Oito

1669 Words
➳ Juliana Phelps , JP.  Quando abri os olhos naquela manhã, senti minha cabeça gritar em agonia. A dor que sentia não era algo muito simples, então me lembrei do que aconteceu na noite passada, do que me forçou a vir embora mais cedo do que o programado. Não estava esperando por nada daquilo, a surpresa ainda segue agindo dentro de mim. Era necessário muita coragem para fazer o que foi feito dentro daquele banheiro, ou no mínimo, a garota devia ser muito burra. Tendo feito minha higiene pessoal depois de checar uma vez mais o estado em que estava minha cabeça, ignorei a janela cem por cento aberta e deixei meu quarto. Precisava beber alguma coisa, rebater aquela dor da melhor forma que poderia no momento. Algumas latas de cerveja como café da manhã deveria ser o suficiente, ao menos me faria pensar com mais calma e menos ódio pelo ocorrido. Sorte que o corte não foi profundo, ou eu teria tido mais do que um simples problema com a minha irmã. Afinal, qual o problema dela em não ouvir as merdas que eu falo? Tudo aquilo podia ter sido evitado se ela não tivesse dado as caras onde não devia. Horas, ainda era cedo se comparado ao horário que costumo mostrar a cara de poucos amigos pelas ruas. Mas devido ao incômodo com aquele maldito atentado, não tive como aproveitar a cama dessa vez. Por causa disso, também não pude saborear o sabor da Heineken em minhas mãos com o prazer de sempre. Ph não permitiu, sua entrada brusca ganhou a minha atenção quando me jogava sobre o sofá da sala. Era o seu dia sorte, o devia por ontem. - Achei mesmo que ainda estaria desmaiada sobre aquela cama. - Jogando sobre a minha mesa o que parecia ser coisas comestíveis, ele disse sem muito humor. - Está melhor? - Não é fácil me derrubar, você sabe disso. - Deixando a segunda lata do dia do lado de suas sacolas, fui firme ao dizer. - Estou ótima, logo resolvo essa merda toda. - Você não parecia bem ontem, e depois de te ver no chão daquele banheiro eu finalmente consegui entender porque sua irmã saiu quase arrastada por aquela garota. - Nesse momento eu consegui ver um leve sorriso ameaçar brincar no canto dos seus lábios, mas ele o conteve. - A dona do morro nocauteada por uma patricinha da zona sul, por essa nem os mais otimista podiam estar esperando. - Se repetir essa p***a outra vez, eu vou ter que procurar um novo sub dono. - Voltando a sentir aquele desconforto de quando acordei, fui direta com ele. - Logo terei o meu acerto de contas com aquela filha da p**a, não se preocupe com isso. - Falando nisso, agora que não está mais quase morrendo. Me conta direito essa história. - Ele não entendeu o ultimato dado, era isso. - Você não teria levado uma pancada dessas sem conseguir se defender, e duvido que alguém seria i****a o suficiente pra fazer essa merda sem que tivesse um empurrão daqueles. - Isso não é da sua conta, deixa o assunto morrer aqui dentro. - Me jogando contra o estofado que me sustentava, respirei fundo ao retornar ao exato momento em que toda aquela merda aconteceu. AJ era um pé no saco, pra que raios a filha da mãe foi me provocar daquele jeito? Não tinha amor à vida, e eu claramente me deixei levar pelas emoções negativas. - Descobriu alguma coisa sobre aquela garota e os amigos dela? Alguma ideia da relação dela com a minha irmã? - Era pra ter feito isso? - Não podia ser sério, estava cercada por incompetentes. - Vaza daqui, Ph. - De pé na intenção de amenizar o estresse que começava a tomar conta, fui rude ao dizer. - Não me procure de novo se não tiver nada pra mim, agora sai daqui. - No fim das contas, não bateram tão forte assim. - Sua voz saiu baixa, e minha paciência já estava no limite. - O que disse desgraça? - Vou fazer umas perguntas por aí, te mando uma mensagem quando achar alguma coisa que preste. - Disse em um momento, batendo a porta logo em seguida após ir embora. Ele costumava ser um bom amigo, mas em dias como esse eu não estou para muitas brincadeiras. O modo como aquela garota cuidou de proteger a AJ não saia da minha cabeça. Secando mais duas ou três latas da bebida que me acompanha desde o início da adolescência, respirei fundo ao fitar o teto com grande intensidade por alguns minutos. Tinha que sair um pouco, respirar ar fresco antes de ficar louca dentro dessa casa. f**a-se se estava com álcool no sangue, uma boa aventura seria sempre muito bem vinda. Jogando o celular no bolso de dentro da jaqueta junto dos documentos, peguei as chaves da moto junto do capacete e saí trancando tudo atrás de mim. Sobre as duas rodas, fechei minha lente e acelerei por aquelas ruas. Mas não era o suficiente, eu precisava de mais, buscar por aquilo que tanto me incomodava. Se não fizesse nada, acabaria machucando alguém que não merecia isso, que nada tinha haver com toda essa minha frustração. Faria um corre na zona sul para tentar esfriar a mente. Porém, devia saber que não era o que eu queria de verdade. Pelas principais avenidas daquele lado da cidade, a velocidade em meu velocímetro era mínima, estava abaixo do limite apenas para assistir um pouco desse mundo sem desejar colocar fogo em tudo. Com isso, quando me dei conta estava estacionado a poucos metros de distância da casa de Amanda Johansen. Ela tinha acabado de sair, para o trabalho provavelmente. Mas não foi por causa dela que vim parar aqui nas ruas do centro. Então eu esperei, aguardei até o momento em que April também saiu. Sempre com o celular nas mãos, não esperei muito. Podia ter estufado o peito e ter ido bater em sua porta para tirar essa história a limpo, para descobrir onde encontrar aquela garota. Mas não fiz isso, apenas esperei por sua saída para que pudesse seguir os seus passos. Queria saber o que ela faria durante esse dia, como cuidaria da própria vida longe das asas da mãe. Não sabia tanto sobre ela, e talvez estivesse afim de começar a mudar isso. Só não contava que seus passos fossem me levar até quem eu esperava ver outra vez. De longe, observei quando seu carro foi estacionado nas proximidades do parque nacional, de onde ela seguiu a pé. No banco de frente para o balanço das crianças, ela era esperada com sorrisos. Em seu pescoço existia um cachecol, e apesar do clima ameno, não era o suficiente para tal acessório. No entanto, sabia porque ele estava ali. Pouco me fudendo para os limites, estacionei nas costas de onde elas estavam e desci da moto já tirando o capacete e ajeitando o cabelo. AJ respirou fundo ao olhar pra mim, e a garota do seu lado engoliu em seco ao segurar meu olhar. Ela era mesmo alguém de muita coragem, mas até quando isso podia durar? - O que está fazendo aqui, Juliana? - Seu tom era firme, sua postura rígida e a todo momento com um pé atrás. Talvez tivesse aprendido alguma coisa no fim de tudo, mas insistia em não respeitar o meu nome. - Não sei se ainda se lembra, AJ. Mas essas ruas são públicas, assim como esse lugar aqui. - O sorriso irônico brincava em meus lábios, enquanto ela apenas respirava fundo. - Que se f**a. - Me dando as costas, ela se virou pra garota. - Vamos embora daqui, o clima não é mais tão agradável. Estava atenta às suas palavras, às suas ações futuras. Mas não deixaria que elas se afastassem assim tão fácil, elas estavam em dívida comigo, e o mínimo que podiam fazer era me ouvir. Então, fui firme ao segurar seu braço quando ela ameaçou dar o primeiro passo. Foi instantâneo, a garota revezou seu olhar entre minha mão e meu rosto por breves segundos antes de ajeitar a sua postura e se colocar do lado da minha irmã. Seriam um casal e eu não notei? - Eu não estou no morro, Juliana. Tira às suas mãos de mim. - Raramente a via agir de modo grosseiro, mas é o que se espera de alguém independente. Ela tinha que saber como se defender sozinha, não teria sempre alguém a seu resgate. - Não vai me apresentar sua amiga? - Liberando seu braço, me aproximei um pouco mais daquela garota. Tinha que admitir, ela era muito bonita. Pena que não sabia respeitar líderes de comando. - Vamos embora, Letícia. - Outra vez chamando pela garota, sorri conhecendo o seu nome, mas não apenas por isso. Ph havia conseguido o que pedi, suas mensagens me diziam muito. - Letícia Bitencourt Amorim, filha do advogado mais renomado do estado? Isso é uma surpresa. - Sua atenção agora era minha, AJ teria de esperar. - Como alguém como você foi parar na minha comunidade na noite de ontem? Se cansou da vida fácil na zona sul? Da falsa liberdade e dos problemas com a família? - Cala a boca, você não sabe nada sobre mim. - Em um tom agudo, ela disse firme. E ainda mais firme, eu segurei seu ombro e me aproximei do seu ouvido. - Você não faz ideia de com quem está brincando, Letícia Bitencourt. - Baixo, mas no tom que precisava, falei de forma vagarosa antes de voltar a encarar os seus olhos. - Cuidado por onde anda, algumas ruas costumam ser muito perigosas. - Chega disso, vamos sair logo daqui. - Não encontrando qualquer reação de humor em seu semblante, dessa vez não fiz nada para evitar que se afastassem. Podia esperar uma oportunidade diferente, mas isso ainda não era tudo. - Não contou pra ela quem eu sou, querida irmã?! - Vai se ferrar!
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