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1129 Words
A noite já avançava quando Emily percebeu algo. Não era um pensamento completo. Não era uma ideia formada. Era apenas… uma sensação. Aquela inquietação que não desaparecia. Que ficava ali, no fundo da mente, como um aviso constante. Algo estava errado. Muito errado. Ela estava sentada no sofá, com o laptop aberto à sua frente, o brilho da tela refletindo nos seus olhos atentos. As imagens da festa ainda rodavam na sua cabeça — os movimentos, os rostos, os detalhes. Mas agora… Ela não via mais aquilo como uma memória. Via como evidência. — Ele não é aleatório — disse ela de repente. Alexander, que estava encostado na bancada da cozinha, levantou o olhar. — Quem? — O garçom. Ela virou o laptop na direção dele. — Ninguém simplesmente aparece, droga alguém e desaparece. — Concordo. Ele aproximou-se. — Já tentei puxar registros do evento. — E? — A lista de funcionários foi fornecida por uma empresa terceirizada. Emily franziu a testa. — Nome? — “ServElite”. Ela digitou rapidamente. — Isso não está certo… — O quê? — Não tem histórico consistente. Silêncio. Alexander cruzou os braços. — Empresa de fachada. Emily assentiu lentamente. — Provavelmente. O ar ficou mais pesado. — Ou seja… — disse ela — ele foi colocado lá. — Especificamente para você. Silêncio. A confirmação era clara demais. E perigosa demais. --- Horas depois… Eles já estavam mergulhados na investigação. Planilhas abertas. Listas de funcionários. Imagens capturadas do vídeo. — Aqui — disse Alexander, ampliando uma imagem. O rosto do garçom apareceu. Mais nítido agora. — Dá para reconhecer. Emily inclinou-se. — Vamos cruzar isso. — Já estou fazendo. Minutos passaram. Silêncio. Tensão. Até que… — Achei. Alexander virou o laptop. — Nome: Daniel Ribeiro. Emily repetiu mentalmente. — Daniel Ribeiro… — Registro recente. — Muito recente. Ela estreitou os olhos. — Isso não me cheira bem. — Não deveria. --- — Vamos encontrá-lo — disse Emily. Sem hesitação. Alexander olhou para ela. — Agora? — Antes que seja tarde. Silêncio. Ele pensou por um segundo. — Eu vou com você. — Óbvio. --- A cidade estava mais fria naquela noite. Ou talvez fosse apenas a sensação deles. O carro cortava as ruas com rapidez, os faróis iluminando o caminho enquanto o silêncio entre eles dizia tudo. — Isso está escalando — disse Alexander. — Já escalou. Emily olhava pela janela. — Primeiro o acidente. — Depois a festa. — Agora isso. Ela virou-se para ele. — Alguém quer me destruir. — E está disposto a matar. Silêncio. — Já matou — corrigiu ela. --- O endereço não era bom. Um prédio antigo. Mal iluminado. Com sinais claros de abandono parcial. — Parece o tipo de lugar que alguém escolheria para desaparecer — murmurou Emily. Alexander estacionou. — Ou para se esconder. Eles saíram. O ar ali era pesado. Carregado. — Fica atrás de mim — disse ele. Ela revirou os olhos. — Eu não— — Emily. O tom dele não permitia discussão. Ela suspirou. — Está bem. --- Subiram as escadas. O corredor era estreito. Pouca luz. Silêncio demais. Alexander bateu na porta. Nada. Bateu novamente. — Daniel! Silêncio. Emily sentiu um arrepio. — Tem algo errado… Alexander tentou a maçaneta. A porta abriu. Sem resistência. --- O cheiro veio primeiro. Ferro. Pesado. Inconfundível. Emily levou a mão à boca. — Não… Alexander entrou. Devagar. E então viu. O corpo. No chão. Imóvel. Olhos abertos. Sem vida. Um fio de sangue escorria lentamente pelo piso. Silêncio absoluto. — Chegamos tarde… A voz de Alexander saiu baixa. Controlada. Mas carregada. Emily não conseguia se mexer. — Não… Ela deu um passo à frente. — Não, não, não… — Emily, não chega perto. Mas ela já estava olhando. E entendendo. — Eles mataram ele… A voz dela tremia. — Eles apagaram a prova. --- Alexander pegou o telefone. — Polícia. Mas já sabia. Aquilo não ia resolver. Não completamente. --- Minutos depois… Sirene. Luzes. Movimento. Mas para Emily… Nada daquilo importava. Ela estava parada. Olhando para o corpo. — Era ele… — Era a única ligação. — E agora… Ela virou-se para Alexander. Os olhos cheios de algo novo. — Estamos na estaca zero. Silêncio. — Não. Ele respondeu firme. — Agora sabemos que é maior do que pensávamos. --- No caminho de volta… O silêncio era diferente. Mais pesado. Mais perigoso. — Eles estão um passo à frente — disse Emily. — Por enquanto. — Não. Ela virou-se para ele. — Eles tentaram me matar. — Mataram Isadora. — Mataram a única prova. Ela engoliu seco. — Eu sou a próxima. Silêncio. Alexander apertou o volante. — Não enquanto eu estiver aqui. Ela soltou uma pequena risada sem humor. — Você não pode controlar tudo. — Mas posso tentar. --- Quando chegaram em casa… Nada parecia seguro. Nem mesmo o próprio espaço. — Isso muda tudo — disse Alexander. — Eu sei. — Você não pode mais andar sozinha. — Eu sei. — Vamos colocar segurança. — Já devia ter feito isso. Silêncio. Ele pegou o telefone. — Quero dois homens aqui amanhã cedo. Pausa. — Não, hoje. — E mais dois para revezamento. Ele desligou. — Você vai ter proteção 24 horas. Emily cruzou os braços. — Eu não sou uma criança. — Não. Ele aproximou-se. — Você é um alvo. Silêncio. Ela não respondeu. Porque sabia. --- Naquela noite… Ela não dormiu. Ficou sentada na cama. Pensando. Repassando tudo. E um nome voltava. Sempre. Catherine. — Foi você… Mas não havia prova. E isso… Era o mais frustrante. --- Enquanto isso… Em outro lugar… Catherine observava calmamente. — E então? Victoria sorriu. — O problema foi resolvido. — Bom. Catherine levantou a taça. — Nenhuma ponta solta. Victoria inclinou a cabeça. — Eles vão suspeitar. Catherine sorriu. — Deixe. — Sem provas… — Eles não podem fazer nada. --- De volta à casa… Emily estava na janela. Olhando para fora. Quando viu. Um carro parado. Por tempo demais. Ela estreitou os olhos. — Alexander… Ele apareceu imediatamente. — O que foi? Ela apontou. — Aquele carro. Ele observou. Silêncio. Tenso. — Eu vou verificar. — Não. Ela segurou o braço dele. — Não vai sozinho. Silêncio. Eles se encararam. E naquele momento… Ambos entenderam. Aquilo não era mais apenas um jogo de poder. Era sobrevivência. --- — A partir de agora — disse Emily, mais firme — nós jogamos diferente. Alexander assentiu. — Mais cautela. — Mais estratégia. — E sem confiar em ninguém. Silêncio. — Nem na família. — Principalmente na família. --- E naquela noite… A guerra mudou. Não era mais sobre reputação. Nem sobre dinheiro. Era sobre vida. E morte. E quem quer que estivesse por trás disso… Já tinha provado uma coisa. Não ia parar.
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