Naquela noite, pela primeira vez em dois anos, ele entrou no quarto azul e acendeu a luz. Ficou um longo tempo parado, as mãos nos bolsos, olhando o berço que ele mesmo montara. Depois pegou da cômoda o primeiro urso de pelúcia da fileira — o pequeno, cinza, o primeiro que Isadora comprou escondido —, tirou a poeira dele com a manga da camisa e o devolveu ao lugar, um centímetro mais à direita.
Ajeitando a casa.
Como quem se prepara, com dois anos de atraso, para receber alguém.
Foi a coisa mais parecida com esperança que ele se permitiu em setecentos e trinta dias. E doeu — doeu mais que o luto, porque o luto pelo menos era terreno conhecido. A esperança, não. A esperança era uma arma que ele não manuseava havia tempo demais, e Kaleb a segurou como segurava as outras: com respeito, e apontada para longe de si.
No dia seguinte, chamou o advogado.
Aleixo cuidava da vida legal do "empresário Volkov" havia dez anos e devia a carreira a um único talento: não fazer perguntas desnecessárias.
Quando o chefe disse barriga de aluguel, Aleixo piscou duas vezes — o máximo de espanto que se permitia naquela sala — e abriu o caderno.
O processo levou um mês, e Kaleb o conduziu do único jeito que sabia conduzir qualquer coisa: como uma operação.
Doze pastas de candidatas. Ele leu todas, sozinho, de madrugada, com a mesma atenção que dedicava aos envelopes. Descartou as que tinham dívidas com gente perigosa. As que tinham ex-maridos violentos rondando. As que mentiram em qualquer linha do formulário — e ele sempre sabia quando alguém mentia numa linha de formulário.
Sobrou uma.
Renata, trinta e um anos, enfermeira. Já tinha sido barriga de aluguel uma vez, dentro da lei. Mãe de uma menina de oito anos. Queria o dinheiro para sair do aluguel e dar entrada numa casa.
O encontro aconteceu numa sala neutra, com Aleixo presente e um contrato de quarenta páginas sobre a mesa. Kaleb apertou a mão dela, registrou o aperto firme e o nervosismo honesto de quem não finge diante de dinheiro grande, e concluiu o que precisava concluir: não era uma ameaça.
— O senhor vai querer acompanhar? — perguntou ela, folheando o contrato. — Consultas, exames... Tem contratante que quer estar em tudo.
— Todos os relatórios médicos. Nenhum contato além do necessário.
— Frio assim?
— Prático.
Renata ergueu os olhos, mais curiosa que ofendida, e o estudou por um segundo. Dez anos de enfermagem ensinam a ler gente, e alguma coisa naquele homem — a cicatriz fina saindo do colarinho, o jeito de sentar de costas para a parede, os olhos que registravam tudo e não devolviam nada — a fez decidir não perguntar mais.
Kaleb percebeu a decisão dela. Aprovou.
E então, porque aquela mulher ia carregar o filho dele e merecia ao menos uma verdade, abriu uma exceção do tamanho de uma frase:
— A senhora terá o melhor acompanhamento que existe, qualquer coisa, a qualquer hora. Mas quanto menos souber sobre mim, melhor para a senhora. Considere isso parte do pagamento.
Assinaram as quarenta páginas.
No elevador, Aleixo se permitiu o comentário:
— Ela nem imagina para quem vai trabalhar.
— Ninguém imagina, Aleixo. — Kaleb olhava os números dos andares descendo. — É o meu melhor produto.
Faltava a clínica.
E foi aí que Aleixo, pela primeira vez em dez anos, discordou em voz alta.
— Essa? — Ele girou o laudo sobre a mesa, como se a distância melhorasse o documento. — Senhor, com todo o respeito. Eu levantei as cinco melhores clínicas de reprodução do país. E o senhor escolhe um consultório de bairro com site quebrado.
Kaleb serviu-se de café antes de responder.
— As cinco melhores clínicas do país têm o quê, Aleixo?
— Estrutura. Tecnologia. Reputa...
— Gente. — Kaleb sentou. — Recepcionista que reconhece rosto. Enfermeira que posta a rotina na internet. Arquivo em nuvem, seguradora, auditoria externa, estagiário curioso. Duzentos pares de olhos, e basta um par comprado. — Ele bateu o dedo duas vezes sobre o laudo. — Meu material genético vai ficar guardado num lugar onde ninguém importante olha. Um vazamento, um só, e todo inimigo que eu tenho descobre que existe uma mulher grávida de um filho meu. Você entende o que acontece com essa mulher no dia seguinte?
Aleixo entendia. Todos os que conheciam a história de Isadora entendiam.
— Além disso, o dono me deve. — Kaleb abriu a pasta da clínica. — Ele vai garantir o sigilo pessoalmente, sem nem saber dizer não. Cadastro com nome falso, procedimento fora do horário, prontuário físico. Nenhum registro digital de que eu pisei lá.
— Prontuário físico — repetiu Aleixo, com cara de quem morde limão. — Ficha de papel, num arquivo de aço, manuseada por um funcionário que ganha salário mínimo.
— Papel não vaza na internet.
— Papel troca de gaveta, senhor.
O silêncio durou dois segundos. Então Kaleb fez aquilo que fazia às vezes, e que Aleixo nunca soube dizer se era humor ou aviso: quase sorriu.
— Dezenove anos sem errar, Aleixo. A prudência é minha profissão. — Ele assinou a última página com a caneta que Isadora lhe dera no último aniversário dela. — Marque o procedimento. Quanto antes.
Anos depois, Aleixo ainda ia se lembrar dessa conversa. Da ironia perfeita e c***l dela.
Porque Kaleb Volkov, o homem que não cometia erros, escolheu aquela clínica justamente para eliminar todos os riscos.
Menos um.
O risco de que um lugar pequeno demais, invisível demais e barato demais fosse, também, descuidado demais.
Na véspera do procedimento, o homem mais temido da Organização fez o de sempre.
Acordou às cinco. Nadou as cinquenta piscinas. Leu os três jornais. Vestiu um terno cinza igual aos outros e atravessou o dia impenetrável como atravessava todos: educado, pontual, ilegível, sem que nenhuma das pessoas que baixaram a voz na presença dele desconfiasse de nada.
Ninguém no mundo sabia que aquele homem tinha esperança.
Ele fez questão. A esperança era o único ponto fraco que lhe restava, e Kaleb Volkov não exibia pontos fracos — guardava-os no fim do corredor, atrás de uma porta fechada, num quarto azul onde ninguém nunca entrava.
À noite, antes de dormir, ele parou mais uma vez diante do berço.
O destino, que nunca teve pressa, terminou de armar o tabuleiro.
Faltava só a terça-feira, às nove horas.