O silêncio que tomou conta do galpão parecia mais ensurdecedor do que os tiros que haviam sido disparados minutos antes.
Marcelo permanecia imóvel.
A arma continuava apontada para Ravi, mas sua mão tremia pela primeira vez.
As palavras de Helena haviam atingido um lugar que ele mantinha trancado havia décadas.
Helena: — Você foi enganado...
Marcelo respirava com dificuldade.
Seu olhar alternava entre Helena e Ravi.
Como se procurasse em seus rostos a resposta que buscara durante toda a vida.
Marcelo: — Você está mentindo.
Helena sorriu com tristeza.
Mesmo ferida, ainda encontrava forças para enfrentá-lo.
Helena: — Seu pai precisava de um culpado.
E encontrou Augusto.
Marcelo deu um passo para trás.
Seu coração acelerava.
As lembranças da infância começaram a voltar.
Fragmentos que ele nunca conseguira compreender.
A discussão dos pais.
O choro da irmã.
Os gritos naquela madrugada.
Uma porta batendo.
Depois...
O silêncio.
Ravi abaixou lentamente a arma.
Ele percebeu que Marcelo já não estava lutando contra ele.
Lutava contra o próprio passado.
Ravi: — Meu pai nunca matou sua irmã.
Marcelo olhou para ele com os olhos marejados.
Marcelo: — Cala a boca!
Ravi: — Se ele fosse culpado...
Por que passaria vinte e cinco anos preso?
Marcelo não respondeu.
Nunca havia pensado naquela possibilidade.
Sempre acreditara na versão contada pelo pai.
Sem questionar.
Sem procurar provas.
Aurora ajoelhou-se novamente ao lado de Helena.
O ferimento piorava a cada minuto.
O sangue atravessava o tecido improvisado que ela pressionava contra o abdômen.
Aurora: — Você precisa resistir.
A ambulância já está vindo.
Helena sorriu.
Helena: — Não se preocupe comigo.
Ela segurou a mão de Aurora.
Helena: — Sua mãe...
Sempre dizia...
Que você herdou...
O coração do seu pai.
Aurora começou a chorar.
Aurora: — Você vai contar isso para ela pessoalmente.
Helena fechou os olhos por um instante.
Depois voltou a abri-los.
Havia urgência em sua voz.
Helena: — Escute com atenção...
Existe uma pessoa...
Que vocês ainda não encontraram.
Ela sabe...
Toda a verdade.
Ao ouvir aquelas palavras, Ravi aproximou-se.
Ravi: — Quem?
Helena respirou profundamente.
Cada palavra parecia exigir um enorme esforço.
Helena: — Isabela...
Marcelo congelou.
Seu corpo inteiro enrijeceu.
Ele conhecia aquele nome.
Conhecia melhor do que qualquer outra pessoa.
Marcelo: — Não...
Isso é impossível.
Helena voltou os olhos para ele.
Helena: — Sua irmã...
Está viva.
O mundo pareceu parar.
Nenhum dos homens armados ousou se mover.
Até o vento que atravessava o galpão parecia ter desaparecido.
Marcelo deixou a arma cair.
O som do metal atingindo a passarela ecoou pelo ambiente.
Marcelo: — Você está mentindo...
Ela morreu.
Eu vi o corpo.
Helena balançou a cabeça lentamente.
Helena: — Você viu...
O corpo errado.
Augusto tirou Isabela da cidade antes que seu pai pudesse encontrá-la.
Mas seu pai precisava que todos acreditassem na morte dela.
Então colocou outra jovem em seu lugar.
Marcelo levou as mãos à cabeça.
As lembranças voltavam cada vez mais claras.
A mãe chorando.
O caixão fechado.
A ordem para ninguém abrir.
Ele nunca viu o rosto da irmã.
Apenas acreditou.
Durante vinte e cinco anos...
Construiu sua vida sobre uma mentira.
Caio aproveitou a distração.
Fez um sinal discreto para os homens.
Um a um, eles começaram a cercar silenciosamente os capangas de Marcelo.
Sem disparar um único tiro.
Quando os criminosos perceberam, já estavam cercados.
Caio: — Larguem as armas.
Ninguém precisa morrer hoje.
Alguns obedeceram imediatamente.
Outros olharam para Marcelo esperando uma ordem.
Mas ele permanecia imóvel.
Completamente perdido.
Aurora observava aquela cena sem acreditar.
O homem que aterrorizara tantas pessoas agora parecia apenas um menino destruído pelas próprias lembranças.
Mesmo assim, ela não conseguia esquecer tudo o que ele fizera.
Os sequestros.
As mortes.
As mentiras.
Ela aproximou-se lentamente.
Aurora: — Se sua irmã realmente está viva...
Então ainda existe uma chance de acabar com esse ciclo.
Marcelo levantou lentamente os olhos.
Havia lágrimas escorrendo por seu rosto.
Marcelo: — E se vocês estiverem mentindo?
Ravi respondeu antes que Aurora pudesse falar.
Ravi: — Então eu mesmo entrego minha vida a você.
Mas, se estivermos dizendo a verdade...
Você vai responder por tudo o que fez.
Marcelo permaneceu em silêncio.
Nesse instante...
O rádio preso ao cinto de um dos capangas começou a chiar.
Uma voz grave surgiu do outro lado.
Voz: — Marcelo.
Todos olharam imediatamente para o aparelho.
Marcelo empalideceu.
Conhecia aquela voz.
Era impossível esquecê-la.
O homem que ele acreditava estar morto.
Seu pai.
Voz: — Você estragou tudo.
Eu mandei eliminar Augusto há vinte e cinco anos.
E você transformou essa guerra em uma obsessão.
Ravi e Caio trocaram um olhar.
Então...
O verdadeiro líder da Coroa n***a ainda estava vivo.
A voz continuou.
Voz: — Já que falhou...
Vou terminar o trabalho pessoalmente.
A transmissão foi encerrada.
O galpão mergulhou novamente no silêncio.
Marcelo olhava fixamente para o rádio.
Compreendia, finalmente, que havia sido apenas uma peça em um jogo muito maior.
Ravi apertou os punhos.
Durante todos aqueles anos, enfrentaram o homem errado.
Marcelo nunca fora o verdadeiro comandante.
Ele era apenas o herdeiro manipulado de um império construído sobre sangue.
Aurora segurou a mão de Ravi.
Os dois compreenderam a mesma coisa ao mesmo tempo.
A guerra contra Marcelo havia terminado.
Mas a verdadeira batalha...
Estava apenas começando.
Continua...
💜 Apoie esta história!
❤️ Curta o capítulo • 📚 Adicione à biblioteca • ⭐ Siga meu perfil.
🌙 Tem Bilhete Lunar? Vote na história e me ajude a subir no ranking!
💬 Seu comentário e 🎁 seu presente fazem toda a diferença. Obrigada por apoiar meu trabalho! ✨