O clima no escritório ainda estava pesado.
Mesmo depois da saída de Alexander, a presença dele parecia ter ficado impregnada no ambiente. Emily permanecia de pé por alguns segundos, olhando para a porta fechada, como se ainda pudesse vê-lo ali.
Respirou fundo.
Uma vez.
Duas.
Três.
— Concentre-se — murmurou para si mesma.
Mas antes que pudesse realmente retomar o controle, a porta foi aberta novamente.
Sem bater.
Sem aviso.
Emily franziu imediatamente a testa.
— Eu já disse que—
Parou.
Catherine.
Elegante como sempre.
Impecável.
Fria.
E com aquele sorriso que nunca chegava aos olhos.
— Que recepção calorosa — disse ela, entrando como se fosse dona do lugar.
Emily endireitou a postura imediatamente.
— Isto é uma empresa, Catherine. Não um salão de visitas.
Catherine ignorou completamente o comentário.
Caminhou lentamente pelo escritório, observando tudo ao redor, como se estivesse avaliando o espaço.
— Bonito — comentou. — Realmente bonito.
Emily cruzou os braços.
— O que você quer?
Catherine parou.
Virou-se para ela.
E o sorriso mudou.
Agora havia intenção ali.
— Quero um cargo.
Silêncio.
Por um segundo, Emily achou que tinha ouvido errado.
— Como?
— Um cargo na empresa — repetiu Catherine, com total naturalidade. — Acho que já está na hora de você começar a dividir o poder.
Emily soltou uma pequena risada seca.
— Isso não é uma brincadeira.
— Eu também não estou brincando.
O silêncio caiu novamente.
Emily deu alguns passos até sua mesa.
— Você não tem qualificação para isso.
Catherine ergueu uma sobrancelha.
— Qualificação é algo que se aprende.
— Não neste nível.
— Não subestime minha capacidade.
Emily apoiou as mãos na mesa.
— Eu não estou subestimando. Estou sendo realista.
Catherine aproximou-se lentamente.
— Ou está com medo?
Emily a encarou diretamente.
— Medo de quê?
Catherine inclinou levemente a cabeça.
— De perder o controle.
Emily sorriu.
Mas não havia humor naquele sorriso.
— Você nunca teve controle aqui, Catherine.
O ar ficou tenso.
— Ainda — respondeu Catherine, fria.
Silêncio.
— Isso não vai acontecer — disse Emily, firme.
Catherine suspirou, como se estivesse perdendo a paciência.
— Vamos poupar tempo, Emily.
Ela deu mais um passo.
— Você sabe muito bem que esse casamento foi a única coisa que te manteve no topo.
Emily sentiu o sangue ferver.
— Cuidado com o que diz.
— Ou o quê?
Catherine cruzou os braços.
— Você vai me expulsar?
Emily manteve o olhar firme.
Mas por dentro…
Ela sabia.
Sabia que Catherine tinha poder.
Sabia que, se aquilo escalasse, poderia virar um problema muito maior.
— Eu não tenho tempo para isso — disse Emily.
Catherine sorriu.
— Vai ter que arranjar.
Silêncio.
— Eu quero um cargo.
— Não.
— Eu não estou pedindo.
Emily fechou os olhos por um segundo.
Droga.
Catherine inclinou-se levemente sobre a mesa.
— Ou você me dá um lugar aqui dentro… ou eu começo a fazer perguntas.
Emily abriu os olhos imediatamente.
— Que tipo de perguntas?
O sorriso de Catherine voltou.
Lento.
Perigoso.
— Sobre o seu casamento.
O coração de Emily falhou uma batida.
— O que tem o meu casamento?
Catherine deu de ombros.
— Nada ainda.
Silêncio.
Pesado.
— Mas pode passar a ter.
Emily a encarava agora.
Com total atenção.
— Isso é uma ameaça?
Catherine sorriu.
— É um aviso.
O silêncio durou vários segundos.
Emily pensava rápido.
Muito rápido.
Se Catherine começasse a levantar suspeitas…
Se alguém começasse a investigar…
O acordo com Alexander poderia vir à tona.
E isso…
Destruiria tudo.
A empresa.
A sua posição.
Tudo.
Ela respirou fundo.
— Que tipo de cargo você quer?
Catherine abriu um sorriso vitorioso.
— Sabia que você era inteligente.
Emily apertou os dedos contra a mesa.
— Responda.
— Algo relevante — disse Catherine. — Nada simbólico. Quero acesso.
— Você não vai ter poder de decisão.
— Vamos negociar isso depois.
Emily a encarou por mais alguns segundos.
Depois desviou o olhar.
— Clara vai te integrar em um setor.
Catherine sorriu.
— Excelente.
Ela virou-se para sair.
Mas parou na porta.
E olhou para Emily por cima do ombro.
— Ah… e mais uma coisa.
Emily não respondeu.
— Eu espero ser bem recebida… afinal…
Um pequeno sorriso surgiu.
— Somos uma família.
E saiu.
A porta se fechou.
E o silêncio voltou.
Emily permaneceu imóvel por alguns segundos.
Depois soltou o ar de uma vez.
— Isto não está a acontecer…
Passou as mãos pelo rosto.
Uma dor de cabeça começava a surgir.
E ela sabia.
Aquilo era só o começo.
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O restante do dia foi um desastre silencioso.
Emily tentou trabalhar.
Tentou manter o foco.
Tentou ignorar o fato de que Catherine agora fazia parte da empresa.
Mas era impossível.
Cada vez que pensava nisso, sentia um aperto no peito.
E como se não bastasse…
Ela ainda tinha Alexander na cabeça.
No corpo.
Na memória.
No olhar.
— Perfeito… — murmurou, irônica.
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Quando finalmente chegou em casa…
Tudo o que Emily queria era silêncio.
Paz.
Um momento para respirar.
Mas assim que entrou na sala…
Alexander estava lá.
Sentado.
Esperando.
Ela parou.
— Isso está a tornar-se um hábito?
Ele ergueu os olhos.
— Você fugir? Sim.
Ela revirou os olhos.
— O que foi agora?
Alexander levantou-se.
— Minha mãe ligou.
Emily congelou.
— E?
— Vamos jantar na casa dela amanhã.
Silêncio.
— O quê?
— Um jantar.
— Eu ouvi.
Ela passou a mão pelos cabelos.
— Por quê?
— Minha irmã mais nova chegou de viagem.
Emily franziu a testa.
— Eu não sabia que você tinha uma irmã.
— Porque você nunca perguntou.
Ela ignorou.
— E isso significa…?
Alexander a observou.
— Que vamos como um casal.
O coração dela apertou.
— Claro… um casal.
A ironia na voz dela era evidente.
Alexander continuou:
— Há um detalhe.
— Qual?
— Ela não sabe do acordo.
Silêncio.
Total.
Emily ficou completamente imóvel.
— Não…
— Sim.
Ela começou a andar de um lado para o outro.
— Não, não, não…
— Emily—
— Isso é um desastre!
Alexander cruzou os braços.
— Não é.
— Como não é?!
Ela parou na frente dele.
— Uma pessoa que não sabe… é uma pessoa que observa.
— Então finja.
Emily soltou uma risada nervosa.
— Fingir?
— É o que temos feito.
— Não neste nível!
Ela passou as mãos pelo rosto.
— Eu m*l estou conseguindo lidar com você… e agora tenho que convencer outra pessoa de que somos um casal perfeito?
Alexander aproximou-se.
— Nós podemos lidar com isso.
Emily olhou para ele.
— Você não entende.
— Então me explica.
Ela hesitou.
Mas disse:
— Se ela desconfiar… se alguém desconfiar… acabou.
Silêncio.
Alexander a observava com mais atenção agora.
— Você está com medo.
Emily não respondeu.
Porque estava.
E muito.
— Emily…
Ele aproximou-se mais.
— Eu não vou deixar nada acontecer.
Ela soltou uma pequena risada.
— Você não pode controlar tudo, Alexander.
— Posso tentar.
Ela o encarou.
— Isso não é um jogo.
— Eu sei.
— É a minha vida.
— E agora… também é a minha.
Silêncio.
As palavras dele ficaram no ar.
Pesadas.
Reais.
Emily desviou o olhar.
— Eu preciso pensar.
— Pense rápido.
Ela respirou fundo.
— Que horas é o jantar?
— Amanhã à noite.
Ela fechou os olhos.
— Perfeito…
Quando abriu novamente, havia algo diferente ali.
Determinação.
— Então vamos fazer isso direito.
Alexander inclinou a cabeça.
— Como?
Ela o encarou.
— Se vamos fingir… vamos ser perfeitos.
Um leve sorriso surgiu nos lábios dele.
— Finalmente.
Mas Emily ainda não estava tranquila.
Porque no fundo…
Ela sabia.
Que quanto mais real aquele casamento parecesse…
Mais difícil seria quando tudo acabasse.
E pela primeira vez…
Essa ideia começou a doer de verdade.