A PROPOSTA

1281 Words
O sol começava a mergulhar no horizonte, pintando o céu de Atenas em tons de cobre e lavanda. Das janelas de vidro do luxuoso Andreadis Tower, o reflexo do mar Egeu parecia um espelho líquido que guardava segredos antigos. Larissa Alexandra Botelho observava a cidade de longe, em silêncio, sentada em um dos sofás minimalistas da recepção. Não fazia ideia do porquê fora chamada ali. O e-mail era vago — um agradecimento formal pela tradução impecável no evento e um convite para uma “conversa de oportunidade profissional”. Ela vestia o que tinha de melhor: uma blusa branca simples, saia preta até os joelhos e o mesmo par de sapatos que comprara de segunda mão quando chegou à Grécia. Tentava manter a compostura, mas o coração batia rápido demais. A porta de vidro se abriu com um som suave. O assistente pessoal de Niko, Alexis Damos, apareceu — alto, de cabelos grisalhos e olhar gentil, contrastando com a rigidez do ambiente. — Senhorita Botelho? O senhor Andreadis vai recebê-la agora. Larissa assentiu, levantando-se. Suas mãos suavam discretamente. Seguiu Alexis por um corredor amplo, decorado com obras de arte modernas e o aroma sutil de café e madeira. O som dos saltos dela ecoava baixo no piso de mármore até chegarem à grande sala com vista panorâmica do mar. E lá estava ele. Nikolaus “Niko” Andreadis — de pé, ao lado da janela, observando o horizonte com as mãos nos bolsos e a postura impecável. O terno preto parecia feito sob medida, realçando o porte atlético e a aura de autoridade que o cercava. Ele se virou devagar, e o olhar cinza encontrou o dela. — Senhorita Botelho. — Sua voz era grave, modulada com precisão. — Obrigado por vir. — Eu que agradeço, senhor Andreadis. Foi… uma surpresa receber o convite. — Espero que uma boa surpresa. — Ele gesticulou em direção à poltrona diante da mesa. — Sente-se, por favor. Larissa obedeceu, mantendo o olhar respeitosamente baixo. Niko, porém, observava cada gesto. Havia algo fascinante na maneira como ela se comportava — contida, mas nunca submissa; educada, mas não bajuladora. — Eu li o relatório sobre seu trabalho na conferência — começou ele. — Todos os tradutores estavam preparados, mas foi você quem manteve a calma quando a situação fugiu do controle. Ela corou, sem saber como reagir. — Apenas fiz o meu trabalho, senhor. — Fez mais do que isso. — Ele se inclinou ligeiramente para a frente. — Você é eficiente, discreta e… diferente. Larissa piscou, incerta se aquilo era um elogio. — Agradeço, senhor Andreadis. Ele assentiu, caminhando até o aparador e servindo duas taças de água mineral. — Não costumo desperdiçar o tempo de ninguém, então vou ser direto. A tensão no ar se adensou. Larissa respirou fundo. — Claro. Niko pousou a taça sobre a mesa, fitando-a nos olhos. — Preciso que se case comigo. O silêncio que se seguiu pareceu engolir o som do mundo. Larissa piscou, sem entender. — Desculpe… o quê? — Um casamento. Civil, legal, com contrato. — Ele falava com naturalidade assustadora, como se estivesse discutindo um acordo comercial. — Seria temporário, discreto, e traria benefícios para ambos. Ela o encarou, confusa, o coração acelerado. — Isso é algum tipo de brincadeira? — Eu nunca brinco com negócios, senhorita Botelho. — A expressão dele era séria, quase fria. — O casamento me é necessário por razões familiares e legais. O testamento do meu avô determina que eu só terei o controle total da empresa se estiver casado antes do meu aniversário, daqui a quatro meses. Larissa ficou em silêncio por um instante. Tentou entender a lógica por trás daquilo — mas tudo parecia surreal demais. — E por que eu? — perguntou, por fim, com a voz baixa. — Porque você não pertence a esse mundo — respondeu ele, sem hesitar. — Não está aqui por interesse, não faz parte da elite que me cerca e… não tem nada a ganhar além do que eu lhe oferecer. As palavras a atingiram como uma mistura de elogio e provocação. — Então o senhor quer uma esposa que não o ame. — Quero uma esposa que não complique. — O olhar dele endureceu. — O casamento seria puramente contratual. Você receberia uma compensação financeira significativa, um apartamento, segurança total e… ao final do acordo, liberdade. Larissa se levantou, nervosa. — Senhor Andreadis, com todo respeito, isso é absurdo. Ele também se levantou. — Absurdo seria perder tudo o que construí por causa de uma cláusula estúpida em um testamento. Ela o fitou, incrédula. — E o amor? A verdade? Niko riu — uma risada breve, amarga. — Amor é uma ilusão conveniente. E a verdade é relativa. O mundo em que vivemos não recompensa idealistas, senhorita Botelho. Larissa sentiu um nó apertar em sua garganta. Ele era frio, mas havia algo por trás daquela rigidez — algo ferido, escondido sob camadas de controle. — Eu não sou uma mulher que se vende — disse ela, firme, com a voz embargada. — Eu não disse que é — respondeu Niko, suavizando o tom. — Disse que é inteligente o bastante para entender que, às vezes, um acordo é apenas uma forma diferente de sobrevivência. As palavras ecoaram dentro dela. Sobrevivência. Era exatamente o que ela vinha tentando fazer desde que deixara o Brasil. O pai estava pior, as contas do hospital aumentavam e o salário m*l cobria o básico. Ainda assim, vender sua dignidade parecia um preço alto demais. Ela respirou fundo. — Quanto tempo duraria esse… contrato? — Um ano. — Ele respondeu de imediato. — Após isso, o divórcio será amigável. Nenhum de nós sairá prejudicado. Larissa o observou em silêncio. A proposta era indecente e, ao mesmo tempo, estranhamente lógica. Mas o que mais a perturbava não era o absurdo da ideia — era o olhar dele. Aqueles olhos cinzentos não pediam. Ordenavam. — Eu preciso pensar — disse ela, por fim, reunindo coragem. — Claro. — Niko assentiu, voltando para trás da mesa. — Alexis enviará o esboço do contrato amanhã. Ela se virou para sair, mas antes que alcançasse a porta, ele falou: — Larissa. O som do nome dela em sua boca a fez parar. — Sim? — Não confie em ninguém que tente convencê-la de que eu sou um monstro. — O tom dele era baixo, quase um aviso. — Eles só conhecem a superfície. Ela o olhou uma última vez antes de sair, e naquele instante algo dentro dela se moveu — um pressentimento inexplicável de que aquele homem, por mais frio que parecesse, escondia feridas que nem ele sabia nomear. --- Naquela noite, deitada em seu pequeno apartamento, Larissa olhou para o teto por horas. O som distante das ondas invadia a janela entreaberta. Tudo o que Niko dissera ecoava em sua mente como um enigma perigoso. Um casamento de contrato. Quatro meses. Liberdade no fim. Ela pensou no pai, em suas mãos trêmulas, no olhar cansado. Pensou em como a vida nunca lhe dera escolha real — apenas versões diferentes do sacrifício. Pegou o celular. No visor, uma mensagem nova: > De: Alexis Damos “O senhor Andreadis pediu que o documento fosse enviado. Leia com calma. Amanhã ele gostaria de sua resposta.” O arquivo anexado brilhava na tela: Contrato Matrimonial – Termos de Acordo. Larissa suspirou, o coração pesado. Fechou os olhos e murmurou, quase num sussurro: > — O que eu estou prestes a fazer? Mas o destino já havia assinado o primeiro parágrafo da história. E o amor — aquele que ela acreditava ter deixado para trás — estava prestes a reescrever todas as cláusulas.
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