III. Nada Ficará Bem

1263 Words
Padre Miguel, Rio de Janeiro Após o bom momento que dei no meu projeto de camarim, fomos a um pagode e depois fomos para sua casa. Acordando com uma dor de cabeça terrível, só queria que o mundo parasse de girar. O quarto cheirava a sëxo e maconha. Eu estava bem enjoada e o cheiro só piorava meu estado. Na mesa de cabeceira, o traste deixou um bilhete. “Tive uma urgência… não sei que horas volto… deixei seu cachê na sua bolsa e mais um trocadinho para você ir ao salão ou você vê o que faz. Te amo, minha linda. Se der, curtimos essa noite de sexta juntos.” Ele até era um fofo nos bilhetes — pena que não tinha reparo. Se o mundo ajudasse, terminaria meu tormento logo. A casa dele estava no conjunto de maiores casas do morro com todo tipo de luxo imaginável. Basta saber disso para entender o quanto ele estava envolvido com o movimento. Odiava estar envolvida com ele por muitos motivos, mas era complexo considerar deixá-lo. Era meu primeiro namorado, só consegui sobreviver a adolescência por ele e ele sabia bem o que falar para eu me sentir culpada em querer terminar. Segui ao banho e me arrumei para descer o morro. De volta a vida de gata-borralheira, consegui chegar bem cedo para acordar Matheus, meu sobrinho, quase filho, para ir ao colégio. Ele tinha oito, filho do meu irmão mais velho. Minha mãe dormia em seu quarto; verifiquei se ela estava bem, medi pressão, chequei a glicose, tudo bem estável. — Sofia… deixe sua mãe dormir! — reclamou sonolenta. — Desculpa, ina… como se sente? — Agora, com sono, menina! — riu. Ela já tinha setenta e a saúde estava bem debilitada, mais um motivo para trabalhar fora ser complexo… a preocupação. Maria Aurora era bem guerreira, minha eterna amiga. Cresceu nas Filipinas sendo traficada quando jovem e só conseguiu a liberdade de tal situação aos trinta. Àquela altura, os danos a sua saúde já eram muitos e, para piorar, ser livre não significa ser realmente reintegrada a sociedade — o que a manteve como prostituta por anos! Assim conheceu meu pai, assim nascemos meu irmão e eu… infelizmente, o pai não viveu por muito tempo, morto na profissão perigo e só nos deixou o barraco onde vivíamos. — Pode dormir, ina… — Beijei sua testa. — Mahal kita, anak ko! Mesmo que aquilo significasse “eu te amo, minha filha” me entristeceu por ser um dos quadros de confusão e eu podia identificá-los por seu olhar para mim, estranhando. A vida só ficava mais difícil, após todos os problemas de saúde: a diabete e a hipertensão; ela começava a ficar muito esquecida nos últimos dias e isso era preocupante. — Mahal din kita, ina! — sorri-lhe, saindo do quarto. Melancólica, voltei até o quarto de Matheus. Nossa casa era até grande com três quartos, dois banheiros, sala de estar, cozinha, área de serviço e um quintal razoável. Precisava de uma obra, mas nada grave. — É o último dia da semana, Matheus! — falei da porta. — Só mais esse dia e você dorme o quanto quiser amanhã… — Ah, mãe… me deixa! — Ele se virou na cama. Fui até a cama e puxei sua coberta. Ele dormia de cueca e começava a ter as vergonhas da adolescência, logo sentou bem rápido para tentar se esconder. Acabei rindo e isso o fez correr ao banheiro reclamando. Fui rápida ao preparar um café da manhã e o acompanhei na refeição — eu tinha tanta fome que comeria a mesa! — Daniel disse que não deve voltar hoje… — Ele me falou no almoço com tristeza no tom de voz. — Trabalho… “Droga!”, foi só o que pensei, respirando fundo. — Fica tranquilo… ele ficará bem! — sorri-lhe. — Andressa ficou reclamando por um tempão… nem perguntou como eu ‘tava — deu de ombros, suspirando. — Nessa briga dos dois, tenta não se envolver, ‘tá? Se precisar, fala comigo e fugimos para longe. — Dei a volta na mesa para beijar sua testa. — Sempre serei boa para ti. — É a melhor do mundo! — Ele sorriu largo. Terminada nossa refeição, eu segui com ele até o portão. Beijei sua testa de novo e lhe alertei para tomar cuidado e prestar atenção na aula. Revirando os olhos, ele assentiu e seguiu seu caminho até o colégio. Algo não estava tão certo no morro já que o número de soldados armados estava reduzido. Era ainda mais evidente essa ausência olhando o alto do morro. Quase me arrependi de mandar Matheus para o colégio, mas agitei a cabeça e entrei. Já era um lugar perigoso e isso não podia me impedir de enviá-lo ao colégio diariamente. A casa sempre estava bem arrumada porque ele não era bagunceiro, minha mãe não fazia bagunça nenhuma e eu sempre estava fora, trabalhando ou namorando… ou os dois. O único risco da casa ficar minimamente bagunçada seria meu irmão decidir ir em casa — o que quase não acontecia. Nem saberia dizer se era bom ou r**m, talvez, pela mãe, tê-lo longe fosse melhor, mas ele tinha filho e partia o coração ver ele e a ex-mulher se digladiando com o garoto no meio. Terminando de arrumar a casa, peguei meu último texto para anotar as reações que extraí. Não costumava mudar só por não fazer rir, mas anotava as novas ideias para testar depois. Às dez, servi a refeição da mãe na cama. Ela perguntou de Ricardo e eu narrei uma ótima noite com um príncipe encantado — jamais a faria ficar preocupada comigo. Às onze, o tiro resolveu comer. O coração não costumava ficar apertado, mas Matheus estava na rua… não tinha como não ficar preocupada com ele! Ele não tinha telefone, mas avisou estar bem do telefone de um amigo. Respondi para ele se comportar e só voltar para casa quando as coisas acalmassem. Deixei as janelas da casa recostadas e voltei à cozinha para fazer o almoço. Era sempre horrível ficar preocupada porque tudo resolvia dar errado no processo. Finalmente olhei minha bolsa e Ricardo colocou duzentos reais, além do meu cachê de cem. Isso realmente me ajudaria a respirar um pouco pela próxima semana. Só os remédios da mãe custariam metade daquilo, contando que eu não conseguiria nenhum gratuito no hospital — o que já estava se tornando comum. — Sofia… — A mãe chamou do quarto. Larguei tudo o que fazia para vê-la. — Tudo bem!? — perguntei ao chegar. Ela estava sentada e olhava para a janela. — Onde está seu irmão? Ele saiu de novo? — perguntou. — Está muito perigoso lá fora? Como deixou ele sair? — Ah, ina… — suspirei, me sentando ao seu lado. — Ele já não vem em casa há um tempo… lembra? — Que não vem, menina! — retrucou. — Veio ontem, Andressa está grávida… me pergunto se ele se ajuíza agora. — Sente fome? — Tentei mudar o assunto, suspirando. — Um pouco… estou… — Ela soluçou e os olhos encheram de lágrimas. — Com uma sensação r**m. — Calma… tudo ficará bem. — Abracei-lhe. Não, eu não acreditava que tudo ficaria bem. Nem acreditava que tudo daria certo. Já não aguentava lidar com aquela sensação de que nada que eu fizesse frutificaria em algo bom e, pior, nem podia desistir, já que meu irmão era um irresponsável. Era como se restasse para mim salvar o mundo. Aos dezenove… eu precisava salvar nosso pequeno mundo. Cruel demais!
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