O silêncio no escritório parecia mais pesado do que o habitual.
Emily Carter ainda estava sentada atrás de sua mesa quando Alexander Laurent terminou de falar.
A frase dele ainda ecoava em sua mente.
“Sobre a sua proposta… acho que podemos conversar novamente.”
Por um instante, Emily teve certeza de que havia entendido errado.
Ela piscou lentamente, como se precisasse de alguns segundos para processar o que estava acontecendo.
Alexander estava ali.
Parado no meio de seu escritório.
Calmo.
Com a mesma postura controlada que ela lembrava do restaurante.
Mas havia algo diferente em seu olhar daquela vez.
Menos irritação.
Mais decisão.
Emily fechou lentamente o computador diante de si.
— Pensei que já tivéssemos encerrado essa conversa — disse ela, mantendo o tom profissional.
Alexander deu alguns passos pelo escritório, observando o ambiente ao redor.
O espaço refletia perfeitamente quem Emily era.
Elegante.
Organizado.
Minimalista.
Nada estava fora do lugar.
Ele finalmente voltou a olhar para ela.
— Eu também pensei.
Emily cruzou os braços.
— Então o que mudou?
Alexander puxou uma das cadeiras diante da mesa e sentou-se com naturalidade.
— Eu pensei melhor.
Emily permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Parte dela queria perguntar imediatamente o que aquilo significava.
Mas a outra parte — a parte que sempre mantinha o controle nas negociações — preferiu esperar.
— E?
Alexander apoiou os cotovelos nos braços da cadeira.
— Sua proposta continua válida?
Emily sentiu algo apertar dentro do peito.
Ela tentou não demonstrar.
— Depende.
Uma sobrancelha dele se ergueu.
— Depende?
Emily levantou-se lentamente da cadeira.
— O senhor deixou bastante claro o que achava da proposta da última vez.
Alexander não desviou o olhar.
— Eu me lembro.
— Foi… constrangedor.
Ele suspirou discretamente.
— Sim.
Emily caminhou até a janela.
A cidade estava iluminada lá fora.
— Então imagino que tenha voltado para me dizer que reconsiderou a forma como reagiu.
Alexander inclinou a cabeça.
— Em parte.
Emily virou-se.
— Em parte?
Ele manteve o olhar firme.
— Ainda não gosto da ideia.
Emily soltou uma pequena risada sem humor.
— Isso é reconfortante.
Alexander continuou.
— Mas gosto ainda menos da ideia de ver minha empresa desaparecer.
As palavras foram diretas.
Sem enfeites.
Sem orgulho.
Emily observou-o com atenção.
Aquilo exigia uma certa dose de honestidade.
— Então decidiu considerar o acordo.
— Considerar.
Emily caminhou lentamente de volta à mesa.
— O que exatamente quer saber?
Alexander cruzou as mãos.
— Detalhes.
Emily sentou-se novamente.
— O casamento seria formal.
— Evidentemente.
— Discreto.
— Concordo.
— Duraria um ano.
Alexander inclinou levemente a cabeça.
— Apenas um?
— A cláusula do testamento exige apenas que eu esteja casada.
Ele refletiu por um momento.
— E depois?
— Depois cada um segue sua vida.
O silêncio que se seguiu foi longo.
Alexander parecia analisar cada palavra.
Emily observava cada reação.
Finalmente ele perguntou:
— E o investimento?
Emily abriu uma pasta sobre a mesa.
Ela havia preparado aquilo dias antes.
Talvez por esperança.
Ou talvez por teimosia.
— A Montclair Holdings poderia injetar capital suficiente para estabilizar a Laurent & Vale.
Alexander pegou o documento.
Começou a ler.
As cifras eram significativas.
Muito significativas.
Ele levantou os olhos.
— Isso não é apenas ajuda.
— Não.
— É uma reconstrução.
Emily assentiu.
— Exatamente.
Ele continuou analisando as páginas.
Depois de alguns minutos, colocou o documento sobre a mesa.
— Por que eu?
Emily demorou um pouco para responder.
— Porque você tem reputação.
— Isso não responde a pergunta.
Ela suspirou.
— Porque você não é um oportunista.
Alexander levantou levemente uma sobrancelha.
— E você tem certeza disso?
Emily manteve o olhar firme.
— Sim.
Ele a observou por alguns segundos.
— Interessante.
Emily continuou:
— Eu poderia escolher alguém mais fácil.
— Um dos candidatos que conheceu nos últimos dias?
Ela piscou surpresa.
— Como sabe disso?
Um pequeno sorriso apareceu no rosto dele.
— O mundo empresarial fala.
Emily suspirou.
— Então deve saber que não foram experiências muito… produtivas.
— Eu ouvi algo sobre astrologia.
Ela não conseguiu evitar um pequeno sorriso.
— Não me lembre disso.
O ambiente relaxou levemente.
Mas apenas por um momento.
Alexander recostou-se na cadeira.
— Existe outra razão.
Emily ficou em silêncio.
Ele percebeu.
— Existe, não é?
Ela desviou o olhar por um segundo.
— Talvez.
— Qual?
Emily hesitou.
— Você não parece o tipo de homem que tentaria tirar vantagem disso.
Alexander observou-a atentamente.
Havia algo sincero na forma como ela disse aquilo.
— Você confia em mim?
Emily respondeu com calma.
— Eu confio na sua reputação.
Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Então perguntou:
— E o contrário?
Emily franziu a testa.
— Como assim?
— Você espera que eu confie em você.
Ela não respondeu imediatamente.
— Sim.
— Mesmo depois de me oferecer um casamento como se fosse um contrato empresarial?
Emily sentiu novamente o calor subir ao rosto.
— Eu não tive muitas opções.
Alexander estudou sua expressão.
Pela primeira vez desde que entrou naquele escritório, percebeu algo que não havia notado antes.
Cansaço.
Muito cansaço.
— A pressão é tão grande assim?
Emily soltou um suspiro longo.
Por um momento, parecia que ela ia negar.
Mas acabou dizendo a verdade.
— Sim.
Alexander inclinou levemente a cabeça.
— Vincent?
Ela assentiu.
— Malena?
— Também.
Ele cruzou os braços.
— Imagino.
Emily apoiou os cotovelos na mesa.
— Eles querem me ver fracassar.
Alexander não parecia surpreso.
— Famílias costumam ser complicadas.
Emily soltou uma pequena risada.
— Essa é uma forma gentil de descrever.
O silêncio voltou.
Mas desta vez não era desconfortável.
Alexander levantou-se da cadeira e caminhou até a janela.
Observou a cidade por alguns segundos.
Emily esperava.
Finalmente ele falou:
— Minha mãe sempre quis uma nora.
Emily piscou surpresa.
— Isso faz parte da negociação?
Ele virou-se com um leve sorriso.
— Não exatamente.
Ela não respondeu.
Alexander continuou:
— Mas acho que ela aceitaria uma nora temporária.
Emily cruzou os braços.
— Fico feliz em saber que serei apresentada como um projeto temporário.
Ele soltou um pequeno riso.
— Pelo menos estamos sendo honestos.
Ela não podia discordar.
Alexander caminhou lentamente de volta à mesa.
Parou diante dela.
— Existem regras?
Emily franziu a testa.
— Regras?
— Sim.
— Como?
Ele apoiou uma mão na mesa.
— Estamos falando de um casamento.
Ela percebeu onde ele queria chegar.
— Sem expectativas pessoais.
— Sem interferência na vida privada.
— Exatamente.
Ele assentiu.
— E sem sentimentos.
Emily respondeu rapidamente:
— Claro.
Alexander a observou por alguns segundos.
Depois estendeu a mão sobre a mesa.
— Então acho que temos um acordo.
Emily olhou para a mão dele.
Por um momento, hesitou.
Aquele aperto de mão mudaria tudo.
Sua posição na empresa.
Seu futuro.
Talvez muito mais.
Mas ela não tinha escolha.
Emily colocou a mão na dele.
— Temos um acordo.
O aperto de mão foi firme.
Profissional.
Mas quando soltaram as mãos, algo estranho permaneceu no ar.
Uma sensação difícil de explicar.
Alexander pegou o documento novamente.
— Acho que precisamos falar com advogados.
Emily assentiu.
— Amanhã.
Ele caminhou até a porta.
Antes de sair, olhou novamente para ela.
— Senhorita Carter.
— Sim?
— Espero que saiba no que está se metendo.
Emily respondeu calmamente:
— Poderia dizer o mesmo.
Alexander abriu a porta.
Mas antes de sair, disse algo inesperado.
— Aliás…
Ela levantou os olhos.
— Sim?
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Você ainda me parece familiar.
Emily congelou por um segundo.
Mas respondeu com calma.
— Talvez já tenhamos nos visto antes.
Alexander observou-a por alguns segundos.
Depois saiu do escritório.
E Emily ficou ali.
Sentada.
Tentando convencer a si mesma de que aquilo era apenas um acordo.
Nada mais.