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1030 Words
Quando Emily entrou discretamente na ala reservada à família Montclair, o silêncio do corredor parecia diferente do restante do palácio. Ali, o luxo era menos exibido. Mais tradicional. Mais permanente. Ela fechou a porta do quarto com cuidado e encostou-se nela por alguns segundos. A respiração ainda estava levemente acelerada. Não por culpa. Mas por lembrança. Uma lembrança icónica. Ela levou a mão aos próprios lábios, como se pudesse ainda sentir o calor daquele beijo. O toque firme. A condução segura. A maneira como ele a olhou — não como pupila, não como protegida, mas como mulher. Um pequeno sorriso curvou-lhe os lábios. — Loucura — murmurou para si mesma. Mas não se arrependia. Caminhou até o espelho antigo, moldura dourada herdada de gerações Montclair. Retirou a máscara lentamente, pousando-a sobre a penteadeira. O reflexo que a encarava parecia… diferente. Mais vivo. Mais desperto. Antes que pudesse mergulhar demais nos pensamentos, uma batida suave ecoou na porta. Duas batidas leves. Pausa. Uma terceira, quase brincalhona. Emily reconheceria aquele padrão em qualquer lugar. Ela abriu a porta com um sorriso que não mostrava no salão principal. — Já estava a perguntar-me se minha pequena sombra tinha fugido com algum príncipe mascarado — disse a voz elegante e cálida de Isadora Montclair. Isadora estava impecável como sempre. Mesmo às quatro da manhã. Vestido de seda azul-escuro, cabelo perfeitamente alinhado, postura ereta que intimidava conselhos administrativos inteiros. Seus olhos, no entanto, suavizavam quando pousavam sobre Emily. Ali não havia a empresária implacável. Havia afeto. — Eu não fugi — Emily respondeu, cruzando os braços com falsa indignação. — Apenas aproveitei a festa como a senhora mandou. Isadora ergueu uma sobrancelha elegante. — Senhora? Emily riu. — Está bem… Dora. O apelido fez Isadora suspirar teatralmente. — Muito melhor, minha estrelinha. Era assim que a chamava desde que Emily tinha nove anos. Estrelinha. Porque, segundo Isadora, ela brilhava mesmo quando não percebia. Emily abriu espaço para que ela entrasse no quarto. Com qualquer outra pessoa da família, Isadora manteria distância protocolar. Mas ali, sentou-se na beira da cama sem formalidades, retirando os saltos altos com um leve suspiro — algo que jamais faria diante de investidores ou dos próprios filhos. — Então? — perguntou Isadora, inclinando a cabeça. — Divertiu-se? Emily hesitou por um segundo mínimo. Isadora percebeu. Sempre percebia. — Estrelinha… — a voz tornou-se mais suave — eu conheço esse olhar. Emily sentou-se ao lado dela. — Eu dancei — respondeu, escolhendo as palavras. — E talvez tenha feito algo um pouco imprudente. Isadora sorriu devagar. — Imprudência bem escolhida, pare de ser tão séria , Meu Deus parece até uma velha, aproveite sua juventude Elas trocaram um olhar cúmplice. A relação entre as duas nunca foi apenas de benfeitora e protegida. Isadora não criara Emily por caridade. Criara porque enxergara nela algo raro: inteligência emocional, disciplina e uma força silenciosa que nenhum dos próprios filhos possuía. Vincent era ambicioso demais. Catherine era fria demais. Só estavam esperando que ela morresse para herdarem tudo o que ela construiu com tanto sacrifício Diferente de Emily. Emily era equilíbrio. — Só não parta corações que eu precise negociar depois — Isadora acrescentou com humor elegante. Emily riu. — Não sei nem o nome dele._ disse sincera — Melhor ainda — Isadora respondeu, levantando-se com leveza. Mas quando deu dois passos em direção à porta, algo quase imperceptível aconteceu. Um pequeno vacilo. Uma mínima perda de equilíbrio. Tão rápida que qualquer outra pessoa talvez não notasse. Emily notou. — Dora? Está tudo bem?— levantou-se imediatamente. Isadora recompôs-se no mesmo instante. Sorriso perfeito. Postura impecável. — Apenas cansaço, minha estrelinha. Estou a ficar velha. — A senhora não fica velha. A senhora compra empresas mais jovens — Emily retrucou, tentando aliviar. Isadora riu, mas havia algo diferente no brilho de seus olhos. Algo mais profundo. Mais cansado. Ela aproximou-se de Emily e segurou-lhe o rosto entre as mãos com carinho inesperado. — Nunca deixe que a façam sentir que não pertence a este lugar. Emily franziu levemente a testa. — Por que está dizendo isso agora? — Porque é verdade. A voz estava firme. Mas carregava um peso invisível. Isadora soltou-a e caminhou até a porta. — Descanse, estrelinha. O mundo corporativo começa cedo demais para quem foi imprudente à noite. Emily observou-a sair. A porta fechou-se suavemente. E o quarto ficou silencioso. Emíly estava sozinha, com seus pensamentos e nesse momentos seus pensamentos só se centravam no homem de máscara , na noite perfeita que ela teve, no quão sair da linha as vezes pode ser bom. _Tomara que eu nunca mais o veja . Uma parte dizia isso, mas outra adoraria repetir a dose , o homem é experiente e sabia muito o que fazia . E não é de um vicio que ela precisa no momento, foco nos negócios é tudo o que ela precisa. Liga a água do chuveiro, enquanto cantalora uma música qualquer, para ela que sempre tinha uma cara mau humorada, uma postura de general . Hoje estava leve, despreocupada e o melhor de tudo sem teias na sua amiguinha lá de baixo. Fazia muito tempo que ela não se deixava envolver por prazeres, os homens nunca a agradavam, nunca tinham presença o suficiente e na verdade ela nunca teve muita paciência para eles. **** Ela não sabia — não poderia imaginar — que, semanas antes, Isadora havia saído discretamente de uma consulta médica segurando exames que mudariam o rumo de tudo. Um diagnóstico que carregava em segredo. Uma doença silenciosa. Progressiva. Irreversível. Isadora Montclair sempre controlara tudo. Mercados. Concorrentes. Conselhos administrativos. Mas aquela batalha ela decidira enfrentar sozinha. Sem contar aos filhos. Sem contar ao conselho. E principalmente… Sem contar à sua estrelinha. Porque antes que o império precisasse saber, Emily precisava estar pronta. Pronta para liderar. Pronta para lutar. Pronta para sobreviver à família Montclair. Enquanto isso, no outro lado da cidade, um homem de máscara n***a guardava um cartão dobrado no bolso interno do paletó. E pensava na mulher que desaparecera antes do amanhecer. Sem saber que, anos depois, as decisões de uma empresária doente uniriam novamente dois destinos que acreditavam ter sido apenas uma noite.
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