descompassado.
Encostei a porta, servi uma dose de bebida, e murmurei para mim mesmo:
— Samanta... o que você acabou de fazer comigo? Você é perigosa, garota...
E virei o copo, sentindo o gosto amargo na boca.