Um Homem Que Precisa de Conselhos

2351 Words
Um dos funcionários da clínica trouxe seu resultado pelo fim daquela tarde. O Kim observava o envelope largado em sua mesa, se perguntando em que momento o abriria. Parte de si acreditava que tudo aquilo não passava de uma falha tentativa de lhe arrancarem dinheiro, enquanto a outra parte não conseguia esquecer as feições tão iguais no rosto daquele garoto. Mas que merda! Ele não tirava o rosto daquele garoto de sua cabeça! — E então? — ChanYeol surgiu pela porta dupla, ocupando a cadeira à sua frente — Qual o resultado? — Ainda não olhei. ChanYeol o encarou por alguns segundos esperando que o amigo abrisse o envelope logo de uma vez, algo que não aconteceu. Impaciente, o Park o pegou. — Posso abrir? — Faça o que quiser. Jongin fingia não estar ligando, mas ainda olhava para ChanYeol com o canto do olho. O Park abria o envelope bem devagar, sabendo que o homem à sua frente estava sim curioso demais quanto aquilo. ChanYeol cantarolava uma canção enquanto procurava por onde estaria escrito o resultado, soltando um baixo “oh” quando o achou. Baixou o papel e olhou para o Kim com um ar de riso, logo depois voltou para o papel e repetiu o processo mais algumas vezes, deixando o mais novo louco com aquilo. — Pare de merda, ChanYeol, o que deu aí? O ruivo estalou a língua, pronto para cantar vitória. — Parabéns, papai. O Kim puxou o papel com força das mãos do amigo, quase o rasgando, passando seus olhos rapidamente sobre o mesmo, lendo o resultado diversas vezes como se ainda não pudesse acreditar no que ali estava escrito. Largou-o sobre a mesa e deixou seus dedos se enfiarem em seus cabelos, suspirou pesadamente e jogou seu corpo para trás na cadeira. Sua vontade era de gritar com todo mundo que viesse a respirar perto dele naquele momento. — Isso não tá acontecendo. — disse para si mesmo. — Fica calmo e seja racional. — foi o melhor conselho que o Park pôde dar naquele momento. Jongin pôs as mãos na testa e respirou fundo por alguns segundos tentando manter-se calmo. Olhou para o relógio e viu que logo anoiteceria, provavelmente a maioria dos funcionários já estariam indo embora. Olhou para o calendário e viu que ainda era terça-feira. Olhou para um ponto qualquer da sala, fechou os olhos e os abriu. Se ergueu da cadeira e pegou seu casaco. — O que vai fazer? — Resolver esse problema. E foi naquele segundo que ChanYeol notou o quanto seria difícil que Jongin se acostumasse com a ideia de que tem um filho agora, e que um filho não era um “problema” a ser resolvido. Ele ainda tinha muito o que aprender sobre a vida e certamente esse aprendizado não seria nada fácil. Atravessou dois sinais vermelhos fazendo aquele trajeto, a cabeça do Kim estava um caos e ele só queria resolver aquilo de uma vez por todas. Sequer prestou atenção se havia trancado o carro ou não, quase errou de porta e bateu com tanta força que quase a derrubou. Ficou em silêncio ouvindo os passos apressados de alguém, alargou os olhos assim que a porta se abriu e o garoto o encarou com os olhos curiosos. — Onde está seu omma? Poucos segundos depois Kyungsoo surgiu atrás dele, abrindo mais a porta para que o alfa entrasse. Os dois ficaram se encarando por alguns segundos. — Mingyu vá para o seu quarto. — Kyungsoo pediu e o garoto não discutiu, foi para o quarto — E então, o resultado já saiu? Jongin pareceu ainda mais inquieto, não era nada fácil admitir que o ômega estava certo o tempo todo e ele só estava dando uma de teimoso. — Vamos acabar logo com isso, ômega, o que você quer? Cada segundo perto de Jongin era desagradável, parecia que tudo o que saía de sua boca só conseguia ser ofensivo, tudo nele deixava Kyungsoo irritado, aquele tom de superioridade o enlouquecia e a vontade que tinha era de dizer sérias verdades em sua cara. Respirou fundo, precisava se manter calmo para reivindicar os direitos de seu filho, aquela criança já havia sofrido demais e merecia ter uma vida melhor agora, mesmo que viesse a ser proporcionada por alguém que parecia não sentir absolutamente nada por ele. — Quero um apartamento num condomínio seguro e certa quantia de dinheiro por mês. — respondeu convicto, naquele momento o alfa não podia lhe negar nada, sabia muito bem que em qualquer sinal de protesto do mesmo poderia ameaçar fazer um escândalo e isso era tudo o que Jongin menos queria. — Tudo bem. — era obvio que o alfa esperava que ele fosse pedir bem mais do que isso, ficara até mesmo surpreso com a pouca exigência do mesmo. Lhe estendera seu celular — Anote aqui o seu número, e-mail e conta bancária, meu advogado vai entrar em contato com você para discutir o valor da pensão. Tem mais alguma exigência? — Por enquanto não.  O alfa assentiu e deixou a casa do menor, sua boca amargava ainda se acostumando com tudo aquilo, mas o que mais o perturbava eram aqueles malditos olhos que não saíam de sua cabeça, ele não conseguia parar de pensar naquele garoto. Foi para casa, se tranco em seu escritório e preferindo ficar sozinho para tentar reorganizar seus pensamentos, rever algumas coisas e quem sabe deixar a ficha cair e entender de uma vez por todas de que tinha um filho. Não! Aquilo não podia estar acontecendo, não eram seus planos, aquele menino não estava programado para existir e para Jongin ele não passava de um erro. Era isso que Do Mingyu era, um erro do passado que deveria ser apenas ignorado e era isso que ele faria, manteria aquela criança longe da sua vida.     [...]     Aquela sensação de incômodo não passava, mas o Kim tentava a todo custo não pensar naquele problema, em sua cabeça, enquanto o ômega não precisasse de mais dinheiro, ele estaria em paz e sem mais problemas, certamente não seria tão difícil esconder aquela história de sua família. Sabia que sua paz estava arruinada no momento em que ChanYeol apareceu na sala, sem nenhum motivo aparente, apenas para o incomodar. — E então, como foram as coisas com o seu filho? Aparentemente o “seu filho” lhe dava arrepios na espinha. — Problema resolvido. — Como assim “problema resolvido”? — o Park franziu o cenho, fazendo uma cara de terror logo em seguida — Você matou o garoto e as testemunhas? Jongin ainda não sabia o motivo de ainda não ter demitido ChanYeol. — Você bebeu alguma coisa antes de vir pra cá? — o Kim se encontrava sem reação diante da pergunta do amigo, que o olhava como se ele realmente fosse capaz de fazer isso — Eu dei ao ômega o que ele queria e em troca espero que ele não me incomode mais. O Park parecia estar decepcionado, ele conhecia Jongin muito bem e sabia exatamente que tipo de pessoa ele era, mas em alguns momentos o seu egoísmo chegava a surpreendê-lo, ele não conseguia entender como alguém conseguia ser tão apático com o próprio filho, agindo como se aquela criança, que deveria ser um lindo presente, fosse algo r**m a ser evitado. Kim Jongin precisava urgentemente de alguém que o trouxesse para a realidade, pois o mundo não girava daquele jeito. — Jongin nós estamos do seu filho, não de uma batida de carro! — Estaria bem mais feliz se fosse uma batida de carro. — respondeu, aparentemente já estava perdendo a paciência. ChanYeol ficou ainda surpreso, ergueu-se da cadeira e bateu com força sobre a mesa. — Você não pode agir assim, Jongin! — explodiu, por ser pai de um garoto alfa, ChanYeol sabia exatamente do que um garoto alfa precisa da presença do pai, do que haveriam momentos na vida daquele menino em que ele precisaria de um pai alfa para lhe explicar tudo. Mingyu precisava de Jongin, mesmo que ele não quisesse isso — Seu filho precisa de você. — Eu posso e vou. O Park estava ainda mais afoito, sua vontade era de bater com força na cabeça do alfa mais novo para ver se entrava algum juízo ali. Ficou de costas para ele enquanto pensava no que quiser, qualquer coisa que fizesse o Kim ter um mínimo de consciência, mas nada do que ele pensava parecia adiantar. — Tudo bem, faça o que você quiser, mas você não sabe o quão egoísta você está se tornando. Depois disto ele foi embora, deixando o Kim com aquela frase ecoando em sua cabeça. Mais tarde ele foi pra casa, a cabeça ainda fervia pela forma com que ChanYeol falou consigo, nunca vira seu amigo agir com ele daquela forma, mesmo que não tenha sido a primeira que o Park o repreendeu por algo, aquela havia sido a mais afoita, era como se ele não pudesse acreditar no que estava acontecendo. Jongin era tão r**m assim? Em sua cabeça nada daquilo fazia sentido, ele não era obrigado a simplesmente aceitar que Mingyu entrasse em sua vida, ninguém é obrigado a amar ninguém. Mas e se não fosse isso que ChanYeol quisesse dizer? Ele estava confuso e precisava esfriar a cabeça, colocar as coisas no lugar. Ao chegar em casa foi direto tomar um banho, vestiu uma roupa mais folgada e foi para a cozinha, onde acabou se assustando pela presença silenciosa de Bom, que bebericava um chá enquanto comia uma torrada. — Ah, olá, querido, chegou mais cedo hoje. — ela comentou enquanto apoiava a xícara sobre o balcão — Está com fome? O jantar está quase pronto. Bom era a voz da razão na vida de Jongin, a mesma era sua babá quando criança e o acompanhou durante toda a sua vida, até mesmo quando saiu de casa, o alfa pediu para que a mesma o acompanhasse, desde então Bom cuida do apartamento em que Jongin vive, ela praticamente cuida de sua vida por completo, quase como se fosse sua própria mãe, a mesma nunca veio a se casar ou ter filhos, sendo assim ela o considerava como seu filho. — Não estou com fome. — a respondeu calmo, era provável que Bom fosse a única pessoa no mundo que o Kim fosse 100% gentil e dócil, nunca levantando a voz pra ela ou discordando de algo. A beta entendia e sabia o significado de todas as ações do mais novo, não havia nada no mundo que Jongin conseguisse esconder dela. Por isso, quando o moreno ocupou a cadeira da cozinha e alcançou uma das xícaras, enchendo a mesma com café, ela sabia que havia algo errado. Jongin nunca tomava café. — O que aconteceu, querido? Jongin ficou em silêncio por alguns segundos, pensava. — Você... acha que sou egoísta? A mulher ocupou a cadeira da frente, franziu o cenho aparentemente preocupada, uma vez o jovem Kim já havia lhe perguntado a mesma coisa, mas estava bêbado demais para ser levado a sério. Ela o olhou com ternura e segurou sua mão. — Você sabe que todos temos os nossos defeitos, mas pra mim você sempre foi um bom rapaz. — Mas aparentemente eu não sou assim com todas as pessoas. — confessou. Respirou fundo se perguntando se poderia abrir o jogo logo de uma vez, a verdade era que ele precisava mais do que nunca de um bom conselho, alguém que pudesse lhe dizer o que fazer sem ser levado por emoções — Bom, eu tenho um filho, acabei de descobrir isso, ele se chama Mingyu, tem 7 anos e é um alfa. Bom pareceu ter ficado surpresa, abrindo a boca diversas vezes enquanto ainda pensava no que dizer. — Bem, você me pegou de surpresa. — Eu não estava preparado pra isso, não consigo me acostumar com essa ideia. — confessou — Eu já tinha tudo planejado e de repente esse ômega me aparece com uma criança e vira tudo do avesso, não consigo aceitar que as coisas estejam assim. A mulher segurou as duas mãos do alfa. — Querido, eu sei que você planeja sua vida dede que saiu da faculdade, mas a vida é cheia de surpresas e nós precisamos lidar com elas. — ela foi doce em tudo o que dizia — E um filho é um presente de Deus. — Eu não consigo enxergar dessa maneira. Ela suspirou, conhecia Jongin demais para saber o quanto ele estava frustrado e com raiva daquilo, sabia de todos os seus defeitos, por mais que eles nunca tenham se aplicado a ela. Ficou de pé passando para as costas do Kim, alisando seus cabelos em um cafuné, ela sempre fazia isso quando precisava fazer com que Jongin entendesse algo difícil para ele. — Por que não tenta se aproximar e conhecer o seu filho? — sugeriu, já sabendo que de nada adiantaria. — Não quero me envolver dessa maneira, e também acho que o ômega não me quer por perto. — É seu direito se aproximar do seu filho. — Mas eu não quero. Ela suspirou novamente, ele era mesmo muito teimoso, praticamente como um adolescente mimado. Sempre fora. — Tudo bem, mas e se por enquanto você só tentasse dar uma assistência. — ela rodeou tentando argumentar de alguma maneira — Mesmo que não queira se envolver emocionalmente, você pode se envolver de outras maneiras. — Como? — Bem, Mingyu precisa de uma boa educação, por que não coloca ele em uma escola melhor? O Kim pareceu pensar, não era de tudo r**m, quer dizer, ele ajudaria de alguma forma e não se envolveria tanto, talvez aquilo ajudasse a diminuir o peso inconsciente que se formava em sua cabeça, por mais que ele ainda não entendesse o que era aquilo. Se envolver indiretamente não parecia ser uma má ideia. — Você está certa, vou procurar uma boa escola para o Mingyu. Depois daquilo a mulher beijou seus cabelos e voltou para terminar o jantar. Jongin ainda pensou naquilo a noite toda.
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