O cheiro de óleo de motor e café queimado era o único constante na rotina de Lucas. Para quem olhasse de fora, ele era apenas o dono de uma oficina mecânica modesta no fim de uma rua sem saída no subúrbio. Um homem reservado, de poucas palavras, com mãos calejadas e marcas de graxa sob as unhas.
Ninguém ali imaginava que as cicatrizes no corpo de Lucas não tinham sido feitas por ferramentas, mas por estilhaços de granadas e projéteis de alto calibre.
Ele limpava as mãos num pano encardido enquanto observava o sol se pôr atrás dos galpões industriais. O relógio na parede marcou exatamente seis da tarde. Era o horário em que a sua irmã mais nova, Sofia, costumava passar na oficina depois da faculdade de direito.
Desde a morte dos pais, Sofia era tudo o que lhe restava. A única razão pela qual Lucas tinha abandonado a divisão de operações especiais do governo, apagado a sua verdadeira identidade e escolhido desaparecer no anonimato.
No entanto, naquela sexta-feira, o som do motor do carro de Sofia não veio.
Em seu lugar, o silêncio da rua foi subitamente quebrado pelo rastro ensurdecedor de dois SUVs pretos com vidros fumados. Os veículos dobraram a esquina em alta velocidade, os pneus cantando no asfalto molhado.
O instinto de Lucas, adormecido há anos, ativou-se em uma fração de segundo.
Os SUVs pararam abruptamente em frente à oficina. As portas se abriram e seis homens de terno escuro desembarcaram. Não eram assaltantes comuns. A postura tática, a forma como cercavam o perímetro e o saque limpo das armas revelavam treinamento militar de elite.
— Lucas Silva? — perguntou o homem à frente, com uma cicatriz profunda no pescoço e o olhar frio.
— A oficina está fechada — respondeu Lucas, sem alterar a voz, mantendo o corpo relaxado, mas com o peso distribuído nos pés, pronto para reagir.
— Não viemos consertar um carro — disse o sujeito, dando um passo à frente. Ele ergueu um celular e exibiu a tela.
O coração de Lucas gelou, embora sua expressão tenha se mantido de pedra. A imagem na tela mostrava Sofia sentada numa cadeira num galpão escuro, com as mãos amarradas e a boca coberta por fita adesiva.
— Quem são vocês? O que querem?
O homem com a cicatriz sorriu sem qualquer empatia.
— O seu antigo chefe manda lembranças. Ele disse que um fantasma não pode ficar escondido para sempre, especialmente quando deve algo à organização. Você tem vinte e quatro horas para entregar o disco rígido que levou no dia em que desertou. Se tentar rastrear este sinal ou chamar a polícia, a garota morre.
Sem esperar por uma resposta, o homem deu um sinal. Os invasores retornaram rapidamente para os veículos, acelerando e desaparecendo na noite urbana, deixando apenas o cheiro de borracha queimada no ar.
Lucas permaneceu imóvel por três segundos. A respiração ritmada. A mente processando cada detalhe: a marca do terno dos homens, o modelo dos veículos, o sotaque do interlocutor e, acima de tudo, o símbolo gravado no anel do líder.
Um dragão entrelaçado numa adaga. O brasão do Sindicato da Noite.
A vida pacata de mecânico tinha terminado ali.
Lucas caminhou até ao fundo da oficina, trancou as portas de aço e dirigiu-se ao depósito de ferramentas. Afastou uma prateleira pesada de ferro, revelando um fundo falso na parede de concreto. Digitou uma sequência numérica num teclado numérico oculto.
Um compartimento blindado abriu-se com um chiado pneumático.
No interior, repousava um malote tático preto que não tocava há cinco anos. Ao abri-lo, o brilho metálico de uma pistola customizada, pentes recarregados, um laptop militar criptografado e um terno sob medida refletiram a luz fraca da garagem.
Lucas pegou na arma, checou a câmara e travou-a com firmeza.
Se eles queriam o fantasma de volta, teriam o fantasma. Mas não nos termos deles.