Narrador Narrando:
Adam atravessou os corredores do castelo como um homem que já havia tomado uma decisão, mesmo que ainda não soubesse qual seria o preço dela.
As paredes de pedra, adornadas com estandartes antigos, pareciam observá-lo passar. Símbolos de guerras vencidas, alianças rompidas, juramentos selados com sangue. Ele conhecia aquela linguagem. Fora moldado por ela.
Mas nada do que vivera nos campos de batalha se comparava à sensação estranha que ainda pulsava em seu peito. A fera.
Não o ataque Não o medo. O reconhecimento.
Ele cerrrou o maxilar ao subir os últimos degraus que levavam à ala real. Dois guardas se moveram imediatamente para bloquear seu caminho.
— O rei não recebe a esta hora — disse um deles.
Adam não diminuiu o passo.
— Diga a ele que o líder dos guerreiros sentiu a fera do reino… e que ela respondeu à minha presença.
O guarda hesitou. O outro empalideceu e nnenhum deles ousou impedi-lo.
As portas do salão do trono se abriram com um rangido pesado. O rei estava de pé, de costas, observando o mapa estendido sobre a grande mesa de carvalho. Velas marcavam fronteiras. Algumas recém-movidas.
Adam notou isso de imediato.
— Está redesenhando o reino ou se preparando para perdê-lo? — perguntou, sem cerimônia.
O rei não se virou de imediato.
— Você ultrapassou limites esta noite, Adam.
— E o senhor ultrapassou muitos outros há anos.
Silêncio.
Quando o rei finalmente se voltou, seu olhar não era de surpresa. Era de contenção. De alguém que esperava aquele momento, mas temia suas consequências.
— A fera atacou novamente — disse o rei. — Aldeões morreram.
— Não — Adam respondeu, firme. — Ela caçou. Como um lobo e não como um monstro.
O rei estreitou os olhos.
— Está defendendo aquilo que mata meu povo?
— Estou dizendo que aquilo protege algo — rebateu Adam. — E que está presa.
O ar no salão mudou. O rei avançou um passo.
— O que você sentiu?
Adam respirou fundo antes de responder.
— Presença, dor antiga, exaustão... — Fez uma pausa. — E consciência.
O rei desviou o olhar por uma fração de segundo. O suficiente.
— Feras amaldiçoadas não sentem — disse ele.
— Essa sentiu — Adam respondeu. — E me sentiu também.
O silêncio que caiu entre eles foi pesado como chumbo.
— Você não deveria ter se aproximado da torre — disse o rei, a voz mais baixa agora.
— Então não deveria tê-la colocado no coração do castelo — retrucou Adam. — Nem cercado com magia que grita prisão.
O rei fechou os punhos.
— Há coisas que você não entende.
— Então explique — Adam deu um passo à frente. — Porque o reino murmura sobre guerra.
O rei se voltou bruscamente.
— O quê?
— As fronteiras do sul estão se movendo — Adam apontou para o mapa. — O reino de Varkhan não envia emissários há semanas. Seus espiões estão ativos. — Seu olhar endureceu. — E ainda assim, o senhor mantém a maior parte das tropas aqui, guardando uma torre.
O rei ficou rígido.
— Você fala demais.
— Eu comando guerreiros — Adam respondeu. — E guerreiros precisam saber o que estão protegendo.
O rei respirou fundo, como se cada palavra fosse arrancada à força.
— Aquela criatura é a razão pela qual Varkhan nos observa — confessou. — A maldição não é apenas nossa.
Adam sentiu o estômago revirar.
— Então é verdade — murmurou. — Outros reinos sabem.
— Sabem que há algo poderoso aqui — corrigiu o rei. — Não sabem o quê.
Adam se lembrou da voz fraca do outro lado da porta. Da exaustão e do medo contido.
— Eles acham que o senhor esconde uma arma!
O rei não negou.
— E não estão errados.
A frase ecoou no salão.
Adam sentiu algo dentro de si se partir.
— Não... — disse, com firmeza. — O senhor não esconde uma arma.
O rei o encarou, os olhos brilhando com raiva e desespero.
— Você não faz ideia do que aquela maldição pode fazer.
— Tenho uma ideia melhor do que o senhor imagina — Adam respondeu. — Porque ela reagiu a mim como alguém que… ainda lembra quem é.
O rei empalideceu.
— Você sentiu isso — sussurrou. — Maldição…
— Ela não atacou — continuou Adam. — Não tentou fugir, não tentou dominar. — Sua voz ficou mais baixa. — Ela estava cansada.
O rei virou-se de costas novamente.
— Você não pode voltar lá.
— Vou! — Adam respondeu sem hesitar.
— Não ouse! — a voz do rei tremeu. — Se alguém descobrir…
— Se alguém descobrir — Adam interrompeu — será porque o senhor está disposto a sacrificar sua própria filha para evitar uma guerra.
O rei se virou lentamente.
— Você não sabe do que fala.
— Sei o suficiente — Adam sustentou o olhar. — Sei que a princesa não morreu. Sei que a torre não é uma prisão qualquer. — Seu tom se tornou perigoso. — E sei que a fera do reino atende pelo nome de Klara.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. O rei levou a mão à mesa para se apoiar.
— Se tocar nela — disse, com a voz quebrada — condenará este reino.
Adam deu um passo para trás, mas não em submissão.
— Se continuar escondendo a verdade — respondeu — o senhor já o condenou.
Ele se virou para sair.
Antes que alcançasse a porta, a voz do rei o alcançou, baixa, quase suplicante:
— Se Varkhan atacar… ela será a primeira a sofrer.
Adam parou.
— Então é melhor que o senhor decida — disse, sem se virar. — Se ela é sua arma… ou sua filha.
E deixou o salão.
Do lado de fora, o ar noturno parecia mais pesado. Em algum ponto do castelo, Adam sentiu de novo aquela presença.
Não violenta ou monstruosa, mas viva e pela primeira vez desde que assumira o comando dos guerreiros, ele soube:
A próxima guerra não seria travada apenas por terras ou poder. Mas por ela. E ele não tinha certeza de que ficaria do lado do rei.