JASMIM DIAZ — ON
O som do celular vibrando em cima da cama desfeita cortou o silêncio do quarto. Eu estava no meio da organização das malas para Nova York, dobrando uma blusa de seda, quando vi o nome do Marcelo no visor. Atendi com o coração já dando um solavanco; naquele horário, eles deveriam estar a caminho de casa.
— Pode falar, Marcelo — minha voz saiu tensa.
— Aconteceu algo na escola. Preciso que venha o mais rápido que puder. Não se preocupe, já está tudo sob controle, apenas venha o mais rápido possível. Estarei aguardando.
O tom ríspido e apressado do Marcelo me fez gelar. Ele desligou antes que eu pudesse perguntar se meu filho estava sangrando ou se tinha sido apenas um tombo. Senti o sangue fugir do rosto. Não pensei. Saí correndo do quarto, os pés batendo forte nos degraus da escada.
— O que aconteceu, mulher? Aonde vai com tanta pressa? — a voz da minha mãe, Rose, ecoou da cozinha, mas eu já estava no estacionamento.
— Escola! — gritei de volta, pegando a chave da minha moto azul.
Subi nela sentindo a adrenalina queimar. Se alguém encostou um dedo no meu Felipe, eu juro por tudo o que construí que transformo aquele edifício em poeira antes do amanhecer. O trajeto que normalmente levaria vinte minutos, eu fiz em menos de oito. O trânsito de São Paulo era um obstáculo que eu cortava entre os corredores, ignorando o perigo.
Entrei no estacionamento do colégio com tudo. Freei bruscamente e, na pressa de descer, a moto pendeu para o lado. Eu não tive força nem paciência para segurar o peso. Ela foi ao chão com um estrondo metálico.
— p***a! — sibilei, sentindo uma pontada aguda no tornozelo onde a moto raspou, mas ignorei. Deixei ela lá, caída, e saí correndo em direção à entrada principal, passando pelos olhares curiosos de pais e funcionários.
— Eles estão na diretoria — avisou um professor que me viu passar como um furacão.
Entrei na sala sem bater. O cenário partiu meu coração em mil pedaços: Marcelo andava de um lado para o outro com o Felipe encolhido em seu colo. No canto, um garoto estranho chorava baixo, escoltado por um casal que não parava de falar.
— Boa noite, senhorita Diaz... peço desculpas pelo transtorno, os meninos brigaram, mas já está tudo resolvido. Não tinha necessidade de a senhora vir... — o diretor começou a falar, mas eu levantei a mão, calando-o no mesmo instante.
Eu sentia meu corpo inteiro ferver. Olhei para o meu filho. Seus olhos estavam vermelhos, inchados de um choro que ele tentava segurar.
— Desculpa, mamãe... não queria decepcionar você — a voz dele saiu embargada, um sussurro que me destruiu por dentro.
Tirei ele dos braços do Marcelo e o apertei contra mim. Sentar com ele no colo, sentindo seu pequeno corpo tremer, foi a única coisa que importou por alguns segundos.
— Mamãe nunca vai ficar decepcionada com você, meu amor. Nunca. Me conta o que aconteceu. Mesmo que você esteja errado, eu estou aqui — falei, beijando o topo da sua cabeça e lançando um olhar de puro ódio para o diretor.
— Como pode falar isso para o seu filho? Ele bateu no meu! — a mulher no canto interrompeu, indignada.
Revirei os olhos, a paciência já no negativo.
— O seu filho me provocou! — Felipe gritou de cima do meu colo, encarando a mulher. — Ele sempre me provoca porque eu tiro notas melhores!
Fiz carinho no rosto dele, secando uma lágrima solitária.
— Conta para a mamãe, príncipe. O que houve?
— Eu estava saindo da sala com o vovô Marcelo e ele esbarrou em mim de propósito, mamãe. Ele ficou me perturbando o dia todo... eu tentei me controlar, juro que tentei, mas não consegui. Me desculpa, eu sei que você está triste comigo...
— Não chore, meu amor. Está tudo bem. — Apertei-o mais forte. — Mamãe não está triste. Estou orgulhosa. Você tem o direito de se defender. Você não pisa mais nesse lugar, eu prometo. Se alguém te incomodar de novo, você me liga na hora, e eu vou até o inferno para te proteger. Você é meu pequeno prodígio e ninguém tem o direito de tentar te diminuir porque não aceita a realidade.
Beijei sua testa gelada pelas lágrimas e olhei para o Marcelo. Ele estava com os punhos cerrados, parecendo que ia explodir a qualquer momento.
— Pai, leve ele para casa. Agora. Eu resolvo isso aqui — falei, entregando o Felipe a ele.
— Vou mandar dois seguranças virem para cá te acompanhar — Marcelo murmurou, ainda tenso. — Vamos, garotão.
Assim que eles saíram, o silêncio na sala ficou pesado. O diretor tentou retomar a palavra, mas foi interrompido por um estrondo na mesa.
— Se controle, diretor! — era o professor Rodrigo, que tinha acabado de entrar. — Eu vim falar sobre isso. Eu vi o que aconteceu e queria falar com a senhorita Diaz.
— Você não tem nada para falar, Rodrigo! Saia! — o diretor gritou, batendo na mesa. O garoto no canto se encolheu, chorando mais alto.
— Você cale a boca agora — eu disse, minha voz saindo baixa e perigosa. — Ou eu mesma farei você calar. Não está vendo que está assustando a criança? Que tipo de diretor é você? Se isso aconteceu, a culpa é da sua incompetência em gerenciar esse lugar.
O pai do outro menino, que estava calado até então, concordou com a cabeça, repreendendo a própria esposa e o diretor. Eu respirei fundo e encarei o professor Rodrigo.
— Pode falar, Rodrigo. Estou ouvindo.
— Senhorita Diaz, sou o professor de matemática. Primeiro, parabéns pela educação do Felipe. Ele é brilhante, concentrado e nunca me deu problemas. — Ele ignorou o suspiro irritado do diretor.
— Espera um momento — interrompi, sentindo uma dor aguda no tornozelo que eu tinha ignorado até agora. Puxei uma cadeira e apoiei a perna, levantando um pouco a calça jeans apertada. — Desculpe, acabei vindo de moto e ela virou no estacionamento.
— Eu vi. Eu mesmo a levantei e estacionei direito para a senhora — Rodrigo disse com um tom gentil. — Permite que eu dê uma olhada?
Assenti. Ele se aproximou, verificando o local que estava apenas vermelho e inchado. Nada quebrado, apenas o lembrete físico de um dia desastroso.
— O Felipe é excepcional — continuei, voltando ao foco. — Ele fala desde os sete meses, sempre foi à frente do tempo dele. Mas eu não sabia que sofria perseguição aqui.
— Hoje mais cedo — Rodrigo começou, sentando-se na cadeira do diretor por meu convite silencioso —, o diretor pediu que todos deixassem os celulares na minha mesa, alegando que alguns alunos poderiam estar colando. Ele pediu atenção especial com o Felipe. No momento em que seu filho foi deixar o aparelho, o outro aluno soltou uma ofensa pesada. Eu repreendi na hora. Quando o Felipe terminou a prova — em apenas meia hora, com perfeição — eu liberei o celular dele e pedi que ele te avisasse que eu queria conversar. Eu queria te alertar sobre o que ouvi, mas o confronto no corredor aconteceu antes.
Olhei para o professor, buscando qualquer sinal de mentira. Não havia nenhum. A verdade estava ali: meu filho estava sendo vigiado como um criminoso por ser inteligente demais, enquanto o bullying acontecia debaixo do nariz de um diretor omisso.
— Rodrigo, obrigada pela sinceridade — falei, levantando-me com dificuldade, a dor no tornozelo agora pulsando. — Senhor diretor, espero que aproveite seus últimos dias nesse cargo. Amanhã, meus advogados entrarão em contato.
Saí da sala sem olhar para trás. A decisão de ir para Nova York agora não era mais uma opção de negócios; era um resgate. Eu ia tirar meu filho desse ninho de cobras e levar o professor Rodrigo em consideração para uma indicação futura. Mas primeiro, eu precisava chegar em casa, abraçar meu filho e garantir que ele soubesse que, no mundo de Jasmim Diaz, ninguém ficava para trás.