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1218 Words
Se existe algo mais difícil do que admitir sentimentos, é fingir que eles não existem. Eu descobri isso da forma mais dolorosa possível. Depois do beijo. Depois daquele momento que mudou tudo — ou que deveria ter mudado — eu tomei a decisão mais racional que consegui encontrar: manter distância. Porque a razão ainda precisava vencer o coração. Ou pelo menos eu continuava tentando convencer a mim mesma disso. Aquela noite terminou comigo praticamente fugindo para o quarto, fechando a porta e apoiando as costas contra ela enquanto tentava controlar a respiração. Meu coração estava batendo tão rápido que parecia que ia saltar do peito. Eu tinha beijado Alexander. Não. Pior. Eu tinha correspondido ao beijo. E não foi um beijo qualquer. Foi o tipo de beijo que faz o mundo desaparecer por alguns segundos. Foi o tipo de beijo que faz você esquecer quem você é, o que prometeu e o que deveria evitar. E foi exatamente por isso que eu fugi. Porque eu sabia o que aconteceria se eu me permitisse continuar naquele caminho. Em um ano tudo acabaria. O contrato. O casamento de fachada. A convivência. E provavelmente Alexander seguiria sua vida como sempre fez. Eu não. Eu sabia que não. Porque eu já tinha perdido pessoas demais. Meus pais. Isadora. E eu sobrevivi a essas perdas porque não tive escolha. Mas me apaixonar por alguém que já tem uma data marcada para sair da minha vida? Isso seria uma decisão consciente de quebrar meu próprio coração. Então eu fiz a única coisa que me pareceu sensata. Distância. --- Os dias seguintes foram… estranhos. Nós continuamos morando na mesma casa. Dividindo o mesmo espaço. Mas a atmosfera havia mudado completamente. Antes existia uma espécie de tensão silenciosa entre nós. Agora existia uma distância cuidadosamente construída. Alexander não mencionou o beijo. Nem uma única vez. E eu também não. Durante o café da manhã falávamos apenas o necessário. Perguntas simples. Respostas educadas. Nada pessoal. Nada emocional. Nada perigoso. Às vezes nossos olhares se encontravam por um segundo a mais do que deveriam. Mas então um de nós desviava. Era como se estivéssemos andando em um campo minado. Cada passo precisava ser calculado. Cada palavra precisava ser neutra. E o pior de tudo? Eu sentia falta da forma como ele olhava para mim antes. Isso era ridículo. Porque fui eu quem criou aquela distância. Eu quem decidiu colocar aquela barreira. Mas mesmo assim… Sentir que ele estava respeitando essa barreira doía mais do que eu esperava. --- Na manhã daquele dia específico, eu precisava sair para um almoço de negócios. Depois do acidente, a empresa havia acumulado alguns compromissos que exigiam minha presença. Clara insistiu que eu voltasse devagar. — Sem exageros, Emily — disse ela enquanto organizava alguns documentos na mesa do escritório. — Os médicos disseram descanso. — Almoçar com sócios não vai me matar — respondi. Ela levantou uma sobrancelha. — Depois do que aconteceu na estrada, eu prefiro não duvidar de nada. Eu suspirei. — Eu vou ficar bem. Clara me observou por alguns segundos. — Alexander sabe que você vai sair? Eu hesitei por um momento. — Sabe. Ela sorriu levemente. — Ele não parece muito feliz com a ideia. Eu peguei minha bolsa. — Ele não precisa estar feliz. Clara soltou uma pequena risada. — Vocês dois são muito teimosos. Se ela soubesse o quanto. --- O restaurante onde o almoço aconteceria ficava em uma área sofisticada da cidade. Era elegante, moderno, cheio de janelas grandes que deixavam a luz entrar de forma suave. Quando cheguei, os sócios já estavam lá. Dois homens e uma mulher que representavam uma empresa de investimentos interessada em uma parceria com a empresa que eu administrava. As primeiras meia hora passaram rapidamente. Falamos sobre números. Projetos. Expansões. Era o tipo de conversa que exigia atenção, foco e raciocínio lógico. Algo que normalmente eu fazia com facilidade. Mas naquele dia minha mente parecia um pouco dispersa. Talvez fosse o cansaço. Talvez fossem os acontecimentos das últimas semanas. Ou talvez fosse o fato de que Alexander ainda ocupava espaço demais nos meus pensamentos. Eu estava no meio de uma explicação sobre um dos projetos quando algo no restaurante chamou minha atenção. Não foi um som. Nem uma voz. Foi simplesmente uma sensação. Aquele tipo de sensação estranha que faz você levantar os olhos sem saber exatamente por quê. E então eu vi. Alexander. Ele estava entrando no restaurante. Meu coração imediatamente acelerou. Por um segundo pensei que talvez fosse coincidência. Mas então percebi que ele não estava sozinho. Ao lado dele havia uma mulher. Alta. Elegante. Bonita. Muito bonita. Ela usava um vestido claro que destacava sua postura confiante. E o pior de tudo? Ela parecia extremamente confortável ao lado dele. Alexander estava falando alguma coisa e ela riu. Riu daquela forma leve e natural que pessoas usam quando estão à vontade. Algo dentro de mim apertou. Eu rapidamente desviei o olhar, tentando voltar para a conversa na mesa. Mas minha concentração já havia desaparecido completamente. — Senhora Laurent? Eu levantei os olhos. Um dos sócios me observava com curiosidade. — Está tudo bem? — Sim — respondi rapidamente. — Desculpe. Continuei a explicação. Ou pelo menos tentei. Porque meus olhos insistiam em se mover na direção da outra mesa. Alexander e a mulher estavam sentados agora. Conversando. Ela tocou levemente o braço dele enquanto falava. Um gesto casual. Natural. Mas que fez meu estômago revirar. Isso era ridículo. Completamente ridículo. Alexander não me devia absolutamente nada. Nosso casamento era um contrato. Um acordo. Nada mais. Ele podia sair com quem quisesse. Conversar com quem quisesse. Jantar com quem quisesse. E mesmo assim… Cada vez que aquela mulher sorria para ele, algo dentro de mim ficava mais quente. Mais irritado. Mais… possessivo. Eu odeiei perceber isso. Mas o pior ainda estava por vir. O almoço terminou cerca de quarenta minutos depois. Meus sócios começaram a se levantar. E foi nesse momento que Alexander também se levantou. A mulher ao lado dele fez o mesmo. Eles conversaram mais alguns segundos. E então… Ela o abraçou. Não foi um abraço formal. Foi um abraço apertado. Íntimo. Como se houvesse uma proximidade real entre eles. Eu senti algo ferver dentro de mim. Meu coração começou a bater mais forte. Minhas mãos apertaram a bolsa com força. Eles se afastaram. Ela disse algo que o fez sorrir. E então saiu do restaurante. Alexander permaneceu ali por alguns segundos. E foi nesse momento que nossos olhares se encontraram. Diretamente. Ele me viu. Eu sabia que viu. E pelo olhar dele… percebi que ele também sabia que eu tinha visto tudo. Um silêncio estranho pareceu surgir entre nós, mesmo estando em lados opostos do restaurante. Eu desviei o olhar primeiro. Porque se continuasse olhando… Eu provavelmente faria algo e******o. E eu já estava lutando demais comigo mesma naquele momento. Saí do restaurante com os sócios. Conversamos mais alguns minutos na entrada. Mas minha mente estava completamente em outro lugar. No abraço. No sorriso. Na forma como aquela mulher parecia confortável demais ao lado dele. Ridículo. Absolutamente ridículo. Mas ainda assim… Quando finalmente entrei no carro para voltar para casa, percebi uma coisa perturbadora. Eu estava com ciúmes. E isso era exatamente o tipo de sentimento que eu estava tentando evitar desde o começo.
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