Primeiro Ato: Infância

1042 Words
Sou a caçula de três filhos. Nasci quando minha mãe tinha trinta e sete anos e meu pai tinha praticamente a mesma idade, meus irmãos são bem mais velhos que eu. Não, meu lar doce lar não era nada parecido com a famosa e sonhada família que romantizam nos comerciais de margarina. Meus pais viviam em pé de guerra. Minha mãe era agredida física e verbalmente quase que diariamente. Meu pai traía minha mãe e sempre soubemos de tudo, mas minha mãe, como muitas e tantas outras, aguentava calada para manter a família. Sempre percebi a distinção de criação entre mim e meus irmãos, nunca me sobrava nada enquanto a eles nada faltava. Eles saiam para trabalhar e me deixavam aos cuidados dos meus irmãos. Péssima ideia! Meus irmãos brigavam muito, de porrada mesmo, eu deveria ter uns seis anos. E foi nessa época que eu aprendi a ser mercenária, lutava bravamente ao lado do irmão que me dava mais balas e docinhos. Me julguem por isso! Fora as brigas ainda existiam as coações, eles me mostravam filmes aterrorizantes e usava dos vilões destes para me aterrorizar e fazer com que eu virasse empregada e fizesse todo o serviço da casa. Os problemas em casa aumentavam, a falta de dinheiro ajudava e muito nesta questão. Meu pai trabalhava em uma fábrica e minha mãe era voluntária. Mesmo assistindo de primeira fila o início da minha história, não tenho certeza da ordem dos fatos, acredito que seja por de fato, não saber ou me lembrar em que ordem ocorreram os seguintes casos: Meu pai trabalhava em uma fábrica e ficava vários dias longe. Nesta época a minha família (gente boa pra caramba) me dizia que o meu pai ficava tudo isso de tempo longe por que ele tinha um filho da minha idade em outra cidade. E quanto mais eu chorava e negava mais eles riam e insistiam. Resumindo, passei boa parte da minha infância acreditando que meu pai gostava mais desse tal irmão que eu nem conhecia do que de mim. Por conta dos problemas com a falta de dinheiro, os atos terroristas dos meus irmãos mais velhos e as atitudes de meu pai, minha mãe era uma pessoa que ficava constantemente doente. Ficava dias internada no hospital, eu nunca entendi muito bem o motivo, mas parece que ela não gostava da própria vida. Pense: meu pai com o “meu irmãozinho”, minha mãe no hospital e eu com os meus irmãos. Me sentia uma criança feliz e amada. Certo? Com o tempo, além dos problemas físicos, minha mãe passou a sofrer de depressão. Como ela me teve com quase quarenta anos as pessoas que nos viam na rua acreditavam que ela era minha avó, vê se pode, porém consigo entender com todo sofrimento ela ganhou várias e várias rugas em seu rosto, fazendo com que ela aparente ter bem mais idade do que realmente tinha. Então ela criou, no incrível mundo medíocre dela, que eu não poderia a amar já que ela morreria logo. Ela me dizia isso diariamente, como isso traria coisas boas na cabeça de um ser humano tão pequeno e no início de sua formação? Logo, uma vez estávamos em casa quando vi minha mãe colocando várias “balinhas coloridas” na boca. Eu chorei, ela não me deu nenhuma, disse que era bala de adulto. Chorei bastante e meu pai chegou em casa, me perguntou o que estava acontecendo e eu contei. Foi o que salvou minha mãe, levaram-na a tempo para o hospital e depois de uma lavagem ela ficou alguns dias internada. Eu ainda era muito nova, não tinha idade para visitá-la. Me lembro de sempre fazer cartinhas com desenhos dela comigo em casa e vários corações em volta. Mais tarde eu aprendi a escrever e mandava cartas com declarações de amor. Desta vez ela estava em um quarto, terceiro andar, que a janela dava para uma praça. De tanto eu chorar uma tia resolveu me levar e ficar comigo nesta praça enquanto o meu pai subia e pedia para ela olhar pela janela. Foi o que ela fez. Acenou por alguns segundos, sorriu e logo em seguida tentou se jogar da janela. Me lembro de ouvir os gritos da onde eu estava, por sorte meu pai conseguiu segurá-la a tempo de sua morte acontecer diante dos meus olhos. Graças ao bom Deus ela melhorou e parou com essas crises, depois de longos anos. Fico feliz que mesmo depois de inúmeras tentativas ela nunca chegou nem perto de conseguir o que tanto queria. Resumo da infância: Pai que amava mais o irmão desconhecido e minha família vivia esfregando isso na minha cara. Irmãos que brigavam, pais que brigavam. E uma mãe que insistiu em me ensinar que eu não deveria amá-la. Eu nunca tive um animal de estimação, nem este tipo de amor eu pude conhecer. Conclusão: Meu pai não me ama, meus irmãos não me amam. Minha mãe fala que eu não posso gostar nem dela como vou amar qualquer outra coisa ou pessoa? Qual foi minha reação a tudo isso? Amadureci rápido demais. Não me lembro quantos anos eu tinha, se fosse pra chutar seria uns oito anos, mas me lembro dos meus irmãos assistem filmes adultos. Eu nem entendia o porquê de tanta gritaria e não podia perguntar já que eu via escondido. Não me pergunte como mas eu aprendi a me masturbar nesta idade. Um irmão meu uma vez me pegou e usava para me chantagear. Logo o mais velho de nós se casou e trouxe uma filha para morar com a gente em casa. Aí que amadureci mais ainda e virei babá da sobrinha. (Não me reclamo desta parte) A imagem na tela a minha frente some por alguns segundos e começam a aparecer momentos raros, onde a alegria e a diversão reinavam: Quando eu podia brincar com minhas primas. Quando, na hora do horário político, meu pai aceitava me ouvir cantando o hino Nacional ou quando minha mãe cantava para eu dormir. Um dia que acabou a energia e sentamos todos à volta da mesa e chupamos melancia a luz de velas. Quando peguei minha sobrinha no colo pela primeira vez. E assim acabou o primeiro ato.
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