Comecei a tomar consciência e a sentir o meu corpo. Minha boca estava seca. Água! Eu preciso de água.
Uma dor no corpo insuportável, um vazio imenso e uma escuridão sem fim. O inferno não é como eu esperava. Cadê os gritos, a tortura e o fogo? É isso que aprendemos com nossos pais e catequistas não é? O inferno é uma prisão para se pagar eternamente pelos atos e pecados cometidos na nossa curta passagem nesta terra. E honestamente o que não me faltava era pecado!
Eu ouvia vozes algumas vezes mas não sabia se era ou não real. Pensava em tudo e nada ao mesmo tempo. Vez ou outra as vozes voltaram e agora estou ouvindo, o que me parece ser duas pessoas, um homem e uma mulher? Seriam eles os meus algozes?
A cada minuto as vozes ficam mais altas, junto a elas ouço outros ruídos que não consigo identificar. Pouco a pouco o medo me toma, temos medo do que não conhecemos ou entendemos e eu não conseguia entender o que estava acontecendo comigo. Então isso é a morte? O inferno? Um imenso e escuro vazio de dor e sede?
Tento movimentar o meu corpo e com muito esforço consigo um suave balançar de cabeça, me esforço um pouco mais e consigo mover outras partes do meu corpo então mesmo sem ter certeza decido tentar abrir os meus olhos.
– Ela está acordando, doutor. - reconheço a voz da mulher.
Sou tomada por uma claridade intensa, tão intensa que chega a doer minhas vistas. Consigo notar um quarto branco e o casal próximo a mim.
– Que bom que acordou. - disse um homem muito bonito e com a voz calma se aproximando.- Meu nome é Gustavo, sou o médico que está cuidando do seu caso.
Eu fico em silêncio. O que eu falaria? Não acredito, fui uma inteira incompetente minha vida inteira, em tudo o que eu fiz e pelo visto nem competência para acabar com a minha vida eu tenho.
– Está me ouvindo? Consegue me entender? - Faço sinal que sim, sinto uma frustração tão grande, maior que ela, somente a certeza de que eu não presto para nada, literalmente, nem para morrer.
– Quero água. - com muito esforço consigo falar, mas foi tão baixo que não tenho certeza que ele tenha conseguido me ouvir.
– A enfermeira vai pegar água para você – ele disse e a mulher saiu do quarto.
– Como se sente? - ele pergunta se aproximando da cama e segurando com delicadeza a minha mão.
– Como se um avião houvesse caído sobre mim, meu corpo inteiro dói.
Ele liga uma pequena lanterna e joga luz nos meus olhos, me examinando. A enfermeira volta e me ajuda com a água. Logo eles aferem minha pressão e temperatura.
– Vamos fazer alguns exames mas acredito que esteja bem e sem maiores sequelas.- disse o doutor – Vou fazer algumas perguntas e responda pra mim sem se esforçar muito Ok? - assinto com a cabeça.
– Qual o seu nome e quantos anos você tem? - ele pergunta pausadamente.
– Sou Carolina e tenho trinta e dois anos.
– Certo, muito bem. Você se lembra como veio parar aqui?
– Não, até porque não era para eu estar aqui, como foi possível e a quanto tempo estou aqui?
– Você chegou a três dias. O seu marido a trouxe, estava inconsciente por ter perdido muito sangue e a quantidade de álcool no seu organismo e a anemia profunda contribuíram para sua piora.
– O André me trouxe? Ai meu Deus, ele não está aqui não né? Por favor, não deixe ele chegar perto de mim.
– Fique calma por favor, é melhor que não se altere. Vou deixar avisado na recepção que você não pode receber visitas tudo bem? Quem eu posso deixar autorizado?
– Não tenho ninguém doutor. Minha única amiga mora longe agora, então não me sobrou mais ninguém.
– Entendo. - disse passando a mão no telefone e ligando na recepção proibindo minhas visitas.
– Obrigada.
– Não por isso. A quanto tempo é viciada?
Simplesmente dou um sorriso amargo e o ignoro.
– Preciso fazer uns exames em você para ter certeza que está bem. Sua recuperação precisa ser acompanhada de perto já que está bastante debilitada. Perdeu muito peso e ainda está por vir as crises de abstinência do álcool, acredito que o álcool tem sido seu amigo corriqueiro nos últimos meses. - Confirmo com a cabeça.
– E as drogas? - Percebendo que eu não responderia ele optou por hora em respeitar o meu silêncio. - Perguntei pois pode ser uma recuperação ainda mais difícil, mas vou providenciar a papelada.
– Tudo bem. - Não tenho nada além disso a dizer. Vou dizer o que? Que sou uma fodida inútil que acumula uma quantidade exacerbada de merdas feitas na vida? Que se existisse essa categoria no Guinness eu, com certeza, estaria no topo?
O médico bonitão saiu e eu agradeci mentalmente ele não ter me feito mais perguntas. Aproveito para olhar mais ao meu redor e percebo
Logo chegam duas enfermeiras e me levam para o exame. Colheram urina de um dreno que eu nem sabia que estava usando, colheram meu sangue e fizeram uma tomografia.
Me levaram de volta para o quarto e me serviram uma sopa.... hum delícia, só que não.... aposto que esse aqui é o meu inferno particular, diacho de sopa r**m!
Não sei precisar quanto tempo depois elas voltaram e tiraram o meu dreno. Me levaram para o banheiro e me deram um banho.
Só agora eu havia reparado em mim mesma. Eu estava somente: pele, osso e com um curativo imenso no braço esquerdo. Não havia um espelho para me olhar e pensei ainda bem que não, pois eu deveria estar péssima.
Queria tentar levantar mais elas disseram que esta seria uma tarefa para mais tarde. Meu corpo está fraco e eu preciso me recuperar aos poucos.
Estou deitada nesse quarto que será meu por não sei quantos dias e depois só Deus sabe o que vai ser da minha vida. Como será que o André me achou? E que raios ele estava fazendo atrás de mim?
Era para eu estar morta agora. Sem sentir medo e sem estar preocupada com o que fazer da minha vida. Que vida? Eu nem mesmo tinha algo decente para chamar de vida, eu me desfiz do pouco que tinha para a minha sobrevivência, eu escolhi abandonar tudo e abraçar a minha única amiga, a morte, e nem ela me quis.
Começo a sentir ânsia e tonturas. Me falta ar e meu coração acelera, começo a hiperventilar o que faz com que eu sinta dor em cada milímetro do meu corpo. Com uma dificuldade absurda, alcanço e aperto o botão que chama a enfermeira.