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1217 Words
A manhã em que Emily recebeu alta do hospital chegou silenciosa, quase tranquila demais para tudo o que havia acontecido nas últimas semanas. O sol atravessava as grandes janelas do quarto hospitalar, espalhando uma luz dourada suave sobre os móveis brancos e sobre o lençol impecavelmente arrumado da cama. Pela primeira vez desde o acidente, Emily estava sentada, com as pernas pendendo levemente para fora da cama enquanto uma enfermeira ajustava o último curativo em seu braço. Seu corpo ainda estava fraco. Havia uma rigidez em seus músculos e uma leve tontura quando se movia rápido demais, mas os médicos garantiram que isso era normal. O impacto tinha sido forte, e o período de recuperação exigiria cuidado e descanso. Mesmo assim, ouvir a palavra alta foi como respirar ar puro depois de dias presa em um lugar onde tudo lembrava constantemente o acidente. Emily passou os dedos lentamente pela borda do lençol. — Então… eu realmente posso ir para casa? A enfermeira sorriu gentilmente. — Sim, senhora Laurent. Mas com algumas recomendações. Emily suspirou. — Eu imaginava. — Nada de esforço físico, nada de trabalho excessivo e principalmente descanso. Emily soltou uma pequena risada. — A última parte talvez seja a mais difícil. A enfermeira terminou de arrumar o curativo. — Seu marido já está resolvendo os papéis da saída. Emily levantou o olhar. Alexander. Ele havia estado ali praticamente todos os dias. Mesmo nos momentos em que ela tentava insistir que ele voltasse para o trabalho, ele apenas respondia com aquela calma firme que parecia impossível de discutir. “Minha empresa ainda não vai falir em três dias.” Foi o que ele disse certa vez. Emily ainda não sabia exatamente o que pensar sobre aquilo. Antes que pudesse continuar pensando, a porta do quarto se abriu. Alexander entrou. Ele estava vestido com um terno escuro impecável, mas havia algo mais relaxado em sua aparência hoje. A gravata estava ligeiramente solta e o paletó pendia aberto sobre os ombros largos. Seus olhos encontraram os de Emily imediatamente. — Então… a fugitiva está pronta? Emily arqueou uma sobrancelha. — Fugitiva? Ele aproximou-se da cama. — Você parece alguém que passou tempo demais presa aqui. Ela deu um pequeno sorriso. — Não está errado. Alexander observou o rosto dela por alguns segundos. Havia algo diferente. Ela parecia mais viva agora. Menos pálida. Menos frágil. E isso o tranquilizava mais do que ele estava disposto a admitir. — Vamos para casa — disse ele. --- A viagem até a mansão foi silenciosa. Emily estava no banco traseiro do carro, observando a cidade passar pela janela. As ruas pareciam estranhamente normais depois de tudo. As pessoas caminhavam pelas calçadas. Os carros seguiam seus trajetos. A vida continuava. Mas dentro dela, algo havia mudado. Ela não conseguia ignorar a sensação constante de que alguém a observava. De que havia uma sombra pairando sobre sua vida agora. Alexander dirigia com atenção. Ele percebeu várias vezes o olhar distante dela refletido no vidro da janela. Mas não disse nada. Algumas coisas precisavam de tempo. Quando o carro finalmente entrou pelos portões da casa, Emily franziu levemente a testa. — Está… quieto. Alexander estacionou. — Você esperava uma banda tocando? Ela soltou uma pequena risada. — Não… mas… Quando saíram do carro e entraram na casa, Emily percebeu imediatamente o que estava diferente. O silêncio. Antes, aquela casa tinha um movimento constante de funcionários. Empregadas. Cozinheiros. Assistentes. Motoristas. Agora parecia… calma. Quase acolhedora. Uma mulher mais velha surgiu do corredor. Elegante, com postura firme e um sorriso gentil. — Senhora Laurent… é um prazer tê-la de volta. Emily inclinou levemente a cabeça. — Obrigada. Alexander falou calmamente: — Emily, esta é Marta. Ela cuida da organização da casa. A mulher sorriu com carinho. — Pode me chamar de governanta se quiser, mas prefiro pensar que cuido da casa como se fosse da família. Emily gostou dela imediatamente. Logo depois apareceu uma jovem empregada, tímida, e um jardineiro que acenou educadamente do jardim através da porta aberta. Emily olhou ao redor. — Só… vocês? Alexander colocou as mãos nos bolsos. — Eu reduzi o número de funcionários. Emily virou-se para ele. — Reduziu? — Achei que você ficaria mais confortável assim. Ela piscou, surpresa. — Você fez isso… por mim? Alexander deu de ombros. — Uma casa cheia de desconhecidos não parecia uma boa ideia depois do que aconteceu. Emily sentiu algo aquecer dentro do peito. Ela não respondeu. Mas aquele gesto significava mais do que ela esperava. --- A noite chegou silenciosa. Emily passou a maior parte da tarde descansando no quarto. Marta havia preparado uma sopa leve. Alexander trabalhou por algumas horas no escritório da casa. Tudo parecia… quase normal. Mas quando a noite caiu completamente, algo mudou. O silêncio ficou mais pesado. Emily finalmente deitou-se na cama. O quarto estava escuro, iluminado apenas pela luz suave da varanda. Ela fechou os olhos. E o sono veio. Mas não trouxe paz. No sonho, ela estava novamente naquela estrada. O carro vinha em alta velocidade. O som do impacto. O grito do motorista. Vidros quebrando. E então outra cena. Seus pais. O funeral. O vazio. Depois Isadora. A única pessoa que a acolheu. E também a perdeu. Então uma voz. “Você deveria ter morrido com eles.” Emily acordou gritando. — NÃO! A porta do quarto abriu-se violentamente. Alexander entrou correndo. — Emily! Ela estava sentada na cama, tremendo, lágrimas escorrendo pelo rosto. — Ei… ei… Ele aproximou-se imediatamente. — Foi só um pesadelo. Emily respirava rápido demais. — Eles… todos foram embora… Alexander sentou-se na cama. — Quem? Ela soluçou. — Meus pais… Isadora… todos… As lágrimas continuavam caindo. — Eu estou sozinha… Alexander sentiu algo apertar no peito. Emily raramente mostrava fraqueza. Mas naquele momento ela parecia completamente quebrada. — Você não está sozinha. Ela balançou a cabeça. — Alguém quer me matar agora… Sua voz estava cheia de medo. — Eu não aguento perder mais ninguém… nem ser a próxima… Alexander segurou suavemente o rosto dela. — Emily, olha para mim. Ela levantou os olhos. — Eu não vou deixar nada acontecer com você. Ela respirou fundo. — Promete? — Prometo. Ela hesitou por alguns segundos. Depois disse algo que o surpreendeu. — Não vá embora esta noite. Alexander ficou imóvel. — O quê? Emily abaixou o olhar. — Eu sei que nosso acordo… e tudo mais… Ela parecia envergonhada. — Mas… eu estou com medo. O silêncio tomou conta do quarto. Então ela sussurrou: — Dorme aqui… comigo… só esta noite. Alexander observou o rosto dela. A vulnerabilidade. O medo real. Ele suspirou lentamente. — Está bem. Ele levantou-se e apagou a luz. Depois deitou-se na cama ao lado dela. Por alguns segundos, nenhum dos dois falou. Emily virou-se levemente. Sem pensar muito, encostou-se nele. Alexander ficou rígido por um momento. Mas então relaxou. Ela segurou levemente a camisa dele. Como se tivesse medo de que ele desaparecesse. Pouco a pouco, sua respiração começou a se acalmar. O sono voltou. Dessa vez… sem pesadelos. Alexander permaneceu acordado por mais algum tempo. Observando o teto. Sentindo o peso da cabeça dela encostada em seu ombro. E percebendo algo que talvez ele já soubesse… Aquela mulher que começou como parte de um acordo… Agora significava muito mais do que ele planejou.
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