O relógio no telão começou a contagem regressiva.
59:59...
59:58...
59:57...
O silêncio tomou conta do armazém.
Aurora não conseguia desviar os olhos da tela. Sua mãe aparecia sentada em uma cadeira de metal, com as mãos presas por correntes. Apesar do rosto machucado, Clara mantinha a cabeça erguida.
Na segunda tela estava Helena.
Ela parecia cansada, mas continuava firme, como se ainda acreditasse que Ravi encontraria uma saída.
Na terceira...
Augusto.
O pai de Ravi estava visivelmente mais debilitado. As marcas dos anos de cativeiro eram evidentes, mas seus olhos permaneciam atentos.
Marcelo surgiu novamente na transmissão.
Marcelo: — Gostaram do jogo?
Ravi deu um passo à frente.
Ravi: — Acaba com isso, Marcelo!
Marcelo sorriu.
Marcelo: — Você ainda não entendeu.
Não existe maneira de salvar os três.
Só existe uma escolha.
E eu quero descobrir quem você ama mais.
Aurora fechou os punhos.
Aquilo não era apenas uma armadilha.
Era crueldade.
Caio começou a observar o galpão.
As paredes.
As vigas.
As câmeras.
Tudo parecia moderno demais para um prédio abandonado.
Ele caminhou discretamente até um painel elétrico.
Passou a mão sobre a estrutura metálica.
Algo chamou sua atenção.
Caio: — Chefe...
Isso aqui foi reformado recentemente.
Ravi aproximou-se.
Ravi: — O que encontrou?
Caio apontou para o chão.
Marcas recentes de concreto.
Caio: — Existe alguma coisa embaixo.
Marcelo acompanhava tudo pelas câmeras.
Sorriu.
Marcelo: — Sempre inteligente...
Mas ainda atrasado.
Aurora continuava olhando para a imagem da mãe.
De repente...
Clara levantou discretamente a mão.
Parecia tentar dizer alguma coisa.
Ela começou a bater os dedos na cadeira.
Uma sequência repetitiva.
Aurora franziu a testa.
Aurora: — Ela está fazendo algum código.
Ravi olhou imediatamente para a tela.
Helena percebeu o que Clara fazia.
Começou a repetir o mesmo ritmo.
Toc... Toc... Toc-toc... Toc...
Caio fechou os olhos por alguns segundos.
Depois sorriu.
Caio: — Código Morse.
Aurora arregalou os olhos.
Aurora: — Você sabe traduzir?
Caio continuou ouvindo.
A sequência repetia sem parar.
Ele pegou um bloco de papel.
Começou a escrever.
Depois levantou a cabeça.
Caio: — Elas estão dizendo...
"O verdadeiro cativeiro fica abaixo do armazém."
Ravi olhou imediatamente para o piso.
Então compreendeu.
O galpão era apenas uma fachada.
Os reféns estavam no subsolo.
Enquanto isso...
Marcelo deixou de sorrir.
Ele percebeu que haviam entendido a mensagem.
Virou-se para um dos capangas.
Marcelo: — Prepare o plano B.
O homem assentiu.
Caio começou a bater no piso com a coronha da arma.
Em determinado ponto...
O som mudou.
Era oco.
Caio: — Aqui!
Os homens afastaram algumas caixas enferrujadas.
Debaixo delas havia uma enorme tampa de aço.
Trancada.
Ravi retirou do bolso a pequena chave da Coroa.
Olhou para a fechadura.
O símbolo gravado era exatamente o mesmo.
Ele aproximou a chave.
Aurora segurou seu braço.
Aurora: — E se isso for outra armadilha?
Ravi sorriu de leve.
Ravi: — Com Marcelo...
Sempre é.
Mesmo assim, girou a chave.
Ouviu-se um clique.
A tampa começou a destravar lentamente.
Um forte vento subiu do subterrâneo.
As luzes do galpão piscaram.
Marcelo observava tudo pelas câmeras.
Sua expressão mudou.
Pela primeira vez...
Parecia preocupado.
A pesada porta de aço finalmente se abriu.
Uma escada descia para um túnel completamente escuro.
O ar era frio.
Cheirava a umidade.
Ravi pegou uma lanterna.
Olhou para Caio.
Depois para Aurora.
Ravi: — Fiquem atentos.
Eles começaram a descer.
Cada degrau aumentava a tensão.
No fim da escada havia um longo corredor de concreto.
Nas paredes...
Fotografias antigas.
Documentos.
Mapas.
Era como um arquivo secreto.
Aurora iluminou uma das fotos.
Seu coração quase parou.
Na imagem apareciam Augusto, Clara, Helena...
E uma menina de aproximadamente cinco anos.
Ela.
Ao lado de Ravi, ainda criança.
Aurora ficou imóvel.
Aurora: — Isso...
Isso é impossível.
Ravi aproximou a lanterna.
Na parte de trás da fotografia havia uma data.
15 de setembro de 2001.
Muito antes da festa.
Muito antes de qualquer um deles imaginar.
Eles já haviam se encontrado.
Ainda crianças.
E alguém fez questão de apagar essa lembrança de suas vidas.
Naquele instante, uma voz ecoou pelo corredor.
Não era Marcelo.
Era Augusto.
Fraca.
Desesperada.
Augusto: — Ravi!
Não sigam em frente!
É exatamente isso que ele quer!
Antes que pudessem reagir, a porta de aço acima deles se fechou com um estrondo.
BUM!
Os três estavam presos no subterrâneo.
E perceberam tarde demais que haviam entrado na armadilha mais perigosa de Marcelo.
Continua...
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