Capítulo 06: Segredos do Rei.

1038 Words
Narrador Narrando: Adam atravessou os corredores do castelo como um homem que já havia tomado uma decisão, mesmo que ainda não soubesse qual seria o preço dela. As paredes de pedra, adornadas com estandartes antigos, pareciam observá-lo passar. Símbolos de guerras vencidas, alianças rompidas, juramentos selados com sangue. Ele conhecia aquela linguagem. Fora moldado por ela. Mas nada do que vivera nos campos de batalha se comparava à sensação estranha que ainda pulsava em seu peito. A fera. Não o ataque Não o medo. O reconhecimento. Ele cerrrou o maxilar ao subir os últimos degraus que levavam à ala real. Dois guardas se moveram imediatamente para bloquear seu caminho. — O rei não recebe a esta hora — disse um deles. Adam não diminuiu o passo. — Diga a ele que o líder dos guerreiros sentiu a fera do reino… e que ela respondeu à minha presença. O guarda hesitou. O outro empalideceu e nnenhum deles ousou impedi-lo. As portas do salão do trono se abriram com um rangido pesado. O rei estava de pé, de costas, observando o mapa estendido sobre a grande mesa de carvalho. Velas marcavam fronteiras. Algumas recém-movidas. Adam notou isso de imediato. — Está redesenhando o reino ou se preparando para perdê-lo? — perguntou, sem cerimônia. O rei não se virou de imediato. — Você ultrapassou limites esta noite, Adam. — E o senhor ultrapassou muitos outros há anos. Silêncio. Quando o rei finalmente se voltou, seu olhar não era de surpresa. Era de contenção. De alguém que esperava aquele momento, mas temia suas consequências. — A fera atacou novamente — disse o rei. — Aldeões morreram. — Não — Adam respondeu, firme. — Ela caçou. Como um lobo e não como um monstro. O rei estreitou os olhos. — Está defendendo aquilo que mata meu povo? — Estou dizendo que aquilo protege algo — rebateu Adam. — E que está presa. O ar no salão mudou. O rei avançou um passo. — O que você sentiu? Adam respirou fundo antes de responder. — Presença, dor antiga, exaustão... — Fez uma pausa. — E consciência. O rei desviou o olhar por uma fração de segundo. O suficiente. — Feras amaldiçoadas não sentem — disse ele. — Essa sentiu — Adam respondeu. — E me sentiu também. O silêncio que caiu entre eles foi pesado como chumbo. — Você não deveria ter se aproximado da torre — disse o rei, a voz mais baixa agora. — Então não deveria tê-la colocado no coração do castelo — retrucou Adam. — Nem cercado com magia que grita prisão. O rei fechou os punhos. — Há coisas que você não entende. — Então explique — Adam deu um passo à frente. — Porque o reino murmura sobre guerra. O rei se voltou bruscamente. — O quê? — As fronteiras do sul estão se movendo — Adam apontou para o mapa. — O reino de Varkhan não envia emissários há semanas. Seus espiões estão ativos. — Seu olhar endureceu. — E ainda assim, o senhor mantém a maior parte das tropas aqui, guardando uma torre. O rei ficou rígido. — Você fala demais. — Eu comando guerreiros — Adam respondeu. — E guerreiros precisam saber o que estão protegendo. O rei respirou fundo, como se cada palavra fosse arrancada à força. — Aquela criatura é a razão pela qual Varkhan nos observa — confessou. — A maldição não é apenas nossa. Adam sentiu o estômago revirar. — Então é verdade — murmurou. — Outros reinos sabem. — Sabem que há algo poderoso aqui — corrigiu o rei. — Não sabem o quê. Adam se lembrou da voz fraca do outro lado da porta. Da exaustão e do medo contido. — Eles acham que o senhor esconde uma arma! O rei não negou. — E não estão errados. A frase ecoou no salão. Adam sentiu algo dentro de si se partir. — Não... — disse, com firmeza. — O senhor não esconde uma arma. O rei o encarou, os olhos brilhando com raiva e desespero. — Você não faz ideia do que aquela maldição pode fazer. — Tenho uma ideia melhor do que o senhor imagina — Adam respondeu. — Porque ela reagiu a mim como alguém que… ainda lembra quem é. O rei empalideceu. — Você sentiu isso — sussurrou. — Maldição… — Ela não atacou — continuou Adam. — Não tentou fugir, não tentou dominar. — Sua voz ficou mais baixa. — Ela estava cansada. O rei virou-se de costas novamente. — Você não pode voltar lá. — Vou! — Adam respondeu sem hesitar. — Não ouse! — a voz do rei tremeu. — Se alguém descobrir… — Se alguém descobrir — Adam interrompeu — será porque o senhor está disposto a sacrificar sua própria filha para evitar uma guerra. O rei se virou lentamente. — Você não sabe do que fala. — Sei o suficiente — Adam sustentou o olhar. — Sei que a princesa não morreu. Sei que a torre não é uma prisão qualquer. — Seu tom se tornou perigoso. — E sei que a fera do reino atende pelo nome de Klara. O silêncio que se seguiu foi absoluto. O rei levou a mão à mesa para se apoiar. — Se tocar nela — disse, com a voz quebrada — condenará este reino. Adam deu um passo para trás, mas não em submissão. — Se continuar escondendo a verdade — respondeu — o senhor já o condenou. Ele se virou para sair. Antes que alcançasse a porta, a voz do rei o alcançou, baixa, quase suplicante: — Se Varkhan atacar… ela será a primeira a sofrer. Adam parou. — Então é melhor que o senhor decida — disse, sem se virar. — Se ela é sua arma… ou sua filha. E deixou o salão. Do lado de fora, o ar noturno parecia mais pesado. Em algum ponto do castelo, Adam sentiu de novo aquela presença. Não violenta ou monstruosa, mas viva e pela primeira vez desde que assumira o comando dos guerreiros, ele soube: A próxima guerra não seria travada apenas por terras ou poder. Mas por ela. E ele não tinha certeza de que ficaria do lado do rei.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD