A voz veio da poltrona, do fundo da sala, grave e calma — e Diogo Martins descobriu, aos vinte e nove anos, o que acontece com um corpo humano quando o medo chega antes do pensamento: o pulo para trás, o ombro na estante, o celular caindo no chão com a lanterna acesa girando, e o coração disparando no escuro na frequência exata que a natureza reservou para presas. A lanterna do celular parou girando com o flash pra cima. E iluminou de baixo, na poltrona, um homem enorme, de terno escuro, sentado com a paciência de quem chegou cedo e não se importou de esperar. Havia uma pasta parda fechada no colo dele. As mãos, entrelaçadas em cima da pasta, tinham cicatrizes finas nos nós dos dedos. — Quem... — A voz do Diogo saiu dois tons acima e ele odiou, e tentou de novo, mais grosso, pior: — Que

