CAPÍTULO 4 - RUÍNAS

1170 Words
JASMIM DIAZ — ON Saí da diretoria com o tornozelo latejando, mas a raiva era maior que a dor. Na entrada do colégio, avistei dois vultos familiares. Eram os meus seguranças. — Boa noite. O senhor Marcelo mandou a gente vir e viemos o mais rápido possível — Júlio, meu irmão falou profissional como sempre, encarando o professor Rodrigo que ainda me apoiava pela cintura enquanto eu segurava seu ombro. — Boa noite, rapazes. Eu vim de moto, mas não vou conseguir voltar pilotando. Acabei derrubando ela no meu pé na agonia de chegar. Júlio, me leve no carro. Paulo, você volta com a minha moto, por favor — ordenei, entregando a chave. Júlio prontamente estendeu a mão para me ajudar. Despedi-me do professor Rodrigo com um aceno grato e fui mancando até o carro. Enquanto o Paulo levantava minha moto, Júlio me acomodou no banco de trás com um cuidado de irmão. No trajeto, o silêncio dele era pesado; ele sabia que quando eu ficava quieta daquele jeito, o mundo estava prestes a mudar de eixo. Aproveitei o percurso para pegar o celular. Mandei uma mensagem direta para o meu setor de "gerenciamento de crises" — o eufemismo que eu usava para quem resolvia encrencas pesadas. Fui clara: queria aquele diretor fora da escola e proibido de exercer a função por um bom tempo. Ninguém mexe com o meu filho e sai sorrindo. Chegamos em casa e Júlio me ajudou a entrar. Na cozinha, a cena era mais leve: Marcelo e Felipe brincavam, tentando dissipar o trauma da tarde. — Mamãe, você demorou! — Felipe correu para me abraçar assim que me viu. — Desculpe, filho. Estava conversando com o professor. O que acha de jantarmos? Sua mamãe está morrendo de fome — falei, beijando o topo da cabeça dele. Acenei para o Júlio, que se despediu para assumir o posto de ronda noturna, vigiando os muros da mansão. Jantamos entre risos forçados e histórias para distrair o Felipe. Assim que ele terminou, dona Rose o levou para o banho e para dormir. Foi o tempo exato que eu precisei para abrir o notebook e fazer o que eu já deveria ter feito: mudei a data do nosso voo para amanhã mesmo. O preço estava lá no alto por ser em cima da hora, mas dinheiro é papel; minha paz não tem preço. Arrumei uma mala pequena para o meu pequeno, focando no essencial. Íamos sair depois do almoço. Eu estava fechando o zíper quando o som de gritaria atravessou as janelas de vidro duplo da mansão. Fui para o lado de fora, mancando um pouco menos, e cruzei os braços ao ver a cena no portão: minha mãe e minha tia berravam com o Marcelo. — Que gritaria é essa na porta da minha casa? — perguntei, minha voz saindo como um chicote. — Esse imprestável não quer liberar nossa entrada! Disse que estou proibida de entrar na casa da minha própria filha! — minha mãe exclamou, com um sorriso cínico, apontando para o Marcelo. — Pode entrar, Marcelo. O dia já foi longo demais, deixe que eu resolvo. Me espere no escritório, precisamos conversar — falei, ignorando o brilho vitorioso no olhar dela. Marcelo apenas assentiu e entrou. — Você deveria demitir ele — minha tia soltou, tentando empurrar o portão. — Não fale besteira. Quanto a vocês duas, não temos nada para conversar. Eu dei a ordem. Não sei como passaram pelo porteiro do condomínio, mas se não querem mais problemas, sugiro que vão embora agora — disparei, sentindo o cansaço pesar nos meus ombros. — Você está louca? Que palhaçada é essa? — minha mãe cruzou os braços, o sorriso sumindo. — Não é brincadeira. Vieram atrás de dinheiro, certo? Quanto querem desta vez? — perguntei, curta e grossa. Minha tia sorriu, trocando um olhar cúmplice com a minha mãe. — Abra para conversarmos, Jasmim. Isso não é conversa de se ter na rua. — Não vou abrir. Já disse que estão proibidas. Ou falam o valor, ou chamo a segurança do condomínio para retirar vocês duas à força. Minha mãe me encarou com aquele desprezo que eu conhecia desde a infância. — Pelo visto o dinheiro subiu à cabeça. Queremos quinhentos mil. Para cada uma — ela completou, como se pedisse um copo de água. Um milhão de reais. Elas achavam que meu trabalho era uma fonte inesgotável para bancar a vadiagem delas. — Mandarei. E façam o favor de sumir da minha porta. Não voltem mais.— falei, dando as costas e entrando. Aquela seria a última vez. Eu ia cortar a fonte de vez assim que pisasse em Nova York. Fui direto para o escritório, onde Rose e Marcelo me esperavam. Rose me entregou uma xícara de café, preocupada com a minha palidez. — O dia foi intenso — suspirei, sentando na minha poltrona. — Acredita que elas me pediram um milhão para as duas? — Gostam de abusar da sua boa vontade — Rose resmungou, chocada. — Ver se arrumam um trabalho ou um investimento que preste! — Pois não vou mandar nada. Hoje se encerra essa mordomia — anunciei, virando o notebook para eles. Mostrei a pesquisa do colégio em NY que o Fabrízio enviou. — É uma escola em Nova York. Fabrízio me indicou. É em tempo integral, premiada, dirigida por freiras. Quero que deem uma olhada. — Vocês vão embora? — Rose perguntou, os olhos já marejados. — Amanhã. Preciso resolver coisas na empresa lá e vou levar o Felipe para conhecer. Olhem os dormitórios... parece um palácio. Cada criança tem seu quarto, banheiro luxuoso. É o topo do mundo em educação. — Parece colégio de gente muito rica — Marcelo comentou, impressionado com a modernidade das telas e das salas de atividades. — Talvez ele goste. Não parece um internato comum. Levantei-me e puxei os dois para um abraço apertado. Rose começou a chorar, me apertando como se eu ainda fosse a menina assustada de anos atrás. — Não fiquem tristes. A casa continua sendo de vocês. O Júlio continua cuidando de tudo aqui enquanto termina a faculdade. Vocês são minha família, nada muda isso. Júlio, o filho deles, era como um irmão para mim. Alto, forte, dedicado. Rose sempre tentou nos juntar no passado, mas hoje ela entende que somos carne e unha de outro jeito. Ele é o braço direito que garante que eu possa dormir tranquila. — Você promete que volta? — Rose perguntou entre soluços. — Claro que volto, mulher! Para de chorar, senão eu começo também — rimos, num abraço coletivo. Eles decidiram dormir na mansão aquela noite. Fui para o meu quarto após as 23h. Antes de deitar, disparei mensagens para todas as minhas empresas comunicando minha ausência e ida aos EUA. Tomei um banho demorado, passei pomada no tornozelo e me juntei ao Felipe na cama. O plano estava traçado. Nova York nos esperava, e o passado... o passado ficaria preso atrás do portão que eu finalmente aprendi a trancar.
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