Ana fingiu não perceber o silêncio que se instalou no carro, mas o corpo dela reconheceu. Sempre reconhecia. Mesmo quando a mente tentava negar.
Kevin estacionou no shopping e desceu primeiro, contornando o carro para abrir a porta pra ela, como sempre fazia. O gesto simples devolveu um pouco de calma.
— Vamos? — ele perguntou.
— Vamos.
O mercado estava cheio. Carrinhos se esbarrando, crianças correndo, vozes altas. Ana pegou um carrinho e começou a andar pelos corredores com a lista na mão. Kevin empurrava, atento a tudo ao redor, mas sem deixar transparecer tensão.
— Arroz… feijão… óleo… — ela murmurava, colocando as coisas no carrinho.
— Leite. — Kevin completou. — Clara toma todo dia de manhã.
Ana sorriu de leve.
— Verdade.
Foram avançando corredor por corredor. Em certo momento, Ana parou na frente da seção de higiene, olhando os preços.
— Kevin… — ela falou baixo. — Eu posso pegar só o básico.
Ele entendeu na hora.
— Ana — disse com calma — pega o que você precisa. Não negocia dignidade.
Ela engoliu em seco, assentindo.
No caixa, enquanto a operadora passava os produtos, Ana observava o visor com os valores subindo. O estômago apertou. Kevin pagou sem pressa, sem fazer disso um evento.
Depois, foram à loja de roupas. Ana escolheu duas calças jeans, algumas blusas simples. Quando chegou à parte das roupas de adolescente, parou.
— A Clara vai crescer rápido… — ela comentou, pensativa.
— Então pega um número a mais. — Kevin disse. — Criança cresce, roupa não.
Ela riu.
— Você fala como se fosse pai.
Kevin a olhou por um segundo a mais do que o normal, mas não disse nada.
Quando saíram da loja, já estava escurecendo. O estacionamento iluminado, sacolas nas mãos, cansaço bom no corpo.
— Obrigada por hoje — Ana disse enquanto entrava no carro. — De verdade.
— Você não me deve agradecimento por viver — ele respondeu.
No caminho de volta, o celular de Kevin vibrou de novo. Desta vez, ele não ignorou. Olhou rapidamente e suspirou.
— Kevin… — Ana chamou, apreensiva.
— É da equipe. — Ele falou com cuidado. — Uma câmera pegou um carro suspeito perto da casa dos seus pais. Nada confirmado ainda.
O coração de Ana disparou.
— Você acha que é ele?
— Ainda não dá pra saber. — Kevin respondeu firme. — Mas eu vou reforçar a vigilância aqui também. Hoje mesmo.
Ela assentiu, apertando a bolsa contra o peito.
— Eu achei que… que talvez ele tivesse desistido.
Kevin estacionou em frente ao prédio e virou pra ela.
— Monstros não desistem fácil. Mas isso não significa que eles vencem.
Ana respirou fundo, tentando conter o tremor.
— Promete que vai me contar tudo? Mesmo o que for difícil?
Kevin segurou o rosto dela com as duas mãos, olhando direto nos olhos.
— Eu prometo. E prometo mais uma coisa: ninguém vai te levar de volta pro inferno.
Ela fechou os olhos por um segundo, apoiando a testa na dele.
— Então eu consigo continuar.
Kevin sorriu de leve.
— É tudo que você precisa fazer.
Eles subiram com as sacolas. Clara os esperava acordada, sentada no sofá.
— Vocês demoraram! — ela reclamou, rindo.
— A culpa é da futura policial — Kevin respondeu. — Ela comprou meio mundo.
Clara ajudou a guardar as coisas, animada com as roupas novas. Ana observava a irmã rindo, falando sobre a escola, como se a vida estivesse — finalmente — ensaiando algo normal.
Mas naquela noite, enquanto Kevin se despedia e prometia voltar no dia seguinte, ele saiu do prédio com uma certeza pesada no peito:
O silêncio do agressor estava acabando.
E quando ele voltasse…
Nada mais seria apenas rotina.