CAPÍTULO 11 — LILI NARRANDO
Eu ainda estava tentando entender como, em menos de vinte e quatro horas naquela cidade, minha vida tinha virado uma completa bagunça. Eu tinha vindo para a Rocinha por causa de um homem que conheci pela internet, tinha finalmente encontrado Jorge pessoalmente e, para completar, descobri que o homem era muito mais gato do que nas fotos. Muito mais. Se nas conversas eu já ficava sorrindo igual uma i****a toda vez que ele mandava mensagem, pessoalmente eu simplesmente perdi qualquer capacidade de raciocinar.
Quando acordei naquela manhã, encontrei Juju e Mah na cozinha. Mah estava preparando café enquanto Juju mexia no celular, tentando parecer completamente normal. Só que eu conhecia minhas amigas. Alguma coisa tinha acontecido ali.
— Bom dia!
As duas olharam para mim ao mesmo tempo.
— Bom dia — Mah respondeu.
Juju apenas sorriu.
Eu estreitei os olhos.
— O que vocês estavam conversando?
— Nada — Juju respondeu rápido demais.
— Sei.
Peguei uma xícara de café e me sentei à mesa.
— Então, como vocês estão?
Mah olhou para Juju.
Juju olhou para Mah.
Eu bati a mão na mesa.
— Agora vocês vão falar! Porque eu também tenho coisa para contar.
Mah imediatamente ficou interessada.
— Sobre o Jorge?
Abri um sorriso.
— Sobre o Jorge.
— Então começa.
Encostei as costas na cadeira e suspirei dramaticamente.
— Gente… ele é muito mais bonito pessoalmente.
Juju começou a rir.
— Eu sabia.
— Não, vocês não estão entendendo. Ele é um gato.
— Isso você já tinha falado pelas fotos — Mah respondeu.
— Foto nenhuma faz justiça àquele homem.
Eu tomei um gole de café e continuei:
— Ele é alto, forte, tatuado, tem aquele sorriso de homem safado…
— Lili! — Mah reclamou, rindo.
— É verdade!
Juju apoiou o queixo na mão.
— E ele foi gentil com você?
— Muito.
— Educado?
— Também.
Mah sorriu.
— Pelo menos isso.
— E ainda por cima beija bem.
As duas começaram a rir.
— Você está apaixonada? — Juju perguntou.
— Ainda não.
— Ainda?
— Estou avaliando.
— Avaliando o quê?
— O conjunto da obra.
Mah quase engasgou com o café.
— Você não presta!
Eu comecei a rir.
— Estou falando sério. O homem é maravilhoso.
Juju me encarou com um sorriso malicioso.
— E depois do pagode?
Meu sorriso aumentou.
— A gente ficou junto.
— Só ficou? — Mah perguntou.
Olhei para as duas.
— Vocês querem mesmo saber?
— Queremos — responderam juntas.
Eu apoiei os braços na mesa.
— Gente… aquele homem tem energia.
Mah começou a rir.
— Quanta?
— Muita.
— Define muita.
— Muita mesmo.
Juju começou a bater a mão na mesa, gargalhando.
— Lili!
— Estou falando a verdade!
Mah balançou a cabeça, divertida.
— Então vocês passaram a noite juntos?
— Praticamente.
— E você ainda está viva?
— Por pouco.
As três caíram na risada.
Eu estava tão feliz contando que nem conseguia esconder.
— Mas falando sério, Jorge foi muito carinhoso comigo. Não foi só aquela coisa de atração. Ele conversou comigo, perguntou se eu estava bem, me tratou super bem.
Mah assentiu.
— Então ele é educado mesmo.
— Muito.
Juju tomou um gole do café.
— Diferente do meu misterioso Tubarão.
Eu imediatamente me virei para ela.
— Espera. O que é isso de Tubarão?
Mah arregalou os olhos.
Juju ficou vermelha.
— Depois eu conto.
— Não! Agora!
— Lili…
— Você não pode falar “Tubarão” e esperar que eu fique quieta!
Mah começou a rir.
— Ela ficou com um homem ontem.
Eu arregalei os olhos.
— O QUÊ?
Juju escondeu o rosto.
— Eu odeio vocês.
— E você não contou nada?
— Eu cheguei de madrugada!
— Exatamente! — Mah respondeu. — E você acha que eu ia deixar passar?
Eu comecei a rir.
— Meu Deus, essa casa já começou com segredos.
Juju apontou para mim.
— Você também não contou que chegou de madrugada!
Eu fiz uma careta.
— Eu ia contar agora.
Mah cruzou os braços.
— Você disse que o Jorge te deixou cedo.
— Eu disse?
— Disse.
— Então eu menti.
As duas me encararam.
Comecei a rir.
— Ele não me deixou cedo.
— Que horas? — Juju perguntou.
— De madrugada.
Mah arregalou os olhos.
— Lili!
— Ué, ele me deixou na porta de casa de madrugada.
Juju começou a rir.
— Então vocês realmente ficaram a noite toda juntos.
— Praticamente.
— E você conseguiu entrar sem acordar ninguém?
— Consegui.
Mah apontou para mim.
— Eu sabia que tinha alguma coisa estranha quando ouvi a porta.
— Eu fui silenciosa.
— Você tropeçou no sofá.
— Aquilo foi estratégia.
Juju gargalhou.
— Estratégia para quê?
— Para testar se vocês estavam dormindo.
— Ah, claro.
Eu terminei meu café e fiquei alguns segundos sorrindo sozinha.
A verdade era que eu tinha ido para a Rocinha por causa de uma loucura. Três meses conversando com um homem pela internet e, de repente, eu estava ali, morando em uma casa nova, começando uma vida completamente diferente.
E agora eu tinha conhecido Jorge.
O problema era que eu ainda não fazia ideia de quem ele realmente era.
Para mim, ele continuava sendo apenas o homem lindo, tatuado, educado e extremamente intenso que eu conheci no pagode.
Eu só não sabia que, naquela casa, não era apenas eu que tinha encontrado um homem misterioso.
Juju também tinha encontrado o dela.
E alguma coisa me dizia que aqueles dois encontros ainda iam dar muita confusão.