sozinha

1176 Words
Nas três primeiras semanas, eu funcionei no automático. Trabalho. Mercado. Apartamento. Comprei uma mesa usada e duas cadeiras — duas, porque uma só era deprimente demais até para mim. Pintei a parede da sala de verde-claro num fim de semana, sozinha, de coque e roupa velha, ouvindo música alta. Errei o corte perto do teto. Ficou torto. Ficou meu. A samambaia ganhou uma janela nova e, ironia das ironias, nunca esteve tão viva. Diogo ligou onze vezes na primeira semana. Sete na segunda. Três na terceira. Eu não atendi nenhuma. Na quarta semana, veio a mensagem que eu sabia que viria, porque homens como ele são previsíveis até na queda: Diogo: Você vai se arrepender de jogar tudo fora por orgulho. Ninguém vai te amar como eu te amei. Eu li duas vezes. E, pela primeira vez em um mês, eu ri de verdade. Porque ele tinha razão sem saber. Ninguém ia me amar como ele me amou. Graças a Deus. Bloqueei o número e fui regar a samambaia. A ideia não chegou como um raio. Chegou como chegam as coisas importantes: devagar, disfarçada de coisa pequena. Foi numa quinta-feira, na sala de espera do dentista, folheando uma dessas revistas velhas de consultório. Uma reportagem de duas páginas: "Produção independente: as mulheres que decidiram ser mães solo por escolha." Eu li a matéria inteira. Depois li de novo. Mulheres comuns. Professora, enfermeira, analista de sistemas. Nenhuma rica, nenhuma famosa. Todas com a mesma frase dita de jeitos diferentes: "Eu cansei de esperar o homem certo para começar a minha vida." Inseminação artificial. Doador anônimo. Banco de sêmen. Palavras que eu conhecia de ouvir falar, mas que nunca tinham sido sobre mim. Quando a recepcionista chamou meu nome, eu levantei num pulo, culpada, como se tivesse sido flagrada. Devolvi a revista para a pilha. Três quarteirões depois, voltei. — Esqueci uma coisa — menti para a recepcionista. Arranquei a reportagem da revista, dobrei, enfiei na bolsa e saí andando rápido, o coração batendo feito eu tivesse roubado um banco. Naquela noite, o notebook ficou aberto até as três da manhã. Eu li tudo. Fóruns, grupos, relatos, matérias, os termos técnicos que fui anotando num caderno: inseminação intrauterina. Fertilização in vitro. Doador anônimo. Indução da ovulação. Taxa de sucesso por ciclo. Li os relatos bonitos, de teste positivo e chorar abraçada com a própria mãe. Li os difíceis também. Três tentativas, quatro, o dinheiro acabando antes da esperança. Eu me obriguei a ler esses com mais atenção que os outros. E em algum momento, entre uma aba e outra, eu abri o aplicativo do banco. A poupança do enxoval. Quatro anos guardando. Um pouco todo mês, às vezes quase nada, mas todo mês. Dinheiro que tinha nome e destino: vestido, festa, lua de mel. Olhei para o número na tela. Não dava para uma festa de casamento das que eu recortava de revista. Mas dava — apertado, contado, rezado — para tentar um filho. Eu fechei o aplicativo, fechei o notebook e fiquei olhando para o teto do quarto no escuro. Você tá louca, Ana. Sozinha? Com o seu salário? Num apartamento de um quarto? A voz na minha cabeça tinha um tom conhecido. Meio Diogo, meio mundo, meio todas as pessoas que a vida inteira acharam meu sonho pequeno demais para ser levado a sério. E aí uma outra voz, mais baixa e mais minha, respondeu com a pergunta que mudou tudo: Esperando o quê, exatamente? O homem certo? Eu esperei quatro anos pelo errado. A hora certa? A hora certa é um endereço que ninguém sabe dar. Dinheiro sobrando? Dinheiro nunca sobra, dinheiro é escolhido. Um filho não ia ser o meu plano B. Ele sempre foi o plano A. O resto da minha vida é que tinha sido desvio. A primeira consulta foi num sábado de manhã, numa clínica grande e famosa, dessas com aquário na recepção e café em cápsula. A médica foi gentil, competente e direta. Pediu exames, explicou o procedimento, desenhou num papel o caminho do positivo. Depois empurrou na minha direção uma folha com os valores. Eu mantive o rosto neutro. Anos de planilha me ensinaram a não reagir a números na frente dos outros. Mas por dentro, eu fiz a conta três vezes, procurando um erro que não existia. Só o procedimento comia a poupança quase inteira. Com os exames, os hormônios, os remédios... e se não desse certo na primeira? Ninguém garante a primeira. As estatísticas que eu decorei nos fóruns diziam exatamente o contrário. — Você não precisa decidir hoje — disse a médica, gentil, vendo além do meu rosto neutro. — Vá para casa, pense com calma. Eu fui para casa. Pensei. E fiz o que toda mulher com salário contado faz desde o início dos tempos: fui procurar mais barato. Foi a Bia quem me mandou o link, semanas depois, junto com um áudio desconfiado: — Amiga, uma menina do meu prédio fez inseminação nessa clínica aqui, ó. Bem mais em conta. Ela engravidou de primeira. Agora... o lugar é meio escondido, viu? Nem parece clínica por fora. Dá uma pesquisada direito antes. Eu dei uma pesquisada. O site era simples, quase amador. Poucas fotos. Uma lista de serviços, um telefone, um endereço numa rua comercial sem nenhum charme. Não tinha aquário na recepção, com certeza não tinha café em cápsula. Mas tinha registro. Tinha um responsável técnico com CRM de verdade — eu chequei no conselho, duas vezes. Tinha meia dúzia de avaliações online, curtas e satisfeitas. E tinha um orçamento que cabia na poupança com folga para uma segunda tentativa. Marquei a visita antes que a prudência gritasse mais alto que a vontade. Pessoalmente, o lugar era o que o site prometia: pequeno, discreto, funcional. Uma recepção apertada, um corredor de três portas, cheiro de desinfetante. O médico que me atendeu era um senhor de fala mansa que respondeu todas as minhas perguntas sem pressa e sem empurrar nada. — A senhora vai usar doador anônimo — ele confirmou, anotando na ficha de papel. Ficha de papel, em pleno século vinte e um. — O banco de sêmen é terceirizado, certificado. A senhora escolhe o perfil do doador num catálogo. Características físicas, escolaridade, histórico de saúde. Tudo dentro da lei, tudo sigiloso. Sigiloso. Se eu soubesse, naquela tarde, o tamanho do que aquela clínica escondia atrás da palavra sigiloso... Mas eu não sabia. Eu só vi o que precisava ver: um caminho possível entre mim e o meu sonho, com um preço que eu alcançava. Assinei os papéis da primeira etapa numa terça-feira, dia 14 — e só percebi a data quando a caneta já corria no papel. 1 mês exato desde o aniversário que Diogo passou num hotel com outra. Achei justo. Quase poético. No mesmo dia, no caminho de volta, passei na farmácia e comprei o ácido fólico que a médica da primeira clínica tinha recomendado começar com antecedência. Guardei o frasco no armário do banheiro, ao lado da minha escova de dente, onde eu fosse ver todos os dias.
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