Capítulo 35

1003 Words
Levei Samanta nos braços até a varanda. O vento fresco da tarde soprou suave, fazendo com que ela fechasse os olhos e respirasse fundo. Escolhi uma das poltronas acolchoadas e a sentei com cuidado ali, antes de me acomodar na poltrona ao lado. Ela passou as costas da mão pelo rosto, limpando as lágrimas, ainda fungando baixinho. — Pronto. Disse, observando-a com atenção. — Agora respira fundo. Samanta puxou o ar tremido pelos lábios e olhou ao redor, tentando se acalmar. — Eu num tô chorano de tristeza, tá? Murmurou, com a voz rouca. — É que... é que ninguém nunca fez uma coisa dessas pra mim... Cruzei os braços, recostando-me na poltrona, sem tirar os olhos dela. — Se acostume. Agora você tem o meu pai. Disse, com um sorriso discreto nos lábios. Ela sorriu, ainda meio sem jeito, e perguntou: — E você vai mesmo me ensiná a lê e escrevê? Igual gente esperta? Dei de ombros, fingindo indiferença. — Você dará aula de esperteza quando terminar. Brinquei, lançando-lhe um olhar provocador. Samanta deu uma risadinha tímida, esfregando as mãos nas pernas. — E será que eu consigo sê chique também? Falá bonito, igual a Isabela? Fingi pensar, colocando a mão no queixo de maneira exagerada. — Bom... se esforçar bastante, você consegue. É inteligente! Pisquei para ela. Ela gargalhou, jogando a cabeça para trás, tão espontânea. — Eu prometo que vou estudar direitinho. Inté gastá o dedo de tanto escrevê! Disse, animada. — É isso aí. Concordei, olhando para ela com orgulho. — Quando você tiver aprendido o básico, vamos trazer os melhores professores para te ensinar etiqueta, boas maneiras... tudo que você merece aprender. Seus olhos brilhavam como os de uma criança que acabara de ganhar o maior presente da vida. — Puxa, vida. Sussurrou, emocionada. As lágrimas voltaram a escorrer, agora mais mansas, e ela as limpava rapidamente, como se estivesse com vergonha. — Vai me afogar se continuar chorando desse jeito. Ela riu em meio aos soluços e assentiu. — Eu paro, juro. Fungando. — Boa menina. Murmurei, relaxando na poltrona ao lado, enquanto observava o sorriso sincero dela. Ficamos em silêncio, só ouvindo o barulho suave do vento e o estalar distante das folhas. Pela primeira vez em muito tempo, estavamos começando a nos dar bem. Nosso silêncio foi quebrado por uma confusão no portão. Era a mãe do Alessandro, dona Vitória. — Senhora, por favor... O segurança tentava apaziguar. Vitória — Quero falar com seu patrão, e quero agora! Gritou ela. — Diga que é a esposa do governador! Alessandro se apressou em tentar acalmá-la. Alessandro — Mamãe, se acalma, por favor. Vamos para casa. Amanhã a senhora conversa com a Samanta. Mas ela estava irredutível. Vitória — Eu quero vê-la hoje, Alessandro! E não tentem me impedir. Chamem aquele grosso! Samanta olhou para mim e disse, levando a mão à boca enquanto sorria: — Ela tá brava com você. — Pode deixar ela entrar. Falei, curioso para entender o que a tinha trazido até a minha casa àquela hora. Vitória entrou, determinada, com Alessandro logo atrás. Quando se aproximou de mim, sem dizer uma palavra, me deu duas bofetadas. Arregalei os olhos e franzi a sobrancelha, sem entender. Alessandro — Mamãe, por favor! Ele pediu, tentando contê-la. Ela se soltou dele e tentou me bater novamente. Quando ia desferir o terceiro tapa, Samanta, em um gesto inesperado, sentou-se no meu colo e me abraçou forte, agarrando-se ao meu pescoço. Fiquei completamente paralisado. Ela, chorando, disse: — Num bate nele... vai machucá... isso dói... Um nó se formou na minha garganta, e engoli seco, sentindo as lágrimas queimarem nos meus olhos. Olhei para dona Vitória, sem entender o motivo da agressão. Mas ela estava tão paralisada quanto Alessandro e eu. Logo, porém, se recompôs: Vitória — Você ousou machucá-la? Vou mandar meu marido expedir uma ordem de prisão. Vou colocá-lo na cadeia! Franzi a testa e, quando abri a boca para me defender, Samanta, ainda agarrada a mim, se adiantou: — Ele não me machucou. Eu caí... meu pé torceu... num bate nele... Dona Vitória a olhou com atenção e balançou a cabeça, emocionada com a forma de como Samanta me defendia. Saí do meu torpor e falei: — Quem pensa que eu sou? Eu nunca a machucaria! O que está pensando? Que sou um monstro? Ela desviou o olhar de Samanta para mim e respondeu: Vitória — Espero que não, Maike. Se eu souber que levantou a mão para ela, farei com que passe anos da sua vida na cadeia. Depois, se voltou para Samanta com um semblante mais doce: — Desculpe, querida. Não queria assustá-la. Você está bem? Dói muito? Samanta sorriu, meio tímida, e disse: — Um pouquinho... mas tá quase ficano sarado. Maike cuidou dele. Olhei para Alessandro, que observava Samanta com uma expressão de emoção e alegria que eu não conseguia decifrar. — Algum problema, Alessandro? Perguntei, desconfiado. Ele desviou o olhar e respondeu: Alessandro — Nenhum problema. Mas, Maike, não a faça sofrer e nem a machuque... ou da próxima vez, serei eu a te surrar. Gosto da Sam. Ergui uma sobrancelha, surpreso, mas tentei disfarçar o calor que sentia com Samanta ainda sentada no meu colo... e a emoção profunda que me invadia ao tê-la me defendendo daquela maneira. Dona Vitória então disse: Vitória — Quando estiver melhor, quero que vá à minha casa. Adoraria passar uma tarde com você. Ela acariciou os cabelos de Samanta antes de se virar e ir embora. Alessandro a seguiu logo depois. Respirei fundo, tentando controlar a respiração acelerada. Levantei-me, ainda com Samanta no colo, e subi apressado para o quarto. Eu não sabia lidar com o que ela acabara de fazer comigo. Deixei-a no quarto e voltei para o meu escritório, sentindo o coração descompassado. Encostei a porta, servi uma dose de bebida, e murmurei para mim mesmo: — Samanta... o que você acabou de fazer comigo? Você é perigosa, garota... E virei o copo, sentindo o gosto amargo na boca.
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