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1222 Words
A segunda-feira começou antes mesmo de o sol nascer completamente. A casa ainda estava mergulhada naquele silêncio profundo que só existe nas primeiras horas da manhã. Os corredores largos estavam vazios, as luzes suaves da sala ainda acesas desde a noite anterior, e o ar carregava aquela tranquilidade rara que antecede um novo dia. Emily já estava acordada. Ela havia despertado por volta das cinco horas, como sempre fazia quando tinha viagens de trabalho. A disciplina que havia construído ao longo dos anos não permitia atrasos, imprevistos ou decisões de última hora m*l planejadas. Sentada na beira da cama, ela respirou fundo por alguns segundos antes de se levantar. O quarto ainda estava envolvido por uma penumbra suave, iluminado apenas pela luz fraca que escapava pelas cortinas. Emily caminhou silenciosamente até o banheiro e tomou um banho rápido, deixando a água quente despertar completamente seu corpo. Quando saiu, vestiu-se com calma. Escolheu um conjunto elegante, porém prático para a viagem: uma blusa de seda branca, um blazer bege claro e calças de corte sofisticado que se ajustavam perfeitamente ao seu corpo. Nos pés, um par de sapatos discretos, confortáveis o suficiente para horas de reuniões. Prendeu o cabelo em um coque baixo e arrumado, deixando apenas algumas mechas soltas suavemente perto do rosto. Ela observou seu reflexo no espelho por alguns segundos. Parecia exatamente o que precisava parecer. Segura. Profissional. Controlada. Mas por dentro ainda existia uma pequena sensação estranha. Era a primeira vez que deixava a casa desde o casamento. Não que isso fosse realmente relevante — afinal, aquele casamento era apenas um acordo — mas mesmo assim, algo dentro dela parecia sentir a necessidade de deixar as coisas claras. Emily pegou sua mala pequena e desceu as escadas silenciosamente. A casa estava completamente quieta. Alexander ainda dormia. Ela entrou na cozinha e colocou sua bolsa e o laptop sobre a bancada. O motorista chegaria às seis horas. Ela ainda tinha alguns minutos. Foi então que seus olhos caíram sobre um pequeno bloco de papel que estava próximo à mesa. Emily hesitou. Ela realmente não precisava avisar Alexander. Eles haviam deixado isso claro desde o início. Cada um teria sua liberdade, sua rotina, seus compromissos. Não havia obrigação. Mesmo assim… Ela pegou a caneta. Sentou-se. E começou a escrever. Sua caligrafia era elegante, firme, cuidadosamente desenhada — resultado de anos de disciplina e hábito. Levou apenas alguns instantes. “Alexander, Surgiu uma viagem de trabalho de última hora. Preciso estar fora da cidade por alguns dias. Volto em três dias. Não era necessário avisar, eu sei, mas achei educado fazê-lo. Emily.” Ela releu rapidamente. Dobrou o papel uma vez e o deixou sobre a mesa, preso sob uma pequena xícara de café para que não voasse. Emily pegou a mala. Antes de sair, olhou rapidamente ao redor da cozinha silenciosa. Por um segundo pensou em subir e avisá-lo pessoalmente. Mas desistiu. Seria estranho. Eles ainda estavam aprendendo a dividir aquela casa… e aquele acordo. Então ela simplesmente saiu. Poucos minutos depois, o carro já estava se afastando pela rua ainda escura. --- Eu acordei mais tarde naquela manhã. A luz do sol já atravessava as grandes janelas do meu quarto quando abri os olhos. Permaneci alguns segundos olhando para o teto, tentando organizar os pensamentos antes de realmente começar o dia. Domingo havia sido tranquilo. Mas segunda-feira sempre trazia de volta a realidade. Levantei-me da cama e caminhei até o banheiro. O espelho refletiu meu rosto ainda marcado pelo sono. Abri a torneira, lavei o rosto com água fria e observei novamente meu reflexo. Meu cabelo ainda estava levemente desalinhado. Passei a mão pelos fios escuros, ajeitando-os com um gesto automático. Depois sorri levemente para mim mesmo. Era um hábito antigo. Não exatamente vaidade… mas consciência. Eu sempre acreditei que aparência também era uma forma de comunicação. E a imagem que um homem projeta pode dizer muito sobre quem ele é. Voltei para o quarto e escolhi cuidadosamente minhas roupas. Uma camisa branca impecável. Calça social escura. Um blazer cinza perfeitamente ajustado. Quando terminei de me vestir, caminhei até o grande espelho do quarto. Observei o resultado. A camisa alinhada. Os botões fechados com precisão. O cabelo agora perfeitamente arrumado. Passei a mão pela gravata antes de decidir que naquele dia não precisava dela. Inclinei levemente a cabeça e analisei meu reflexo. Um sorriso discreto apareceu. — Nada m*l — murmurei para mim mesmo. Peguei o relógio sobre a mesa e o coloquei no pulso. Então desci para a cozinha. A casa já estava acordando lentamente. Um dos funcionários organizava o café da manhã. — Bom dia, senhor Laurent. — Bom dia. Peguei uma xícara de café e me sentei à mesa. Foi então que vi o papel. Pequeno. Dobrado. Esperando. Franzi levemente a testa e o peguei. Abri. E li. “Alexander, Surgiu uma viagem de trabalho de última hora. Preciso estar fora da cidade por alguns dias. Volto em três dias. Não era necessário avisar, eu sei, mas achei educado fazê-lo. Emily.” Fiquei olhando para o bilhete por alguns segundos. Algo se moveu dentro da minha mente. Uma sensação estranha. Familiar. Meu olhar voltou para a escrita. As letras eram elegantes. Precisas. Mas havia algo mais. Algo que eu reconhecia. Meu coração bateu um pouco mais forte. Eu já tinha visto aquela caligrafia antes. Anos atrás. Muito antes de Emily Carter entrar na minha vida. Antes da empresa. Antes do casamento. Antes de tudo isso. A memória voltou lentamente. O baile de máscaras. As luzes suaves. A música ecoando pelo salão elegante. E aquela mulher. A jovem mascarada que apareceu naquela noite como um mistério. Eu lembrava perfeitamente dela. Do vestido preto que abraçava seu corpo com elegância. Da máscara que escondia metade de seu rosto. Dos olhos intensos que pareciam rir mesmo quando ela permanecia em silêncio. Nós conversamos por horas naquela noite. Sem nomes. Sem identidades. Era parte da regra do evento. E ela parecia gostar disso. Da liberdade. Da ausência de expectativas. Eu lembrava da dança. Da forma como seus dedos tocaram os meus. Do sorriso provocador que ela dava sempre que eu tentava descobrir quem ela era. E depois… A suíte. A intensidade. Aquela noite havia sido uma das mais inesperadas da minha vida. Mas na manhã seguinte… Ela havia ido embora. Sem deixar nome. Sem explicações. Apenas um pequeno bilhete. E aquela caligrafia. Exatamente aquela. Voltei a olhar para o papel em minhas mãos. A mesma escrita. O mesmo estilo. O mesmo traço elegante. Isso não podia ser coincidência. Mas também parecia impossível. Emily Carter? A CEO impecável da Montclair Holdings? A mulher fria e controlada que havia me proposto um casamento como se fosse um contrato empresarial? Balancei a cabeça lentamente. Mas então lembrei de outro detalhe. Algo que nunca esqueci. Naquela noite… Quando ela caminhava pela suíte… Havia uma pequena marca. Uma marca de nascença. Na coxa esquerda. Quase imperceptível. Mas eu lembrava. Eu lembrava perfeitamente. Segurei o bilhete com mais força. Emily estava fora da cidade. Três dias. Tempo suficiente para pensar. Tempo suficiente para observar. E talvez… Tempo suficiente para descobrir a verdade. Coloquei o papel novamente sobre a mesa. Um sorriso lento surgiu em meus lábios. Porque pela primeira vez desde que aquele casamento começou… A ideia de Emily Carter voltar para casa parecia muito mais interessante.
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