dez

1614 Words
Com a noite mostrando o seu brilho mais uma vez na semana, de volta ao parque me despedi de April e fui atrás do meu carro. Estava na hora de voltar pra casa, de pensar em mil e uma desculpas para explicar à mamãe meus motivos para ter faltado ao almoço do dia. Achava ser desnecessário, mas estava ciente de que ela não me esperaria com o bom humor de sempre. Ao menos podia contar com a compreensão do seu marido, podia recorrer a ele para evitar sermões longos demais, principalmente por saber que dessa era tudo por um motivo agradável. Não estava aprontando, não tinha saído da linha como se esperava na maioria das vezes, estava dentro das expectativas. Durante todo correr do dia, ainda não havia falado com Lucas, ele estava trabalhando. Era sábado, mas nem que eu implorasse de joelhos ele aceitava o meu apelo para que papai lhe desse uma folga. Responsabilidade com tudo o que fazia era uma grande qualidade dele, a característica que sua mãe e a minha mais gostavam em sua pessoa. Ele se orgulhava disso, e apesar dos contras da situação, eu também sentia orgulho das suas conquistas. Ele merecia cada uma delas. "Leth, estou surpreso que não tenha me procurado até agora. Aconteceu alguma coisa?" Devia estar esperando pelo meu contato, m*l esperou que o primeiro toque chegasse ao seu fim antes de me atender. Foi engraçado, mas sem ele por perto para fazer suas ameaças pessoalmente, não adiantava tantas caras e bocas. "Não aconteceu nada, só estava aproveitando o dia com uma amiga enquanto meu primo puxava o saco do meu pai e dos sócios dele." Provocá-lo era como uma religião desde a infância, já não surtia mais o mesmo efeito de antes. Precisava conseguir novos métodos para o tirar do sério. "Desde quando você tem amigas que valem a pena? Até onde sei, sou o único que realmente presta." Era só o que me faltava. "Me respeita Fonseca, idiota." Dentro do carro, virei a chave na ignição, engatei a primeira marcha e aproveitei a falta de movimento pela rua. "Estou indo pra casa agora, o que acha de passar a noite comigo? Queria te contar umas coisas." "Fofoca pela metade não se conta, Leth. Já te ensinei isso, filha da mãe." O seu drama era como música para os meus ouvidos, amava isso nele. O palhaço era um fofoqueiro de primeira, gostava de todos os detalhes, não importava o quão sórdidos eles poderiam ser. Dizia ser incapaz de passar uma notícia sem fundamentos para frente. Só tinha um probleminha desta vez. O assunto não era algo que deveria se espalhar. "Quer que eu passe na sua casa para te pegar?" Ignorando o seu reclamar, perguntei parando em um sinal vermelho. Então chequei meu retrovisor, era um costume bobo. Não tinha nada demais, apenas um outro carro, e do lado um motociclista. Era uma moto para se admirar, um motor potente. Se não gostasse tanto da segurança que as quatro rodas me passavam, já teria pedido ao meu pai para me ajudar a escolher uma. "Não precisa, vou ligar pra minha mãe e avisar que não voltarei hoje e pedirei uma carona para o seu pai." Com esse seu dizer eu respirei fundo. "Vocês ainda estão no escritório?" Pelo horário, achava isso um absurdo. "Não é nada demais, já estamos de saída." O conhecendo da forma como conheço, estava certa de um divertido sorriso brincava no canto dos seus lábios. "Aposto que ainda chegamos antes de você." "Para o meu bem, estou contando com isso." "O que você fez dessa vez?" Sua preocupação às vezes me matava, mas era algo que também me agradava. "Beijo primo, falamos mais quando estivermos em casa. Estou dirigindo." O sinal estava aberto, podia seguir em frente sem muitas preocupações. "Tudo bem, nos vemos em alguns minutos. Não faz mais nenhuma besteira." "Não prometo nada" Com isso encerrei a chamada e deixei o celular cair sobre o banco do carona. Estava pensando em como seria recebida por mamãe quando chegasse, e por isso, para garantir que papai chegasse antes de mim, resolvi que pegaria um caminho mais longo. Não estava habituada a ele, mas ao menos sabia que acrescentaria o tempo necessário em meu relógio. Vagando em uma velocidade considerada permitida, acreditava não ter nada para me preocupar. Apesar de escura, não era uma rua que apresentava perigo. Bom, foi o que eu pensei antes da mesma moto do semáforo passar por mim um pouco devagar demais, apenas para acelerar com força logo depois. Aquilo foi no mínimo estranho. Negando meus próprios pensamentos, senti meu coração se acelerar de forma inesperada. Nunca havia me sentido assim antes, não estava acostumada a lidar com uma situação sequer parecida com essa. Não sabia o que aquela atitude poderia significar, mas escolhi por não pensar muito nisso e ir logo pra casa. Talvez fosse melhor lidar com a insatisfação de uma Bitencourt irritada, do que enfrentar um assalto longe de olhos que se preocupavam. A patrulha militar não passava muito por essa rua, e devido ao horário, talvez já tivessem feito isso por hoje. Estava há poucos minutos de casa, virando a próxima esquina seguiria em linha reta até alcançar o condomínio em que morava. Mas sem poder fazer tal curva graças a uma pessoa para em minha frente, respirei fundo desejando não ser mesmo a merda de assalto. Já estava em casa, seria o cúmulo perder o meu carro tão perto da propriedade dos meus pais. Então encarei a figura com o capacete em minha frente, e mesmo contra a minha vontade acabei freando o carro por puro instinto. Quer dizer, podia simplesmente acelerar e passar por cima de quem quer que fosse, mas e se não fosse nada do que eu estava pensando? Vai ver a pessoa só queria uma informação. Como explicaria aos meus pais o motivo para que a frente do carro estivesse em um estado preocupante? Eram muitas as hipóteses, mas ao ter a figura me pedindo para baixar o vidro ao parar do meu lado, pensei que talvez tivesse sido melhor se não pensasse tanto antes de agir. No momento em que o capacete foi removido, desejei que fosse um assalto, ficaria menos aflita se a situação fosse essa. Afinal, só teria que entregar o carro e fingir não ter visto nada. Mas não sabia o que esperar com ela pendurada à porta do meu carro. Do canto de sua boca, ela tirou um pirulito pela metade e sorriu assentindo para o nada ao mergulhar seus olhos nos meus. Não entendi nada, mas optei por ficar em silêncio enquanto fosse possível. O que ela queria comigo agora? Esperava que não fosse a minha cabeça ainda por causa do último ocorrido. — Desce do carro. — É o quê? — Não acho que seja uma boa ideia. — Tentando manter o mínimo de contato visual, disse segurando com força o volante em minhas mãos. O que estava acontecendo? — Sai logo desse carro, merda. Não vou pedir uma terceira vez. — Agredindo com grosseria a lataria, se afastou para que a porta fosse aberta. — 'Tá surda por acaso, inferno?! Situação de perigo, não sabia o que era isso fora dos filmes. Mas com a brutalidade do seu tom, respirei fundo e deixei o carro. Não tinha certeza, mas acabei considerando que talvez estivesse em perigo de alguma forma. Sua postura era difícil de ler, o capacete em suas mãos foi depositado sobre o teto do meu carro, o levar de suas mãos aos bolsos me chamou alguma atenção. Sua pose de durona era interessante, mas era difícil não me perguntar o porquê de ainda estar tão bem depois do que fiz. E apesar de gostar de acreditar que devo isso ao fato de estar do meu lado da cidade, depois do encontro no parque ficou claro que talvez essa não seja uma explicação válida. — Gostei do seu carro, parece ser do último ano. — Sua análise não se limitava apenas ao possante de quatro rodas, mas gelei quando sua mão foi estendida. — As chaves. — Deve estar brincando com a minha cara, se acha que vou te entregar as chaves do meu carro. — Cruzando os braços, disse firme parando na frente da porta do motorista. — Pareço estar brincando? — Não, não parecia. — Eu não ligo, não vou te dar as minhas chaves. — Firme em minha postura, acionei o alarme e joguei meu chaveiro dentro da blusa. Ela sorriu com isso. — Você me deve, e vai me pagar de um jeito ou de outro. E só um aviso. — Devolveu o pirulito a boca e pegou de volta seu capacete. — Quando eu vier para cobrar de verdade, vai desejar que tivesse me entregado as chaves essa noite. Com a ameaça jogada, ela se afastou devagar e sempre com um sorriso filho da p**a no canto daqueles malditos lábios. Me deixou sem palavras, pensando em mil e uma maneiras diferentes de receber a sua cobrança. Onde eu fui me meter? Isso nem era da minha conta, e agora estou marcada pela merda da dona do morro. Se não fosse um assunto tão problemático, recorria a papai para me ajudar. Mas além de precisar contar em detalhes como tudo chegou nesse ponto, ainda corria o risco de nunca mais recuperar a confiança da mamãe. Fazia um tempo que não me enfiava em uma merda tão grande. Com ela desaparecendo, só me restava ir finalmente para casa. Mas e se a filha da mãe ainda estivesse me seguindo? Quer saber, f**a-se. Ela não me assusta como pensa. ➳ ????? ???? ? ???́????.
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