Três semanas que Jongin levava seu filho todos os dias pra escola, já estava ficando tão acostumado com aquilo, que nos fins de semana acabava acordando no mesmo horário. Naquela quarta-feira não foi diferente, levou Mingyu para a escola e foi busca-lo no mesmo horário. O garoto vinha saltitando e com a pequena agenda do Banguela em mãos, entrou no carro e antes mesmo do Kim dar a partida, lhe estendeu o pequeno caderno.
Não sabia ao certo quando aquilo havia começado, só sabia que Mingyu sempre lhe mostrava tudo o que os professores anotavam em sua agenda.
— O que temos hoje? — ele lhe perguntou enquanto folheava até a última folha riscada — Mais um livro? Essa escola tá acabando comigo.
O pequeno alfa não entendia o que ele queria dizer com aquelas reclamações, ele nem sequer sabia que alguém precisava pagar para ele estudar ali, muito menos que quem pagava tudo era aquele alfa. Jongin deixou a agenda em seu colo enquanto dirigia até a livraria mais próxima. E quando a encontrou, desceu sendo acompanhado pelo menino, que já se agarrava à barra de seu sobretudo.
O atual sonho de Mingyu era ter um sobretudo, amarelo inclusive.
Foi direto para o balcão, onde uma moça muito sorridente o atendeu.
— Bom dia. — a cumprimentou enquanto lhe estendia a agenda com o nome do livro escrito — Eu preciso desse livro aqui.
— Só um minuto, senhor. — ela saiu para procura-lo, enquanto o Kim passou a observar tudo pela loja.
Não era muito grande, mas haviam livros sobre tudo. Mingyu fazia o mesmo, mas na sessão infantil, olhando só pras capas coloridas e bonitinhas. Mas houve um livro em questão que chamou muito a sua atenção, o mesmo continha uma capa verde cheia de balões com pensamentos e a seguinte frase em destaque “Aceitando a Vida como Ela é”, de um autor japonês que até então não conhecia. Pegou o tal livro em mãos e passou a folheá-lo, não era muito grande nem tão pequeno e os títulos dos capítulos pareciam bem interessantes.
— Esse livro tem sido muito vendido. — a moça do balcão surgiu em suas costas repentinamente, já estava com o livro que havia pedido em mãos — Os clientes afirmam que mudaram de vida.
Jongin balançou a cabeça, parte de si estava relutante quanto a comprar um livro de autoajuda. Faria algum m*l? Certamente que não.
— Vocês têm livros sobre paternidade? — se estava na chuva, era pra se molhar.
A moça sumiu por alguns instantes e logo depois surgiu com alguns exemplares. No fim das contas ele acabou levando três livros, o que Mingyu precisava, o de autoajuda e um sobre paternidade. Os dois voltaram pro carro e Jongin mandou que Mingyu guardasse seu livro na mochila e mostrasse para Kyungsoo quando chegasse em casa.
Deixou o menino em casa e foi almoçar em algum restaurante próximo da empresa.
[...]
— Tá lendo um livro de autoajuda?
A voz de ChanYeol ecoou pela sala fazendo com que o mesmo fechasse seu livro e encarasse o Park com uma expressão irritada. Era impressionante como Park ChanYeol passava mais tempo passeando pela empresa do que trabalhando, hora ou outra aparecia por sua sala, sempre para fazer alguma fofoca sobre qualquer assunto aleatório. Mas agora o ruivo só tinha um único assunto:
Kim Do Mingyu.
— Não é da sua conta, Park. — respondeu com tédio na voz, guardando seu livro na gaveta e voltando ao seu trabalho, coisa que já havia deixado atrasar por ter passado metade da tarde lendo o tal livro — O que quer aqui? Que eu saiba, eu pago você pra ser meu gerente de produção e não fiscal do que eu tô fazendo.
— Calma! — ChanYeol ergueu as mãos se rendendo — Eu só vim te fazer um convite.
— Convite pra quê?
— Sábado é o aniversário do meu filho. — Naquela frase Jongin já viu que não daria certo, não havia nada que um alfa solteiro detestasse mais do que uma festa infantil — E eu quero que você vá, tem mais, leve o Mingyu.
— De jeito nenhum.
Expor Mingyu para os seus amigos? Não, isso andava longe de serem os seus planos, era óbvio que se levasse o garoto com ele, precisaria de uma boa desculpa. ChanYeol só podia estar ficando louco, estava na cara que isso não daria certo.
— Qual é? Ele vai gostar e não precisa dizer que é seu filho.
— Eu vou pensar nisso.
Só havia dito aquilo pra fugir do assunto, ele não levaria Mingyu para o aniversário de Seokmin, de jeito nenhum. Mas guardou o convite no bolso, talvez fosse, mas sozinho. ChanYeol não foi embora, ficou por lá matando o tempo como o grande desocupado que ele era e nem adiantava ficar o expulsando.
Seu telefone começou o tocar, o nome de Kyungsoo brilhava na tela. Uma ligação de Kyungsoo no meio da tarde não poderia significar algo bom. Quando atendeu, só ouviu o grito do outro lado da linha:
— Venha aqui, agora!
E ele logo desligou, não deu tempo de dizer nada.
Estranhou muito aquilo, mas o que iria fazer? Se ele estava ligando e gritando irritado daquela maneira, alguma coisa havia acontecido para deixa-lo com tanta raiva. Vestiu seu sobretudo e deixou ChanYeol para trás dentro de sua sala, o ruivo ainda ficou perguntando o que havia acontecido, mas ele não se deu ao trabalho de responder o que nem ele próprio sabia.
Dirigiu rápido até o prédio em que eles moravam, subindo pelo elevador e por fim tocando a campainha. Kyungsoo já atendeu com uma péssima expressão no rosto.
— O que aconteceu? — perguntou olhando para todos os lados e encontrando Mingyu com uma carinha de culpado.
— Fala pra ele o que aconteceu, Mingyu!
O pequeno alfa balançava seu corpinho, o rostinho triste e as mãos para trás. Olhava para Kyungsoo e depois para Jongin, uma carinha de culpa, de quem havia sido pego com a mão na botija.
— Eu tô com dor de dente. — por fim, confessou, a voz baixinha.
— E por que, Mingyu?
— Porque o tio Jongin compra doces pra mim todos os dias.
Kyungsoo pôs a mão na cintura e passou a encarar o Kim com uma expressão indignada. Jongin em sua defesa levantou os braços se rendendo e assumindo a culpa.
— É por isso que ele gosta tanto de ir pro reforço. — soltou, estava se segurando para não começar a estapear o alfa à sua frente — Nós vamos ao dentista e você vai parar de dar doces ao Mingyu! — passou a andar pela casa, pegando seu casaco que estava sobre o sofá — E você, pequeno culpado, vai ficar de castigo pelo resto da semana!
Os três desceram pelo elevador. Kyungsoo estava tão irritado que nem disfarçava, Jongin estava calmo como sempre e Mingyu com cara de choro. O pequeno alfa estava morrendo de medo de ir ao dentista, mas preferia não dizer nada para não deixar seu omma ainda mais irritado. Mingyu nunca havia tido uma cárie, nunca havia sentido dor de dente, pelo contrário, seus dentes sempre foram perfeitos e bastou três semanas para que Jongin estragasse isso.
Um ponto a menos para o alfa.
Pelo menos agora ele sabia que não podia mais comprar pirulito para seu filho todos os dias, iria trocar por alguma coisa que fosse mais saudável, ou quem sabe começasse a incentivá-lo a comer frutas. Pensaria em algo para incentiva-lo depois.
Quando chegaram na clínica, o Kim foi rapidamente fazer a ficha do menor junto com Kyungsoo, enquanto Mingyu ficou sentado esperando sozinho. Não haviam muitas pessoas para serem atendidas, então ele entrou cerca de vinte minutos depois. Entrou com Jongin, coisa que Kyungsoo não gostou nada, havia ficado com ciúmes quando o pequeno preferiu segurar na mão do pai e ir com ele, mas não disse nada.
O pequeno alfa sentou-se na cadeira do dentista.
— Tio, eu tô com medo. — confessou assim sentou, se recusando a se deitar — Vamos pra casa!
— Sinto muito, Mingyu. — respondeu, mesmo que estivesse com pena do garoto — Nós dois erramos e alguém precisa pagar o preço.
— Por que tem que ser eu?
— Porque a cárie está na sua boca.
O garotinho parecia inconformado, seu rostinho estava bem triste. O dentista entrou na sala aumentando ainda mais o seu medo.
— Vamos lá, garotão? — o dentista parecia bem animado e dentistas animados deixavam Mingyu ainda mais nervoso.
— Vamos não!
Ele tentou se levantar da cadeira, mas Jongin acabou o impedindo e o sentado lá novamente, empurrando seu peito para que deitasse. Mingyu trancou a boca e fez um “não” com a cabeça. Jongin se viu pela primeira vez com um problema “de pai” para resolver, o pequeno alfa parecia convicto a se negar a abrir a boca. O alfa mais velho segurou sua mão e ficou mais perto dele.
— Eu vou segurar sua mão. — o Kim disse — Não vai doer nada, eu prometo, e se você for um bom garoto nós vamos ao playground depois.
Mingyu pareceu pensar um pouco, e depois de alguns segundos resolveu abrir a boca. Jongin pareceu aliviado, foi naquele momento que viu que as coisas não eram tão fáceis assim, e se quisesse realmente ser pai na vida de Mingyu, ele teria que enfrentar muitos desafios, ter um filho era complicado, crianças eram complicadas e teimosas, podendo mudar de comportamento de uma hora para a outra.
O doce Mingyu tinha um medo absurdo de dentista, isso ele acabara de aprender.
Depois de alguns minutos o dentista o liberou, informando que ele precisava escovar melhor os dentes, pois alguns estavam começando a ficar amarelados, recomendou também uma pasta de dente mais apropriada. Jongin anotou tudo mentalmente e saiu da sala com o teimoso e agora mais satisfeito, Mingyu.
Kyungsoo esperava do lado de fora, ficou de pé assim que os viu.
— Playground, playground! — Mingyu comemorava assim que os dois saíram da sala, o menino vinha muito animado.
— Playground? — Kyungsoo indagou sem saber o que estava acontecendo.
Jongin viu que seria um provável problema.
— Eu prometi pra ele que iriamos se ele deixasse o dentista olhar o dente dele. — o alfa explicou, a expressão do ômega não era nada boa.
— Mas e a aula de reforço?
— Ainda temos um tempinho. — olhou para o relógio constatando que ainda não eram nem 15h — Por favor.
Foi a primeira vez que Kyungsoo viu Jongin com uma expressão diferente. Era estranho demais, ele parecia implorar com aquele olhar, tudo na tentativa de deixar Mingyu feliz. Sentiu algo estranho dentro de si, que não sabia se era bom ou r**m, só sabia que o jeito que Jongin pedia as coisas, tornava difícil de negar.
— Tudo bem, mas depois, aula!
O pequeno alfa saiu comemorando, quase pulando pela clínica. Os três entraram no carro e Jongin procurou no mapa algum playground que fosse perto, não era como se tivesse o costume de frequentar lugares assim.
Estava um pouco arrependido de ter ido, havia crianças correndo para todos os lados e assim que os três pisaram no lugar, Mingyu sumiu na velocidade da luz, provavelmente só o encontrariam se ele próprio viesse até eles. O que piorava tudo era que praticamente todos os garotos que ali estavam usando o mesmo corte de cabelo. Sem ter o que fazer e tento quase uma hora pela frente, o casal se sentou próximo à lanchonete, mas não estavam com cara de quem iria conversar.
Foi um silêncio total pelos primeiros minutos, eles nem se olhavam. Era óbvio que aquilo incomodava, Mingyu era o único motivo que fazia com que ambos ficassem perto um do outro e aquilo certamente não era bom. Mas o que fariam? Perguntariam sobre o tempo? O silêncio de Kyungsoo e o jeito com que o evitava já dizia tudo “ele ainda o via com maus olhos”.
16h48min. Precisavam ir, se demorassem mais, Mingyu se atrasaria muito para a aula de reforço. Mas onde ele estava?
— Precisamos procurar ele. — Jongin disse.
— Ele tá bem ali. — Kyungsoo apontou para o garoto de casaco azul que pulava no pula-pula — Francamente, Jongin, você não decorou a cara do seu próprio filho?
— É claro que eu sei como ele é! — ele rebateu, estava usando o mesmo tom agoniado do ômega — Eu só não enxergo de longe.
— Use óculos, então.
— Eu uso óculos, só não o tempo todo. — revelou.
A boca de Kyungsoo se abriu em um epifania.
— Você tá levando meu filho pra escola todos os dias sem enxergar o caminho? — perguntou já sabendo a resposta, todas as vezes que Jongin aparecia ele estava sem óculos — Você é maluco ou o quê?
O alfa suspirou, as pessoas já estavam começando a olhar os dois discutindo. Deixou Kyungsoo falando sozinho e foi até Mingyu, parando ao lado do pula-pula e esperando que o garoto fosse até ele. Entendendo que já estava na hora e sabendo que já havia aprontado demais por um dia, ele não protestou, esticou seus braços para o Kim, esperando que o mesmo que o mesmo o tirasse de dentro do brinquedo.
Agarrou com força o pescoço do maior, se recusando a ir para o chão.
— Eu gosto muito de você, tio Jongin!