10

1306 Words
O silêncio no escritório parecia mais pesado do que o habitual. Emily Carter ainda estava sentada atrás de sua mesa quando Alexander Laurent terminou de falar. A frase dele ainda ecoava em sua mente. “Sobre a sua proposta… acho que podemos conversar novamente.” Por um instante, Emily teve certeza de que havia entendido errado. Ela piscou lentamente, como se precisasse de alguns segundos para processar o que estava acontecendo. Alexander estava ali. Parado no meio de seu escritório. Calmo. Com a mesma postura controlada que ela lembrava do restaurante. Mas havia algo diferente em seu olhar daquela vez. Menos irritação. Mais decisão. Emily fechou lentamente o computador diante de si. — Pensei que já tivéssemos encerrado essa conversa — disse ela, mantendo o tom profissional. Alexander deu alguns passos pelo escritório, observando o ambiente ao redor. O espaço refletia perfeitamente quem Emily era. Elegante. Organizado. Minimalista. Nada estava fora do lugar. Ele finalmente voltou a olhar para ela. — Eu também pensei. Emily cruzou os braços. — Então o que mudou? Alexander puxou uma das cadeiras diante da mesa e sentou-se com naturalidade. — Eu pensei melhor. Emily permaneceu em silêncio por alguns segundos. Parte dela queria perguntar imediatamente o que aquilo significava. Mas a outra parte — a parte que sempre mantinha o controle nas negociações — preferiu esperar. — E? Alexander apoiou os cotovelos nos braços da cadeira. — Sua proposta continua válida? Emily sentiu algo apertar dentro do peito. Ela tentou não demonstrar. — Depende. Uma sobrancelha dele se ergueu. — Depende? Emily levantou-se lentamente da cadeira. — O senhor deixou bastante claro o que achava da proposta da última vez. Alexander não desviou o olhar. — Eu me lembro. — Foi… constrangedor. Ele suspirou discretamente. — Sim. Emily caminhou até a janela. A cidade estava iluminada lá fora. — Então imagino que tenha voltado para me dizer que reconsiderou a forma como reagiu. Alexander inclinou a cabeça. — Em parte. Emily virou-se. — Em parte? Ele manteve o olhar firme. — Ainda não gosto da ideia. Emily soltou uma pequena risada sem humor. — Isso é reconfortante. Alexander continuou. — Mas gosto ainda menos da ideia de ver minha empresa desaparecer. As palavras foram diretas. Sem enfeites. Sem orgulho. Emily observou-o com atenção. Aquilo exigia uma certa dose de honestidade. — Então decidiu considerar o acordo. — Considerar. Emily caminhou lentamente de volta à mesa. — O que exatamente quer saber? Alexander cruzou as mãos. — Detalhes. Emily sentou-se novamente. — O casamento seria formal. — Evidentemente. — Discreto. — Concordo. — Duraria um ano. Alexander inclinou levemente a cabeça. — Apenas um? — A cláusula do testamento exige apenas que eu esteja casada. Ele refletiu por um momento. — E depois? — Depois cada um segue sua vida. O silêncio que se seguiu foi longo. Alexander parecia analisar cada palavra. Emily observava cada reação. Finalmente ele perguntou: — E o investimento? Emily abriu uma pasta sobre a mesa. Ela havia preparado aquilo dias antes. Talvez por esperança. Ou talvez por teimosia. — A Montclair Holdings poderia injetar capital suficiente para estabilizar a Laurent & Vale. Alexander pegou o documento. Começou a ler. As cifras eram significativas. Muito significativas. Ele levantou os olhos. — Isso não é apenas ajuda. — Não. — É uma reconstrução. Emily assentiu. — Exatamente. Ele continuou analisando as páginas. Depois de alguns minutos, colocou o documento sobre a mesa. — Por que eu? Emily demorou um pouco para responder. — Porque você tem reputação. — Isso não responde a pergunta. Ela suspirou. — Porque você não é um oportunista. Alexander levantou levemente uma sobrancelha. — E você tem certeza disso? Emily manteve o olhar firme. — Sim. Ele a observou por alguns segundos. — Interessante. Emily continuou: — Eu poderia escolher alguém mais fácil. — Um dos candidatos que conheceu nos últimos dias? Ela piscou surpresa. — Como sabe disso? Um pequeno sorriso apareceu no rosto dele. — O mundo empresarial fala. Emily suspirou. — Então deve saber que não foram experiências muito… produtivas. — Eu ouvi algo sobre astrologia. Ela não conseguiu evitar um pequeno sorriso. — Não me lembre disso. O ambiente relaxou levemente. Mas apenas por um momento. Alexander recostou-se na cadeira. — Existe outra razão. Emily ficou em silêncio. Ele percebeu. — Existe, não é? Ela desviou o olhar por um segundo. — Talvez. — Qual? Emily hesitou. — Você não parece o tipo de homem que tentaria tirar vantagem disso. Alexander observou-a atentamente. Havia algo sincero na forma como ela disse aquilo. — Você confia em mim? Emily respondeu com calma. — Eu confio na sua reputação. Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos. Então perguntou: — E o contrário? Emily franziu a testa. — Como assim? — Você espera que eu confie em você. Ela não respondeu imediatamente. — Sim. — Mesmo depois de me oferecer um casamento como se fosse um contrato empresarial? Emily sentiu novamente o calor subir ao rosto. — Eu não tive muitas opções. Alexander estudou sua expressão. Pela primeira vez desde que entrou naquele escritório, percebeu algo que não havia notado antes. Cansaço. Muito cansaço. — A pressão é tão grande assim? Emily soltou um suspiro longo. Por um momento, parecia que ela ia negar. Mas acabou dizendo a verdade. — Sim. Alexander inclinou levemente a cabeça. — Vincent? Ela assentiu. — Malena? — Também. Ele cruzou os braços. — Imagino. Emily apoiou os cotovelos na mesa. — Eles querem me ver fracassar. Alexander não parecia surpreso. — Famílias costumam ser complicadas. Emily soltou uma pequena risada. — Essa é uma forma gentil de descrever. O silêncio voltou. Mas desta vez não era desconfortável. Alexander levantou-se da cadeira e caminhou até a janela. Observou a cidade por alguns segundos. Emily esperava. Finalmente ele falou: — Minha mãe sempre quis uma nora. Emily piscou surpresa. — Isso faz parte da negociação? Ele virou-se com um leve sorriso. — Não exatamente. Ela não respondeu. Alexander continuou: — Mas acho que ela aceitaria uma nora temporária. Emily cruzou os braços. — Fico feliz em saber que serei apresentada como um projeto temporário. Ele soltou um pequeno riso. — Pelo menos estamos sendo honestos. Ela não podia discordar. Alexander caminhou lentamente de volta à mesa. Parou diante dela. — Existem regras? Emily franziu a testa. — Regras? — Sim. — Como? Ele apoiou uma mão na mesa. — Estamos falando de um casamento. Ela percebeu onde ele queria chegar. — Sem expectativas pessoais. — Sem interferência na vida privada. — Exatamente. Ele assentiu. — E sem sentimentos. Emily respondeu rapidamente: — Claro. Alexander a observou por alguns segundos. Depois estendeu a mão sobre a mesa. — Então acho que temos um acordo. Emily olhou para a mão dele. Por um momento, hesitou. Aquele aperto de mão mudaria tudo. Sua posição na empresa. Seu futuro. Talvez muito mais. Mas ela não tinha escolha. Emily colocou a mão na dele. — Temos um acordo. O aperto de mão foi firme. Profissional. Mas quando soltaram as mãos, algo estranho permaneceu no ar. Uma sensação difícil de explicar. Alexander pegou o documento novamente. — Acho que precisamos falar com advogados. Emily assentiu. — Amanhã. Ele caminhou até a porta. Antes de sair, olhou novamente para ela. — Senhorita Carter. — Sim? — Espero que saiba no que está se metendo. Emily respondeu calmamente: — Poderia dizer o mesmo. Alexander abriu a porta. Mas antes de sair, disse algo inesperado. — Aliás… Ela levantou os olhos. — Sim? Ele inclinou levemente a cabeça. — Você ainda me parece familiar. Emily congelou por um segundo. Mas respondeu com calma. — Talvez já tenhamos nos visto antes. Alexander observou-a por alguns segundos. Depois saiu do escritório. E Emily ficou ali. Sentada. Tentando convencer a si mesma de que aquilo era apenas um acordo. Nada mais.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD