O som do relógio marcando a meia-noite parecia ecoar dentro da mente de Larissa.
A foto no celular ainda queimava sua visão - ela e Niko, juntos, observados de algum lugar invisível.
O mar rugia lá fora, e pela primeira vez desde que chegara à Grécia, ela se sentiu verdadeiramente vulnerável.
Respirou fundo, tentando decidir se devia contar a ele.
Mas o instinto - aquele mesmo que a havia guiado por toda a vida - sussurrava que esconder era mais perigoso do que falar.
Com passos decididos, atravessou o corredor silencioso e bateu na porta do escritório.
- Entre. - A voz de Niko veio grave, cansada.
Larissa entrou, o celular ainda tremendo em sua mão.
Niko estava de pé junto à janela, o rosto meio iluminado pela luz do luar. Parecia uma escultura viva - linda, mas feita de dor.
- O que houve? - perguntou ele, percebendo o tom dela.
Larissa entregou o celular.
- Isso. Recebi há quinze minutos.
Ele pegou o aparelho e observou a imagem com a expressão fechada.
O maxilar dele tensionou.
- De onde veio?
- Número bloqueado.
Niko passou a mão pelo cabelo, furioso.
- Estão nos observando.
- "Estão"? - repetiu Larissa. - Então você acha que não é só Helena?
- Helena é o tipo de mulher que suja as mãos apenas quando pode culpar alguém depois. - Ele devolveu o celular. - Isso é coisa de alguém mais próximo.
- Mais próximo de quem? - Ela o encarou. - De mim ou de você?
O olhar dele endureceu.
- Está insinuando o quê?
- Que talvez nem tudo o que você me contou seja verdade. - A voz de Larissa saiu baixa, mas firme. - Helena me avisou que Ariadne descobriu algo. Que havia outro motivo para o amor de vocês.
- E você acreditou nela? - Ele se aproximou, o rosto a poucos centímetros do dela. - Acreditou na mulher que me odeia desde o dia em que nasci?
- Acreditei no medo que vi nos seus olhos. - respondeu ela, com a mesma intensidade.
Por um instante, o ar entre eles ficou pesado.
O silêncio não era vazio - estava carregado de tudo o que ainda não haviam dito.
Niko desviou o olhar e deu um passo para trás.
- Eu nunca usei Ariadne. Mas também não consegui salvá-la. E agora... - Ele suspirou, cansado. - Agora parece que alguém quer me fazer pagar por isso.
Larissa o observou.
Ele parecia mais humano do que nunca - despido da arrogância, vulnerável.
E, de alguma forma, aquilo a tocou.
Ela deu um passo à frente.
- Niko... nós precisamos confiar um no outro.
Ele a olhou, e algo no rosto dele se suavizou.
- Você confia em mim, Larissa?
Ela hesitou, o coração acelerado.
- Quero confiar.
- Isso não é o mesmo.
- É o que posso te dar agora. - respondeu ela, sincera.
Ele se aproximou novamente, mais devagar desta vez.
- Então deixa eu te mostrar por que deve.
Antes que ela respondesse, Niko a puxou para perto.
O beijo aconteceu como um desabafo - urgente, contido por tempo demais.
Larissa sentiu o mundo desaparecer, o gosto do sal e da raiva e da confissão misturados.
Quando se separaram, os dois respiravam rápido.
- Isso não devia ter acontecido. - murmurou ela.
- Tudo entre nós nunca devia ter acontecido. - respondeu ele. - Mas aqui estamos.
Larissa recuou, confusa entre desejo e medo.
- Niko...
Antes que pudesse terminar, um barulho alto ecoou lá fora - vidro se estilhaçando.
Os dois congelaram.
Niko reagiu primeiro, puxando-a para trás da mesa.
- Fique aqui.
Ele pegou a arma que guardava na gaveta - um reflexo instintivo de quem viveu tempo demais sob ameaça.
Larissa o observou sair do escritório e desaparecer pelo corredor escuro.
O som dos passos dele se misturava ao vento que entrava pela janela quebrada.
Minutos depois, Niko voltou, o olhar tenso.
- Ninguém. Mas jogaram algo contra o vidro.
Larissa se aproximou e viu no chão um pedaço de pedra envolto em um papel.
Niko abriu o bilhete.
> "O contrato termina quando a verdade for revelada."
Larissa sentiu o sangue gelar.
- Eles sabem do contrato.
Niko olhou para ela, incrédulo.
- Isso não é possível.
- É possível sim, se alguém aqui dentro falou demais.
Os olhos dele escureceram.
- Você está me acusando?
- Eu estou dizendo que alguém quer nos dividir. E parece estar conseguindo.
Por um instante, Niko ficou imóvel - e então jogou o papel no fogo da lareira.
As chamas o engoliram rapidamente, consumindo a ameaça junto com o silêncio.
- A partir de agora, você não sai sozinha. - ordenou ele. - Nem um passo fora desta casa sem mim.
- Isso é proteção ou controle? - perguntou ela, desafiadora.
- É sobrevivência. - respondeu ele, frio. - E você vai precisar de mim, Larissa, quer admita ou não.
Ela respirou fundo, lutando contra o impulso de retrucar.
Sabia que ele estava certo, mas odiava admitir.
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Na manhã seguinte, Alexis trouxe notícias.
- Senhor Andreadis, o sistema de segurança foi invadido. Alguém acessou as câmeras externas na última semana.
- De dentro ou de fora? - perguntou Niko.
- Ainda não sabemos. Mas... há algo mais. - Alexis hesitou. - O carro da senhora Larissa foi adulterado. Os freios estavam cortados.
Larissa arregalou os olhos.
- O quê?!
Niko se levantou tão rápido que a cadeira tombou.
- Quando?
- Ontem à noite, provavelmente. Se ela tivesse saído sozinha, não teria voltado.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Larissa sentiu as pernas fraquejarem.
Alguém queria matá-la.
Niko caminhou até ela e a segurou pelos ombros.
- Isso acabou de mudar tudo.
Ela o encarou, assustada.
- Você acha que Helena...
- Não sei. Mas vou descobrir. - A voz dele agora era aço. - E quem quer que tenha feito isso, vai se arrepender.
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Horas depois, Niko saiu para "resolver algo".
Larissa ficou na mansão, observada discretamente pelos seguranças que ele colocara à porta.
Mas, ao cair da noite, ela encontrou um envelope sob sua porta.
Sem remetente.
Dentro, uma única frase:
> "Você está mais próxima da verdade do que imagina. Não confie em ninguém."
E junto, uma fotografia antiga - Elena Andreadis e o pai de Ariadne, em uma reunião de negócios.
Sorrindo.
Larissa sentiu o coração disparar.
A conexão entre as famílias não era apenas social...
Era o mesmo "acordo sujo" que Ariadne havia descoberto.
Ela guardou a foto e respirou fundo.
Se fosse verdade, significava que Niko e Helena eram apenas peças de um jogo muito maior - um jogo iniciado por aqueles que vieram antes deles.
E agora, ela estava no centro dele.