O som distante de violinos ecoava pelos salões do Hotel Grande Bretagne, no coração de Atenas. Lustres de cristal, flores brancas e risadas abafadas compunham o cenário da noite — a celebração do aniversário da Fundação Andreadis, um evento que reunia empresários, políticos e socialites de toda a Grécia.
Era, para todos os efeitos, o palco ideal para o casal do momento:
Nikolaus Andreadis e sua nova esposa, Larissa Botelho.
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Larissa observava o reflexo no espelho enquanto a maquiadora finalizava o penteado.
Os cabelos castanhos, presos num coque elegante, revelavam a delicadeza de seu rosto.
O vestido, escolhido por Niko, era de um vermelho profundo, com decote sutil e tecido que fluía como seda líquida.
— Está perfeita — disse Sofia, a estilista pessoal da família Andreadis, com um sorriso profissional. — Discreta e imponente, exatamente como ele pediu.
Larissa forçou um sorriso.
Era estranho saber que até a cor do seu batom tinha sido planejada para agradar a um homem que, em teoria, era seu marido, mas na prática, um estranho com quem compartilhava uma farsa cuidadosamente construída.
Quando a porta se abriu, o ar pareceu mudar.
Niko entrou, vestindo um terno preto impecável. O contraste entre a pele bronzeada e a camisa branca o tornava quase cinematográfico.
Ele parou diante dela, examinando-a em silêncio.
— O vestido… — começou ele. — Ficou melhor do que imaginei.
— Fico feliz que o senhor aprove.
— Niko. — corrigiu, com a voz baixa.
Larissa manteve o olhar firme.
— Niko, então.
Ele se aproximou, ajustando o colar azul em seu pescoço — o mesmo que lhe dera dias antes.
O toque de seus dedos, frio e preciso, fez o coração dela tropeçar por um segundo.
— Lembre-se — disse ele, recuando um passo. — Lá fora, você é minha esposa. Afeto, contato, olhares. Tudo deve parecer natural.
— Entendido. — Ela ergueu o queixo. — Finjo ser sua esposa perfeita, e você finge se importar.
Um lampejo atravessou o olhar dele, algo entre irritação e curiosidade.
— Cuidado, Larissa. Você é boa demais em parecer sincera. Isso pode se tornar perigoso.
Ela sorriu, enigmática.
— Ou libertador. Depende de quem está mentindo melhor.
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O salão estava lotado.
Câmeras, taças de champanhe e conversas em grego e inglês se misturavam num balé sofisticado de aparências.
Assim que o casal entrou, os olhares se voltaram — curiosos, admirados, especulativos.
Nikolaus, o enigmático CEO que nunca havia se casado, agora surgia de mãos dadas com uma mulher que ninguém conhecia.
E a maneira como ele a conduzia, com a mão firme sobre a dela, apenas aumentava o mistério.
— Kalimera, Nikolaus! — cumprimentou um senhor de cabelos grisalhos. — Então é verdade! Casou-se e não avisou ninguém?
Niko sorriu, educado.
— Foi tudo muito rápido, Yannis. Quando se encontra a mulher certa, não há motivo para esperar.
Larissa sentiu o calor subir às faces, mas manteve o papel.
Sorriu com delicadeza, inclinando-se ligeiramente.
— Ele é péssimo em surpresas — brincou, e o grupo riu, encantado.
Os olhares que antes eram de suspeita, agora se tornavam de aprovação.
Ela estava jogando bem.
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Entre um brinde e outro, Larissa percebeu como Niko mudava diante das pessoas.
O homem frio e controlado da mansão dava lugar a um anfitrião carismático, seguro, dono de cada palavra.
E, mesmo assim, havia momentos — breves, sutis — em que o olhar dele buscava o dela, como se precisasse se certificar de que ela ainda estava ali, de que a encenação permanecia perfeita.
— Está indo bem — murmurou ele, encostando-se ao ouvido dela. — Continue sorrindo assim e todos acreditarão.
— E você? — sussurrou de volta. — Sempre tão convincente, ou é só quando tem plateia?
O canto dos lábios dele se ergueu.
— Você adoraria saber.
Antes que ela pudesse responder, uma voz feminina ecoou atrás deles.
— Nikolaus… querido!
O tom era melífluo, confiante, e ao mesmo tempo, provocador.
Quando Larissa se virou, viu uma mulher alta, loira, de vestido prateado e sorriso calculado.
Helena Markatos.
Ela se aproximou como quem já sabia que era esperada.
— Não acredito que você não me contou sobre o casamento. Fiquei… surpresa.
Niko manteve a postura impecável.
— Helena, esta é minha esposa, Larissa. Larissa, esta é Helena Markatos, uma antiga parceira de negócios.
“Antiga”, pensou Larissa, observando o modo como Helena pousou a mão no braço dele — íntimo demais para alguém do passado.
— Prazer — disse Larissa, com um sorriso contido.
— O prazer é meu, querida. — Helena respondeu, os olhos percorrendo-a de cima a baixo. — É brasileira, não é? Que exótico.
Larissa sentiu o comentário mascarado de desprezo, mas respondeu com elegância:
— Sim. E você é… grega, suponho? Que previsível.
O olhar de Helena cintilou, e Niko precisou intervir antes que o duelo de sorrisos se transformasse em algo mais.
— Helena, se nos der licença, minha esposa e eu precisamos saudar o conselho da fundação.
Ele colocou a mão na cintura de Larissa e a conduziu para longe, sem olhar para trás.
Mas ela sentiu o toque firme — não de encenação, e sim de proteção.
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Mais tarde, no terraço do hotel, sob as luzes da cidade, Larissa se apoiou no parapeito, respirando o ar fresco.
O vestido vermelho contrastava com o céu azul-escuro.
Niko se aproximou, duas taças de champanhe nas mãos.
— Estava linda lá dentro — disse ele, entregando uma taça. — Até Helena notou.
— Ah, sim. Ela parece uma mulher difícil de impressionar.
— É. E acostumada a conseguir o que quer.
Larissa ergueu uma sobrancelha.
— Inclusive você?
Ele desviou o olhar para o horizonte.
— Em outra vida, talvez.
Ela o estudou em silêncio.
Havia algo diferente nele naquele instante — menos CEO, mais homem.
O peso da solidão, talvez, escondido atrás do terno impecável.
— Por que acha que todos acreditaram tão rápido? — perguntou ela.
— Porque o amor fingido é mais fácil de vender do que o verdadeiro.
— E você entende de vendas.
Niko sorriu de leve.
— Exato.
O vento soprou, bagunçando um fio solto do cabelo dela.
Sem pensar, ele estendeu a mão e ajeitou-o. O gesto foi leve, quase involuntário, mas o toque durou um segundo a mais do que deveria.
Larissa prendeu a respiração.
A distância entre eles parecia diminuir, até o mundo inteiro se resumir àquele momento.
— Isso… — ela murmurou, quase sem voz — não faz parte do contrato.
— Eu sei. — A voz dele era baixa, rouca. — Mas talvez devesse.
O olhar de Niko desceu para os lábios dela, e por um instante, o tempo parou.
Mas então, ele se afastou.
O CEO voltou a assumir o controle.
— Vamos voltar. As câmeras ainda estão lá dentro.
Ela assentiu, disfarçando o tremor nas mãos.
Enquanto caminhavam lado a lado de volta ao salão, Larissa percebeu que algo havia mudado — uma fissura invisível na parede que os separava.
E, pela primeira vez, Niko também percebeu.
O contrato podia ditar regras…
Mas o coração, silenciosamente, já começava a quebrá-las.
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Mais tarde, de volta à mansão, Larissa tirou o colar e observou seu reflexo no espelho.
Ainda podia sentir o calor do toque dele.
Ainda podia ouvir o som da voz de Helena, insinuante, cortante.
E uma pergunta teimava em ecoar em sua mente:
Por que Nikolaus Andreadis parecia precisar tanto de um casamento falso… se o que o perseguia talvez fosse algo real que ele havia perdido?
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Do outro lado do corredor, Niko também não dormia.
Estava no escritório, o terno jogado sobre a poltrona, a gravata afrouxada.
A imagem de Larissa naquela noite não saía de sua mente.
Ela havia conquistado a sala inteira — inclusive ele.
— Imprudente… — murmurou, passando a mão pelos cabelos. — Extremamente imprudente.
Mas o sorriso dela, o olhar firme diante de Helena, e a coragem com que o desafiava…
Tudo nele gritava que aquela mulher era diferente.
E Niko Andreadis nunca havia temido nada — até agora.