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1948 Words
CAPÍTULO 1 — TUBARÃO NARRANDO Acordei com a cabeça parecendo que tinha alguém martelando meu cérebro por dentro. Abri os olhos devagar, encarando o teto do meu quarto enquanto tentava lembrar que p***a eu tinha feito na noite anterior. A boca estava seca, o corpo pesado e aquele gosto de álcool permanecia na língua. Virei o rosto para o lado e dei de cara com duas mulheres dormindo na minha cama. Uma estava deitada de bruços, coberta até a cintura pelo lençol, enquanto a outra ocupava boa parte do colchão, completamente apagada. Fiquei alguns segundos olhando para as duas, tentando puxar da memória como aquela situação tinha começado, mas a verdade era que eu não tinha a menor vontade de fazer esforço. Algumas noites simplesmente não mereciam ser lembradas. Passei a mão pelo rosto e soltei um suspiro irritado. Eu estava de ressaca. Daquelas fodidas. Minha cabeça doía, meu estômago estava embrulhado e a única coisa que eu queria naquele momento era um café preto e forte o suficiente para ressuscitar defunto. Levantei da cama sem acordar nenhuma das duas. Peguei a calça jogada no chão, vesti sem pressa e fui até o banheiro. Parei diante do espelho e encarei meu próprio reflexo. Olhos pesados, barba por fazer e uma expressão de poucos amigos. Nada muito diferente do habitual, tirando a cara de quem tinha bebido como se não existisse amanhã. Abri a torneira e joguei água fria no rosto, ficando alguns segundos com as mãos apoiadas na pia. Eu não era homem de ressaca. Pelo menos não gostava de admitir. Mas naquela manhã eu estava pagando caro pela noite anterior. Voltei para o quarto, peguei minha carteira e tirei algumas notas, deixando o dinheiro sobre o criado-mudo. Não precisava de conversa, despedida ou promessa. Nunca precisei. Elas sabiam como funcionava. Eu também. Era simples. Cada um seguia seu caminho quando a noite acabava. Eu não levava mulher para minha vida e muito menos para dentro da minha cabeça. Mulher para mim sempre tinha sido diversão, companhia de uma noite e nada além disso. Já tinha cometido o erro de misturar sentimento com desejo uma vez na vida e tinha aprendido da pior maneira possível que confiar em alguém podia custar caro demais. Depois de Fernanda, eu não tinha intenção nenhuma de repetir aquela merda. Peguei uma camiseta preta, enfiei pela cabeça e saí do quarto. Minha casa ficava no alto do morro, grande demais para um homem sozinho, mas eu nunca tinha me importado com isso. Gostava de espaço. Gostava de silêncio. Gostava de poder olhar pela janela e enxergar praticamente toda a comunidade lá embaixo. A Rocinha era minha casa. Eu conhecia aquelas vielas, aquelas ruas, aqueles becos e aquela gente. Sabia quem entrava, quem saía, quem devia favor, quem estava tentando crescer onde não devia e quem precisava ser colocado no lugar. Não era um trabalho simples. Nunca tinha sido. Mas eu tinha nascido naquele mundo e aprendido cedo demais que, para sobreviver nele, não dava para ser fraco. Desci até a garagem e entrei no carro. Assim que liguei o motor, uma pontada forte atravessou minha cabeça. — c*****o… Fechei os olhos por um instante e respirei fundo. — Nunca mais eu bebo desse jeito. Eu mesmo sabia que era mentira. Saí de casa e desci pelas ruas da comunidade até chegar à boca. O movimento já começava cedo. Homens espalhados pelos pontos, gente circulando, rádio comunicador funcionando e aquela rotina que nunca parava completamente. Assim que apareci, alguns dos meus homens me cumprimentaram com um aceno de cabeça. Eu respondi da mesma forma, sem muita conversa. Minha cara naquele momento deixava claro que não estava com paciência para gracinha. Entrei no espaço reservado e fui direto para o banheiro. Ali tinha tudo que eu precisava. Tomei um banho demorado, deixando a água cair sobre a cabeça enquanto tentava diminuir a dor. Fiquei alguns minutos parado, respirando fundo, até sentir o corpo começar a despertar. Quando saí, coloquei uma roupa limpa e fui até a cozinha improvisada que mantínhamos ali. Peguei uma caneca e preparei um café preto, forte pra c****e. Dei o primeiro gole ainda quente e fechei os olhos. Aquilo sim era vida. Tomei mais um gole e ouvi passos atrás de mim. Nem precisei virar para saber quem era. — Bom dia, chefe. Olhei por cima do ombro e encontrei Jorge entrando com aquele sorriso de filho da p**a que ele sempre carregava quando tinha alguma novidade. — Se tu falar alto, eu te mato. Ele segurou uma risada. — Tá de ressaca? — Não. Tô treinando pra morrer. Jorge riu e puxou uma cadeira, sentando de frente para mim. — Tu bebeu pra c*****o ontem. — E tu não? — Bebi, mas eu sou resistente. — Tu é um i****a. — Também. Voltei a beber meu café enquanto Jorge ficava me encarando. — Fala logo. — Que foi? — Tu veio aqui pra ficar olhando pra minha cara? Ele apoiou os braços na mesa. — Conheci uma mulher. Parei com a caneca no meio do caminho. — E? — Ela é diferente. Soltei uma risada curta. — Lá vem tu com essa p***a. — Tô falando sério. — Toda vez que tu conhece uma mulher tu fala que ela é diferente. — Essa é mesmo. — Então tá. Vai lá e casa com ela. Jorge gargalhou. — Calma, p***a. Eu nem conheci pessoalmente ainda. Franzi a testa. — Como assim? Ele pegou o celular e começou a mexer. — Conheci pela internet. Fiquei alguns segundos olhando para ele. — Pela internet? — É. — Tu tá de s*******m comigo. — Não tô. — Jorge, tu tem vinte e sete anos, não quinze. — E daí? — Daí que mulher da internet é coisa de maluco. — Tu não pode falar nada. Tu vive pegando mulher em boate. — Pelo menos eu vejo a mulher na minha frente. Ele riu. — A gente conversa há uns três meses. — Três meses? — É. Balancei a cabeça, incrédulo. — Tu ficou três meses conversando com uma mulher pela internet e não viu ela pessoalmente? — A gente já fez chamada de vídeo, p***a. — Ah, então tá tudo resolvido. Jorge mostrou o celular. — Ela vai vir pra cá. Parei novamente. — Como é que é? — Ela vai vir pra Rocinha me conhecer. Fiquei encarando o meu melhor homem como se ele tivesse acabado de anunciar que ia pular de um prédio. — Tu tá maluco? — Por quê? — Porque uma mulher que tu conheceu pela internet vai sair lá do interior e vir pra cá atrás de ti? — Exatamente. Passei a mão pela testa. — c*****o, Jorge. Tu não tem juízo. — Ela também não. — E tu sabe como ela é? — Sei. — Sabe mesmo? — Sei. — Não tô falando de foto, não. Tô falando de verdade. Jorge ficou em silêncio por um instante. — Ela é bonita. Soltei uma gargalhada. — Pronto. Fodeu. — Qual foi? — Tu tá apaixonado. — Não tô. — Tá sim. — Não tô, c*****o. — Tá defendendo mulher que nem conhece pessoalmente. Isso já é sintoma. Ele me mostrou algumas fotos no celular. Olhei sem muito interesse no começo. Até porque, para mim, aquilo não mudava p***a nenhuma. Mas Jorge estava tão empolgado que resolvi prestar atenção. — E ela vem sozinha? — Não. — Ah, então tem alguém com ela. — As duas melhores amigas. — Três mulheres? — É. Dei outro gole no café. — E as amigas sabem que tu existe? — Sabem. — E sabem onde estão vindo? — Mais ou menos. — Mais ou menos? Jorge deu de ombros. — Ela sabe que eu moro na Rocinha. Só não sabe exatamente com o que eu trabalho. Aquilo me fez parar. — Tu não contou? — Ainda não. — Tu tá fazendo merda. — Eu vou contar quando ela estiver aqui. — E se ela descobrir e correr? — Aí eu descubro que não servia pra mim. Fiquei olhando para ele por alguns segundos. Jorge era meu irmão. Não de sangue, mas de vida. A família dele tinha me acolhido quando eu perdi meus pais. Eu tinha quinze anos quando tudo aconteceu. Meu pai morreu num confronto com a polícia, minha mãe também acabou morta naquela mesma época, e, de uma hora para outra, eu fiquei sozinho. Foi a família de Jorge que abriu a porta para mim. Foi ali que aprendi que algumas pessoas não precisam ter o mesmo sangue para serem família. Por isso eu conhecia Jorge melhor do que qualquer pessoa. E aquele brilho no olhar dele era novidade. — Qual é o nome dela? — Lili. — Lili? — Liliane. Mas ela gosta de Lili. — E tu tá gostando dela? Ele ficou alguns segundos em silêncio. — Acho que sim. — Tu tá fodido. — Por quê? — Porque mulher bonita dá trabalho. Mulher que tu gosta dá mais ainda. Jorge sorriu. — E se ela for feia? Comecei a rir. — Aí tu vai ter que ser homem e assumir. — Vai se f***r. — Tu que começou essa merda. Ele pegou o celular novamente. — Ela não é feia. — Todo homem apaixonado acha a mulher bonita. — Tu vai ver. — Eu não quero ver p***a nenhuma. — Vai ter que ver. — Por quê? — Porque ela não vem sozinha. Levantei uma sobrancelha. — E daí? — As amigas dela também vão. — E? Jorge abriu um sorriso malicioso. — Vai que uma delas faz teu tipo. Soltei uma risada. — Meu tipo é mulher que sabe ir embora antes do café da manhã. — Tu é um caso perdido. — E tu tá indo atrás de uma mulher que conheceu pela internet. Não sei quem é mais perdido nessa história. Jorge levantou e pegou o próprio café. — O pagode é amanhã. — E? — Elas vão chegar antes. — E tu quer me levar? — Quero. — Não. — Quero. — Jorge… — Vai comigo. — Eu não sou teu segurança de encontro. — Não pedi pra ser. Quero só que tu esteja lá. — Pra quê? — Porque tu é meu irmão. Fiquei em silêncio. Ele sabia exatamente onde apertar. — Beleza. — Sabia. — Mas se essa mulher for uma maluca, a culpa é tua. — Fechado. — E se ela for velha? Jorge começou a rir. — Para de falar merda. — Tu pode ter conversado três meses com uma senhora de sessenta anos. — Ela tem vinte e dois. Parei. — Tu sabe a idade? — Sei. — Vinte e dois? — É. — E tu tem vinte e sete. — Qual o problema? — Nenhum. Peguei minha caneca e me levantei. — Só espero que tu saiba onde tá se metendo. Jorge sorriu. — Eu também. Saímos da cozinha juntos, e enquanto caminhávamos pela boca, ele continuou falando daquela mulher como se já a conhecesse há anos. Eu fingia não prestar atenção, mas algumas coisas ficaram na minha cabeça. Ela viria do interior. Viria atrás dele. Três amigas juntas. Vinte e poucos anos. Uma história maluca. Mas, sinceramente, eu não imaginava que aquela viagem ainda fosse colocar na minha frente uma mulher que faria algo que nenhuma outra tinha conseguido em anos. Uma mulher que eu conheceria sem saber seu nome. Uma mulher que pisaria na Rocinha sem imaginar quem eu era. E uma mulher que, naquela mesma noite, entraria na minha vida de uma forma que eu jamais poderia prever. Naquele momento, porém, eu não sabia de nada. Só queria que aquela maldita dor de cabeça passasse.
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