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1135 Words
O restante da manhã passou… mas não passou de verdade. Para Emily, o tempo parecia arrastar-se de forma estranha. Ela estava sentada em sua cadeira, diante da grande mesa de madeira escura no escritório, com vários documentos abertos, relatórios importantes à sua frente… mas sua mente não estava ali. Nem perto. Estava de volta àquela manhã. Àquele quarto. Àquele olhar. Ela fechou os olhos por um segundo. Droga. — Senhora Laurent? A voz de um dos diretores a trouxe de volta. Emily abriu os olhos imediatamente. — Sim? — Sobre a proposta da expansão… — ele continuou, um pouco hesitante — a senhora gostaria de rever os números antes de assinarmos? Emily piscou lentamente. Os números. Sim. Claro. Trabalho. Foco. Ela respirou fundo e endireitou a postura. — Sim, claro. Pode deixar os documentos comigo. O homem assentiu e saiu. Assim que a porta se fechou, Emily deixou o corpo recostar na cadeira. Passou as mãos pelo rosto. — Concentre-se… — murmurou para si mesma. Mas era difícil. Porque cada vez que tentava focar… Uma memória surgia. O toque dele. A voz dele. A forma como ele dizia seu nome, como se aquilo tivesse significado. Ela abriu os olhos rapidamente. — Não. Bateu levemente com a caneta na mesa, tentando afastar os pensamentos. Não podia se permitir isso. Não agora. Não com tudo o que estava em jogo. Uma batida na porta. — Entre. Clara entrou com um tablet nas mãos. Mas parou assim que olhou para Emily. — Você ainda está com essa cara. Emily ergueu uma sobrancelha. — Que cara? Clara aproximou-se lentamente. — A cara de quem está sorrindo por fora… e completamente perdida por dentro. Emily soltou um suspiro. — Clara… — Não, eu estou fascinada — continuou Clara, apoiando-se levemente na mesa. — Você está tentando agir como se nada tivesse acontecido, mas está completamente… fora do eixo. Emily cruzou os braços. — Eu estou perfeitamente bem. Clara sorriu de lado. — Claro. Silêncio. — Ele mexeu com você — disse Clara, mais baixo agora. Emily desviou o olhar. — Não é isso. — Então o que é? Emily hesitou. E dessa vez, não conseguiu esconder. — Eu perdi o controle. Clara ficou em silêncio por um segundo. Depois, muito calmamente: — Pela primeira vez. Emily fechou os olhos. — Eu não faço isso. — Eu sei. — Eu não me deixo levar. — Eu sei. Emily abriu os olhos novamente. — E agora… eu não sei o que fazer. Clara cruzou os braços. — Você sabe. Emily franziu a testa. — Não sei. — Sabe sim. Só não quer admitir. Emily ficou em silêncio. Porque talvez… Talvez Clara estivesse certa. --- Horas depois… Emily estava finalmente conseguindo se concentrar. Ou pelo menos fingindo muito bem. Uma reunião importante estava em andamento. Três investidores sentados à sua frente. Clara ao lado. Apresentação aberta na tela. Tudo sob controle. Ou quase. — Como podem ver — dizia Emily, com a voz firme e segura —, essa expansão não só aumentará a margem de lucro, como também fortalecerá a posição da empresa no mercado internacional. Os investidores assentiam. Impressionados. Como sempre. Porque aquela era a Emily que todos conheciam. Forte. Brilhante. Inabalável. — Senhora Laurent — disse um deles —, devo admitir que sua visão estratégica é… excepcional. Emily sorriu. — Agradeço. Mas então… A porta se abriu. Sem aviso. Clara franziu imediatamente a testa. — Eu pedi para não— Ela parou. Porque viu quem era. E o silêncio que se seguiu na sala foi imediato. Alexander Laurent. De pé na porta. Impecável. Elegante. Dominante. Como se aquele lugar também fosse dele. Os olhos dele foram direto para Emily. E ficaram ali. Sem pressa. Sem disfarce. Emily sentiu o corpo inteiro reagir. Mas não demonstrou. Não ali. Não na frente de todos. — Espero não estar interrompendo — disse ele, com um leve tom de formalidade. Mentira. Ele sabia exatamente o que estava fazendo. Emily manteve a postura. — Está em uma reunião. — Percebi. Ele entrou assim mesmo. Os investidores trocaram olhares. Claramente reconheciam quem ele era. — Senhor Laurent… — disse um deles, levantando-se rapidamente — é um prazer. Alexander apertou a mão dele com um leve sorriso. — O prazer é meu. Mas o olhar dele voltou imediatamente para Emily. Sempre para ela. — Continue — disse ele, como se estivesse dando permissão. Emily o encarou por um segundo. Aquele homem… Ela respirou fundo. — Como eu estava dizendo… Mas agora era mais difícil. Muito mais. Porque ele estava ali. Observando. Analisando. Provocando… sem dizer uma única palavra. Ela continuou a apresentação. Perfeita. Impecável. Mas por dentro… Era um caos. --- Minutos depois, a reunião terminou. Os investidores saíram. Clara também, com um último olhar curioso para Emily. A porta se fechou. E então… Silêncio. Emily permaneceu de pé. De costas para ele. — Você perdeu a noção? A voz dela saiu controlada. Mas carregada de irritação. Alexander deu alguns passos pelo escritório. Calmo. — Vim ver minha esposa. Ela virou-se imediatamente. — Não aqui. — Por quê? — Porque isso é trabalho. Ele inclinou a cabeça. — E eu sou um problema? — Sim. A resposta foi rápida. Direta. E sincera. Alexander sorriu levemente. — Interessante. Emily cruzou os braços. — O que você quer? Ele parou na frente dela. Perto demais. — Ver você. O coração dela falhou uma batida. Mas ela manteve a expressão firme. — Já viu. — Não o suficiente. Silêncio. O ar ficou pesado novamente. — Você não deveria estar aqui — disse ela. — Eu sei. — Então por que está? Alexander a observou por alguns segundos. — Porque você está fugindo de mim. Emily riu sem humor. — Eu não estou fugindo. — Está sim. — Não estou. Ele deu mais um passo. Agora estavam perigosamente próximos. — Então olhe para mim… Ela olhou. Erro. Grande erro. Porque o olhar dele estava diferente. Mais intenso. Mais profundo. Mais… certo. — E diga que não sentiu nada. Emily abriu a boca. Mas nenhuma palavra saiu. Porque seria mentira. E ele saberia. Alexander aproximou-se ainda mais. A voz baixa. Quase um sussurro. — Você pode fingir para o mundo inteiro, Emily… Ele inclinou-se levemente. — Mas não para mim. O coração dela disparou. — Isso é um erro — disse ela novamente, mas dessa vez a voz falhou. — Então por que você não consegue me afastar? Silêncio. Ela não conseguia. E isso a assustava mais do que qualquer outra coisa. --- Do lado de fora da sala… Clara observava. E não estava sozinha. Uma figura parada mais distante. Observando também. Catherine. Os olhos frios. Fixos na porta. E um leve sorriso… perigoso. — Então é assim… — murmurou. E naquele instante… Ficou claro. A tempestade… Ainda estava só começando.
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