JASMIM DIAZ — ON
Acomodo o Felipe com todo o cuidado necessário. Inclino o assento dele para que o pescoço não fique torto e sinto, como se fosse um toque físico, o olhar de William fixo em cada movimento meu. É um olhar pesado, que avalia e julga, me deixando em um estado de alerta que eu detesto. Para quebrar o clima, aperto o botão de chamada.
— Em que posso ajudar? — a aeromoça surge, solícita.
— Um cobertor extra para ele, por favor. E para mim... uma dose de uísque. O mais forte que tiver no catálogo — peço, forçando um sorriso gentil.
— Claro. E o senhor? — ela se vira para William. Ele demora um segundo a mais para desviar os olhos de mim, coçando a nuca como quem tenta disfarçar um flagra.
— Traga a garrafa do melhor uísque que tiver para a moça. É por minha conta — ele diz, com aquela voz grave que ressoa no peito.
Reviro os olhos. Típico. Querendo marcar território com o cartão de crédito. Assim que a moça sai, aproveito para chutar meus saltos para o canto. Meus pés agradecem. Ficar de chinelo é meu luxo particular, não importa se estou na primeira classe ou em casa.
— Sem dúvidas, ele puxou ao pai — William solta, tentando quebrar o gelo.
— Não. Até porque ele não o conhece e o viu poucas vezes. E não me leve a m*l, mas prefiro apreciar o silêncio — respondo, seca.
— Então não é casada com o pai dele? — Ele ignora meu pedido de silêncio completamente. — O que leva uma jovem tão bonita a engravidar aos 16 anos? Amor?
A audácia dele me faz querer rir. Antes que eu possa dar um fora épico, a aeromoça retorna com um arsenal de conforto: cobertores, travesseiros e a garrafa de um uísque que eu nunca vi, mas que exala um aroma de carvalho e poder.
— Tire o gelo do meu, por favor — peço quando ele começa a servir.
Quando nossas mãos se tocam para eu pegar o copo, sinto um choque. Não é metafórico. É uma descarga elétrica que me faz travar por um segundo, os olhos dele encontrando os meus com uma intensidade que me deixa sem ar. Ele abre a boca como se fosse dizer algo, mas eu desvio, encho meu copo até a borda e viro um longo gole. O líquido queima na garganta, mas o calor que sinto no rosto é por causa do "quase quarentão" à minha frente.
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WILLIAM DE LUCCA — ON
Saí da sede da empresa em São Paulo com os nervos em frangalhos. A frustração era um gosto amargo na boca. Eu tinha acabado de receber a confirmação de que a dona da empresa que pretendo absorver — ou, no mínimo, tornar-me sócio majoritário — estaria em breve em New York City. O problema? Ela é um fantasma. Ninguém a vê, ninguém tem fotos, e o seu colíder, o tal Fabrízio, joga um jogo de fumaça que já estava me cansando.
— Direto para o aeroporto. Agora — ordenei ao meu motorista assim que entrei no carro, batendo a porta com força excessiva.
Enquanto o carro cortava o trânsito, eu continuava xingando e praguejando contra essa mulher mentalmente, usando todos os palavrões que conheço no meu idioma nativo. Estive em Nova York a semana inteira apenas para tentar uma brecha na agenda dela, e o que recebi? Um "não" seco, alegando que ela não viajaria este mês. Aí, assim que ponho os pés no Brasil, meu assistente me avisa que o Fabrízio mudou de ideia: a reunião será em Nova York, e ela já está a caminho.
Essa mulher está brincando comigo. E se não fosse por esse projeto ser a peça final para o meu domínio no setor de logística, eu já teria desistido. As informações sigilosas vazadas nos sites de economia já atraíram tubarões demais; eu preciso ser o primeiro a chegar. Preciso ser rápido, preciso ser objetivo.
Em 20 minutos, já tinha chegado ao aeroporto. Dei um comando ao meu motorista para avisar minha empregada que estarei indo novamente para Nova York e quero tudo organizado para minha chegada. Vou direto para a sala principal do aeroporto, do qual sou sócio, e logo me encaixam em um voo, já que meu jato iria demorar no mínimo seis horas para abastecer — e não tenho todo esse tempo para ficar sentado esperando.
Logo a aeromoça aparece e me leva até um avião bem menor do que meu jato particular. Reviro os olhos e peço que ela me leve para a poltrona que sempre uso quando meu jato não está disponível. Tenho um certo desconforto com as outras. Quando me aproximei, vi uma mulher branca de olhos azuis tão chamativos que lembravam as águas do mar de Perissa, na Grécia, e longos cabelos pretos, tão escuros como a noite.
Percebo que ela ainda não tinha notado minha presença e resolvo falar. A criança que estava ao lado dela se recusava a sair do lugar e a chamava de mãe. Mas como uma mulher que aparenta ter acabado de sair da adolescência tem um filho que parecia ter uns sete anos? Olhando bem para o garoto, percebo a leve semelhança entre os dois.
Resolvi não arrumar briga e me sentei na poltrona à frente da mulher, que me encarava constrangida e visivelmente com raiva. Na primeira classe dessa linha aérea, são quatro poltronas para duas pessoas, caso queiram colocar os pés ou ficar mais confortáveis. E sem dúvidas, aquela mulher não me queria ali. Percebo que sempre que puxava assunto com ela ou com o menino, ela ficava incomodada — e resolvo continuar.
Enquanto ela estava focada em algo no celular, eu e o pequeno Felipe conversávamos sobre tudo. O garoto parecia uma máquina, de tantas perguntas que fazia. Acabei descobrindo muito da vida deles. Conversamos tanto que ele acabou dormindo. E não sei por que, mas não conseguia parar de olhar para aquela moça, que parecia tão delicada e cuidadosa com a criança.
— Não vai ficar bêbada — falo olhando para a moça, que revira os olhos e se acomoda mais na poltrona, enquanto mais uma vez me ignora. Fico observando ela, querendo gravar tudo na minha cabeça — os lábios carnudos, vermelhos como sangue, e bem desenhados, perfeitos para chupar e morder.
— Está indo encontrar algum namorado? — pergunto, tentando matar minha curiosidade.
— Trabalho apenas — ela fala, virando o copo todo. Se continuar assim, vai sair daqui caindo pelos cantos.
— Então é solteira — deduzo, e ela apenas balança a cabeça afirmando, voltando a atenção para o celular. O que me leva a pensar: com quem tanto ela conversava? Não que eu esteja com ciúmes, não tenho tempo para esse tipo de coisa. Pelo menos, não agora. Penso, enquanto ela tira os olhos do celular e me encara.
— Você vai ficar me encarando o voo todo mesmo? — ela pergunta com uma sobrancelha erguida.
— Poderia. É uma bela vista, aliás — falo, e ela dá um sorriso, balançando a cabeça negativamente.
— Isso deveria ter sido um elogio? — ela pergunta.
— Sim — falo, rindo um pouco, constrangido. Essa mulher, sem dúvidas, sabe o que fazer para deixar um homem louco.
— Deveria se esforçar mais, então — ela fala, rindo. Viro meu copo e me vem à lembrança meu pequeno filho. Ele sempre me falava isso quando tentava elogiá-lo.
— Aconteceu algo? Do nada o senhor ficou tão sério — a moça fala. Volto minha atenção a ela, tentando não pensar nisso.
— Você falou algo que me fez lembrar meu filho — falo, desviando meu olhar dela e olhando para Felipe, que dormia tranquilamente.
— Ah, então você tem um filho? Que legal! — ela fala, sem tirar os olhos dos meus, enquanto dá um leve sorriso. — E quantos anos ele tem? Como ele se chama?
Sinto um nó na garganta. A pergunta dela, tão natural, me atinge como um soco.
— Eu tinha... Na verdade, tenho... Bom, ele foi sequestrado há um ano e meio. Ainda tenho esperanças de encontrar ele, na verdade — falo, e vejo o sorriso sumir do rosto dela instantaneamente, dando lugar a uma expressão triste.
— Nossa, sinto muito. Espero que encontre ele novamente e que ele esteja bem — ela fala, e vejo sinceridade. Pego a garrafa de uísque que estava com ela e encho meu copo.
— Obrigado. Eu também espero. Vamos falar de outro assunto, senhorita... — falo, dando ênfase para que ela me diga seu nome.
— Está curioso, né? Se depender de mim, continuará curioso — ela fala, fechando a cara e voltando a ser a moça chata de antes. Dou uma risada. Que mulher difícil de entender.
— Já que não quer falar seu nome, me diz pelo menos onde vocês moram, pra eu fazer uma visita... ou poderia me dar seu número — falo, e vejo ela negando.
— Eu moro em São Paulo e estou indo a trabalho. E nem morta eu dou meu número para você, coroa — ela fala, me deixando surpreso.
— Coroa? Eu tenho 30 anos, moça misteriosa. Não sou coroa ainda — falo, e ela ri mais alto.
— Tá bom, quase quarentão. Você pode me deixar um pouco em paz? — ela pergunta.
Tudo bem que não estou nos meus melhores dias — estou o dia todo com o mesmo terno de ontem, a barba um pouco grande, e o cansaço acumulado de uma semana de reuniões frustradas transparece no meu rosto. Mas ser chamado de “quase quarentão” por uma garota que m*l parece ter saído da faculdade me pegou de jeito. Aquilo feriu meu ego de um modo que eu não esperava.
— Tá bom, garota, fica quieta aí no seu canto — falo, revirando os olhos e tentando recuperar o controle da situação.
Essa menina está me fazendo parecer um adolescente impulsivo, e isso é algo que eu definitivamente não sou. Sou um homem de negócios, treinado para manter a frieza sob pressão, mas ela... ela quebra todas as minhas defesas com um simples bico de deboche. O melhor mesmo é não dar mais bola. Só que o choque que senti quando nossas mãos se tocaram ao trocar os copos ainda vibra na ponta dos meus dedos. Deve ser coisa da minha cabeça, o efeito do uísque barato de avião misturado com a falta de sono.
Com certeza, jovem do jeito que é, e bonita — e que beleza irritante ela tem —, deve ser cheia de pretendentes, acostumada a festas badaladas e aos holofotes de São Paulo. Eu já não tenho idade para esses lugares, nem vontade de lidar com a futilidade que os cerca. Meu foco é o trabalho e a busca pelo meu filho. Nada mais.
— Garota não, mulher — a moça fala, me corrigindo com uma prontidão que me faz olhá-la novamente.
Ela tem um sorrisinho ladino no rosto, o tipo de sorriso de quem sabe exatamente o poder que exerce.
— O que foi, quase quarentão? Não gostou? Nem parece que estava me elogiando agora há pouco — ela continua, o tom tornando-se mais travesso. Percebo as bochechas dela ficarem levemente avermelhadas enquanto sustenta meu olhar, e essa vulnerabilidade repentina me fascina.
— Garota, você queria ficar quieta, agora que falo para ficar calada você quer falar? Que tipo de mulher é você? — disparo em meu idioma, o italiano fluindo por entre meus dentes já sem paciência.
E vejo os olhos dela brilharem. Não é uma metáfora; eles realmente brilham como se tivessem dois pequenos cometas cruzando aquele azul profundo. Ela abre um sorriso que, pela primeira vez, não parece defensivo. É lindo.
— Isso é italiano, certo? Eu falo pouquíssimo — ela responde, mas para minha total surpresa, ela faz isso no meu idioma. O sotaque é quase inexistente, a pronúncia é limpa. Se eu fechasse os olhos, diria que estava conversando com uma nativa. Com aqueles traços e esses olhos, ela seria facilmente confundida com uma italiana de sangue nobre.
— Você entendeu o quê? — pergunto, arqueando a sobrancelha, curioso para saber até onde vai o entendimento dela.
— O capitão de quase quarenta anos me chamou de garota e disse algo como 'cala a boca' ou algo assim — ela fala, dando algumas pausas para buscar as palavras certas, mas a estrutura está correta.
Reviro os olhos. Pelo visto, o apelido de "quase quarentão" é o novo nome do meu contato na cabeça dela. Ela não vai esquecer.
— Eu não mandei você calar a boca. Falei que você queria ficar quieta e, quando eu falo pra ficar, você quer falar — esclareço em português, observando-a revirar os olhos e levar o copo aos lábios.
Ela bebe um gole generoso do uísque puro. Uma gota teimosa escorre pelo canto da boca dela, traçando um caminho lento pela pele clara, e por um segundo minha mente viaja para um lugar perigoso. Eu me imagino ali, aproximando-me o suficiente para limpar aquela gota com a minha língua, sentindo o gosto do álcool e da pele dela. Sacudo o pensamento antes que ele tome conta.
— E também perguntei que tipo de mulher você é — completo, mantendo o olhar fixo no dela, desafiando-a a ser honesta.
— Do tipo das que não se impressionam fácil — ela responde prontamente, deixando o copo vazio na mesa portátil.
Olho para a mesa de alumínio e fibra de carbono. É irônico. Essa peça foi criada por mim mesmo, uma solução incrível que projetei para otimizar o espaço das quatro poltronas centrais da primeira classe dessa aeronave. O avião todo, na verdade, tem o meu DNA técnico.
— Você tem algum problema de bipolaridade? Não é possível. Estava sorrindo há pouco, agora já está com raiva outra vez — provoco, vendo a guarda dela subir novamente.
Ela apenas dá de ombros e se levanta. Eu não sou de pedra, então aproveito a oportunidade para dar uma boa olhada no corpo dela. Ela se inclina para pegar um cobertor que estava do meu lado e, no movimento, quase derruba meu copo. Observo a curva da b***a, a cintura fina que contrasta com as coxas grossas e bem marcadas pela calça jeans justa. Os s***s têm o tamanho perfeito para as minhas mãos.
— Falta só morder para arrancar um pedaço. Tira uma foto, que dura mais — ela solta um riso debochado, percebendo meu escaneamento nada discreto.
Eu não desvio o olhar. Continuo observando cada movimento dela até que ela se acomode novamente na poltrona.
— Você é sempre chata assim? — pergunto, tentando esconder o fato de que a "chatice" dela é a coisa mais interessante que me aconteceu em meses.
— Sempre — ela afirma, balançando a cabeça com um fundo de verdade. Ela se encolhe na poltrona, puxando o cobertor até o queixo. O ar-condicionado da cabine realmente estava começando a esfriar o ambiente.
— Então você é do tipo que bebe um pouco e dorme — comento, ouvindo a risada abafada dela. Ela não tira os olhos de mim por um segundo sequer.
— Preciso descansar um pouco. Quando pousar, terei um dia corrido — ela diz, e um suspiro longo escapa de seus lábios, revelando um cansaço que ela tentava esconder com a arrogância.
— Chegaremos às duas da manhã. Não acha que terá tempo pra descansar no hotel? — pergunto, minha curiosidade voltando com força total. — Você trabalha com o quê, afinal?
Fico esperando a resposta, tentando ligar os pontos. Se ela viaja na primeira classe com essa desenvoltura, ou tem muito dinheiro, ou é uma herdeira... ou talvez seja exatamente o tipo de mulher de negócios que eu estou indo encontrar em Nova York. Mas, vindo dela, a resposta provavelmente será outro enigma.