dias de compras

626 Words
Ana fingiu não perceber o silêncio que se instalou no carro, mas o corpo dela reconheceu. Sempre reconhecia. Mesmo quando a mente tentava negar. Kevin estacionou no shopping e desceu primeiro, contornando o carro para abrir a porta pra ela, como sempre fazia. O gesto simples devolveu um pouco de calma. — Vamos? — ele perguntou. — Vamos. O mercado estava cheio. Carrinhos se esbarrando, crianças correndo, vozes altas. Ana pegou um carrinho e começou a andar pelos corredores com a lista na mão. Kevin empurrava, atento a tudo ao redor, mas sem deixar transparecer tensão. — Arroz… feijão… óleo… — ela murmurava, colocando as coisas no carrinho. — Leite. — Kevin completou. — Clara toma todo dia de manhã. Ana sorriu de leve. — Verdade. Foram avançando corredor por corredor. Em certo momento, Ana parou na frente da seção de higiene, olhando os preços. — Kevin… — ela falou baixo. — Eu posso pegar só o básico. Ele entendeu na hora. — Ana — disse com calma — pega o que você precisa. Não negocia dignidade. Ela engoliu em seco, assentindo. No caixa, enquanto a operadora passava os produtos, Ana observava o visor com os valores subindo. O estômago apertou. Kevin pagou sem pressa, sem fazer disso um evento. Depois, foram à loja de roupas. Ana escolheu duas calças jeans, algumas blusas simples. Quando chegou à parte das roupas de adolescente, parou. — A Clara vai crescer rápido… — ela comentou, pensativa. — Então pega um número a mais. — Kevin disse. — Criança cresce, roupa não. Ela riu. — Você fala como se fosse pai. Kevin a olhou por um segundo a mais do que o normal, mas não disse nada. Quando saíram da loja, já estava escurecendo. O estacionamento iluminado, sacolas nas mãos, cansaço bom no corpo. — Obrigada por hoje — Ana disse enquanto entrava no carro. — De verdade. — Você não me deve agradecimento por viver — ele respondeu. No caminho de volta, o celular de Kevin vibrou de novo. Desta vez, ele não ignorou. Olhou rapidamente e suspirou. — Kevin… — Ana chamou, apreensiva. — É da equipe. — Ele falou com cuidado. — Uma câmera pegou um carro suspeito perto da casa dos seus pais. Nada confirmado ainda. O coração de Ana disparou. — Você acha que é ele? — Ainda não dá pra saber. — Kevin respondeu firme. — Mas eu vou reforçar a vigilância aqui também. Hoje mesmo. Ela assentiu, apertando a bolsa contra o peito. — Eu achei que… que talvez ele tivesse desistido. Kevin estacionou em frente ao prédio e virou pra ela. — Monstros não desistem fácil. Mas isso não significa que eles vencem. Ana respirou fundo, tentando conter o tremor. — Promete que vai me contar tudo? Mesmo o que for difícil? Kevin segurou o rosto dela com as duas mãos, olhando direto nos olhos. — Eu prometo. E prometo mais uma coisa: ninguém vai te levar de volta pro inferno. Ela fechou os olhos por um segundo, apoiando a testa na dele. — Então eu consigo continuar. Kevin sorriu de leve. — É tudo que você precisa fazer. Eles subiram com as sacolas. Clara os esperava acordada, sentada no sofá. — Vocês demoraram! — ela reclamou, rindo. — A culpa é da futura policial — Kevin respondeu. — Ela comprou meio mundo. Clara ajudou a guardar as coisas, animada com as roupas novas. Ana observava a irmã rindo, falando sobre a escola, como se a vida estivesse — finalmente — ensaiando algo normal. Mas naquela noite, enquanto Kevin se despedia e prometia voltar no dia seguinte, ele saiu do prédio com uma certeza pesada no peito: O silêncio do agressor estava acabando. E quando ele voltasse… Nada mais seria apenas rotina.
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