A manhã havia começado mais cedo do que o habitual para Emily Carter.
O escritório da Montclair Holdings já estava em pleno funcionamento quando ela chegou, vestindo um elegante conjunto creme e carregando consigo uma pasta cheia de documentos que ainda precisava revisar antes da reunião do conselho.
Apesar da postura firme e da rotina disciplinada que mantinha todos os dias, havia algo diferente naquela manhã.
Algo que a incomodava profundamente.
Emily atravessou o corredor principal do último andar enquanto funcionários a cumprimentavam com respeito.
— Bom dia, senhora Carter.
— Bom dia, Emily.
Ela respondia com um pequeno aceno educado, mantendo sempre a compostura.
Quando entrou em seu escritório, encontrou sua secretária já sentada à pequena mesa externa organizando a agenda do dia.
Clara Menezes.
Clara trabalhava com Emily há quase seis anos e era uma das poucas pessoas em quem ela realmente confiava dentro da empresa. Era eficiente, discreta e tinha um senso de humor muito particular que, em certos momentos, salvava Emily de dias excessivamente estressantes.
Assim que levantou os olhos do tablet, Clara sorriu.
— Bom dia, chefe.
Emily pousou a bolsa sobre a mesa e suspirou.
— Não me diga que a agenda está pior do que ontem.
Clara inclinou a cabeça.
— Não está pior… mas também não está melhor.
Emily soltou um pequeno suspiro cansado.
— Maravilha.
Clara levantou-se e entrou no escritório com o tablet nas mãos.
— Antes da reunião com os acionistas, temos algo que precisamos discutir.
Emily ergueu uma sobrancelha.
— Isso nunca começa bem.
Clara sentou-se na cadeira diante da mesa.
— Sobre a cláusula do testamento.
O humor leve desapareceu imediatamente do rosto de Emily.
Ela apoiou os cotovelos na mesa.
— Eu estava tentando não pensar nisso hoje.
— Infelizmente, ignorar não vai fazer desaparecer — respondeu Clara com naturalidade.
Emily encostou-se na cadeira.
— Ainda me parece absurdo.
— Concordo.
— Um casamento.
Clara deu de ombros.
— Tecnicamente, um casamento estratégico.
Emily soltou uma pequena risada sem humor.
— Que palavra elegante para chantagem legal.
Clara abriu o tablet e começou a deslizar alguns perfis.
— Eu já pensei em algumas possibilidades.
Emily franziu a testa.
— Você… o quê?
— Não vamos fingir que isso não precisa ser resolvido — disse Clara com calma. — Então decidi ajudar.
Emily a encarou por alguns segundos.
— Clara… você está me dizendo que fez uma lista de possíveis maridos?
— Candidatos — corrigiu ela com um sorriso.
Emily passou a mão pela testa.
— Isso é ridículo.
— Talvez.
— Completamente constrangedor.
— Provavelmente.
— Humilhante.
— Um pouco.
Emily suspirou profundamente.
— Mostre a lista.
Clara girou o tablet.
— Primeiro candidato: Eduardo Vasconcelos. Empresário, quarenta e dois anos, divorciado, investidor no setor imobiliário.
Emily cruzou os braços.
— Parece promissor.
Clara sorriu.
— Ele aceitou um almoço.
Emily ficou em silêncio por alguns segundos.
— Eu realmente vou fazer isso?
— Vai.
— Não acredito.
Clara apenas abriu a agenda.
— O almoço é daqui a uma hora.
Emily fechou os olhos por um momento.
— Que Deus tenha piedade de mim.
---
O restaurante escolhido era discreto e sofisticado.
Eduardo Vasconcelos já estava sentado quando Emily chegou.
Ele se levantou imediatamente.
— Senhorita Carter, é um prazer conhecê-la.
Emily sorriu educadamente.
— O prazer é meu.
Os dois se sentaram.
Nos primeiros minutos, a conversa seguiu de maneira relativamente normal. Falaram sobre negócios, investimentos e viagens.
Mas bastaram quinze minutos para Emily perceber que algo estava errado.
Muito errado.
— Então… — disse Eduardo, inclinando-se ligeiramente sobre a mesa — você gosta de astrologia?
Emily piscou algumas vezes.
— Desculpe?
— Astrologia — repetiu ele animado. — Eu baseio quase todas as minhas decisões nos movimentos dos planetas.
Emily permaneceu imóvel por alguns segundos.
— Suas… decisões empresariais?
— Claro!
Ele tirou um pequeno caderno do bolso.
— Por exemplo, eu nunca assino contratos quando Mercúrio está retrógrado.
Emily tentou manter a expressão neutra.
— Fascinante.
Eduardo continuou animado.
— Inclusive consultei meu astrólogo antes de vir hoje. Ele disse que hoje é um dia excelente para conexões emocionais profundas.
Emily tomou um gole lento de água.
— Que… encorajador.
Quarenta minutos depois, ela já tinha certeza absoluta de uma coisa.
Aquele homem jamais seria uma opção.
---
Dois dias depois houve outro encontro.
Desta vez com um jovem herdeiro do setor tecnológico.
Nos primeiros cinco minutos ele passou mais tempo tirando fotos da própria comida do que conversando.
— Isso é para minhas redes sociais — explicou ele.
Emily observou em silêncio enquanto ele ajustava o ângulo do telefone.
— Tenho mais de duzentos mil seguidores.
— Impressionante.
— Eles adoram ver meu estilo de vida.
Ele finalmente guardou o telefone.
— Então… você gosta de festas?
— Às vezes.
— Perfeito! Estou organizando uma rave gigantesca no próximo mês.
Emily piscou lentamente.
— Uma… rave?
— Sim! Vai durar três dias.
Ela bebeu outro gole de água.
— Três dias.
— Vai ser lendária.
Emily decidiu naquele momento que precisava sair dali o mais rápido possível.
---
O terceiro encontro foi ainda pior.
O homem passou metade do jantar falando sobre sua ex-esposa e a outra metade perguntando quanto Emily realmente havia herdado.
---
Na sexta-feira à tarde, Emily estava sentada em seu escritório com uma expressão absolutamente cansada.
Clara entrou trazendo duas xícaras de café.
— Sobreviveu.
Emily apoiou a testa na mesa.
— Eu prefiro negociar com três conselhos de administração hostis ao mesmo tempo.
Clara sentou-se diante dela.
— Nenhum candidato promissor?
Emily levantou a cabeça lentamente.
— Um acredita em horóscopo empresarial.
Clara tentou conter o riso.
— O segundo quer me levar para uma rave de três dias.
Clara começou a rir.
— E o terceiro basicamente perguntou quanto dinheiro eu tenho.
Agora Clara já não conseguia parar de rir.
Emily apontou para ela.
— Você achou isso uma boa ideia.
— Admito que talvez tenhamos começado com os exemplos errados.
Emily recostou-se na cadeira.
— Não existe exemplo certo.
Clara ficou pensativa por alguns segundos.
Então apoiou o queixo na mão.
— Talvez exista.
Emily estreitou os olhos.
— Estou com medo de perguntar.
Clara virou o tablet lentamente.
— Alexander Laurent.
Emily franziu a testa.
— O empresário?
— O próprio.
— A empresa dele está em dificuldades.
— Exatamente.
Emily cruzou os braços.
— Clara…
— Pense bem — continuou ela calmamente. — Ele tem reputação impecável, educação impecável e presença impecável.
Emily permaneceu em silêncio.
Clara continuou.
— Além disso, ele precisa de apoio financeiro.
Emily tamborilou os dedos sobre a mesa.
— Você está sugerindo um acordo.
— Um acordo extremamente conveniente para os dois lados.
Emily levantou-se e caminhou até a janela do escritório.
A cidade se estendia abaixo dela.
Clara observava em silêncio.
Depois de alguns segundos, Emily falou:
— Você sempre tem ideias perigosas.
Clara sorriu.
— É por isso que você me mantém por perto.
Emily continuou olhando a cidade.
E pela primeira vez naquela semana…
A ideia não parecia completamente absurda.