kaleb

1017 Words
Havia dois anos que Kaleb Volkov não sentia pressa. Pressa é coisa de quem espera alguma coisa da vida. Ele não esperava mais nada — e o mais assustador é que tinha se acostumado. Os últimos meses foram todos iguais, e ele preferia assim. Acordava às cinco, sem despertador, no lado esquerdo de uma cama grande demais. Nadava cinquenta piscinas na água fria, porque o corpo era ferramenta e ferramenta se conserva. Tomava café em pé, na cozinha, lendo três jornais em duas línguas. Vestia um dos ternos cinza — eram todos cinza, todos iguais, escolher roupa era um desperdício de decisão — e descia a colina no banco de trás do carro preto, em silêncio. De dia, ele era o senhor Volkov, dos hotéis. Um empresário discreto que assinava papéis, comprava imóveis e recusava todos os convites para jantares, coquetéis e colunas sociais. Os sócios o descreviam com as mesmas três palavras, sempre: educado, pontual, impenetrável. Ninguém almoçava com ele. Ninguém sabia onde ele morava. Ninguém ousava perguntar duas vezes. Havia algo nele — todos sentiam, ninguém sabia nomear — que fazia as pessoas baixarem a voz por instinto, como se um animal antigo dentro delas reconhecesse outro predador na sala e aconselhasse silêncio. De noite, às vezes, chegava um envelope. Ele nunca falava sobre os envelopes. Nem consigo mesmo. Havia muito tempo aquilo tinha deixado de ser acontecimento para virar apenas ofício: um nome, um endereço, uma noite de chuva ou não, e no dia seguinte o mundo tinha um problema a menos e nenhuma testemunha. Dezenove anos. Nenhum erro. Nenhuma falha. No submundo, seu nome não se dizia alto. Dizia-se de lado, em meia voz, como quem evita chamar a atenção de uma coisa que dorme: o Volkov. Chefes experientes mudavam de assunto quando ele era mencionado. Novatos aprendiam rápido a regra que ninguém precisava explicar — dele, não se fala; dele, não se pergunta; com ele, reza-se para nunca ter assunto. E era só isso que sentiam por ele. Medo e respeito. Ninguém sentia afeto, porque ninguém chegava perto o bastante. Kaleb sabia. Kaleb tinha construído isso, tijolo por tijolo, e vivia dentro da própria obra: um homem murado por todos os lados, admirado à distância como se admiram os desastres, sem um único ser humano no mundo que soubesse seu prato favorito. Micah, o motorista, talvez soubesse. Mas Micah era pago para esquecer. As últimas semanas, porém, tinham sido diferentes. Ninguém teria notado. Não havia nada para notar. O senhor Volkov continuava acordando às cinco, nadando as cinquenta piscinas, assinando os papéis, recusando os convites. O rosto continuava o mesmo: fechado, ilegível, um cofre com feições. A diferença acontecia toda em silêncio, do lado de dentro, no fim do corredor do segundo andar. O quarto azul. Fazia dois anos que Kaleb parava todas as noites diante daquela porta. No primeiro ano, ele a abria e ficava no batente, sem entrar, contando os bichos de pelúcia da cômoda como quem confere um cofre. No segundo ano, passou a entrar. Sentava na poltrona de amamentação, pequena demais para o corpo dele, e ficava no escuro, girando entre os dedos a aliança que usava numa corrente por baixo da camisa. Ele nunca chorava ali. Kaleb Volkov não chorava — não por disciplina, mas por defeito: as lágrimas tinham quebrado dentro dele numa manhã de terça-feira, dois anos atrás, junto com todo o resto. Isadora. Cinco meses de gestação. Um menino. Iam chamá-lo de Nikolai, como o avô dela. Kaleb tinha perdido a discussão do nome de propósito, só pelo prazer de vê-la comemorar. As balas eram para ele. Ela só estava dirigindo o carro errado, no dia errado, casada com o homem errado. Kaleb tinha assistido à gravação da câmera duzentas e doze vezes, quadro a quadro, procurando um segundo onde coubesse um milagre. Não havia. Ele parou de assistir no dia em que se pegou decorando o vídeo em vez de sofrer com ele. A vingança veio depois. Oito meses, cinco cidades, uma lista inteira riscada com a paciência que virou lenda. E quando o último nome parou de respirar, num porão em outro país, Kaleb esperou sentir alguma coisa. Não sentiu nada. Voltou para a casa vazia, subiu a escada, parou na porta do quarto azul e entendeu, ali, a verdade mais suja do luto: matar todos os culpados não devolve absolutamente nada. A dor não vai embora. Só aprende a viver calada. Feito ele. Foi assim que passaram os dois anos: um homem funcionando perfeitamente por fora e desabitado por dentro, cumprindo missões porque missões eram a única coisa que ainda sabia fazer, atravessando os dias como se atravessa um corredor de hotel — sem olhar os quadros. Até que, numa dessas noites iguais, sentado na poltrona pequena demais, uma ideia entrou sem pedir licença. Não uma esposa. Isso, nunca mais. Amor era uma porta que ele havia fechado, trancado e emparedado. Amar alguém era pintar um alvo nas costas dela — a lição custara o preço mais alto que existe, e Kaleb não pagava o mesmo preço duas vezes. Mas um filho. No começo, ele expulsou a ideia como expulsava tudo: sem discussão. Que direito tinha um homem como ele? Com aquelas mãos? Com aqueles inimigos? Só que a ideia voltava. Toda noite, naquela poltrona, ela voltava, teimosa e baixinha, e uma noite trouxe um argumento que ele não conseguiu executar: Nikolai não vai existir nunca. Mas alguém ainda pode. Kaleb passou três semanas em guerra consigo mesmo, e ninguém no mundo ficou sabendo, porque a guerra inteira aconteceu atrás do mesmo rosto de sempre. Ele assinava contratos pensando nisso. Recebia envelopes pensando nisso. Olhava pela janela do carro, nos sinais fechados, as mães atravessando com filhos pela mão — e desviava o olhar como quem desvia de uma luz forte demais. O que o venceu, no fim, não foi um argumento. Foi um flagrante. Uma tarde qualquer, numa reunião qualquer, ele se pegou calculando quantos anos teria quando a criança entrasse na escola. A conta já estava pronta na cabeça dele antes que ele percebesse que a estava fazendo.
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