Isadora acordou com um som que gelou seu sangue.
A respiração da avó não vinha certa.
Era curta, falhada, como se o ar tivesse ficado pesado demais dentro do peito de Dona Alzira. Isadora se levantou num salto, o coração disparado.
— Vó… vó, olha pra mim — disse, segurando-lhe o rosto.
Os olhos da avó estavam abertos, mas o olhar perdido. A mão tremia.
— Tá… difícil… — conseguiu dizer, com esforço.
O mundo de Isadora desabou ali.
Ela correu pela casa, abriu janelas, buscou o remédio, tentou manter a calma, mas as mãos não obedeciam. O telefone caiu duas vezes antes de conseguir discar.
— Calma, minha filha — murmurou Dona Alzira, tentando tranquilizá-la mesmo sem ar.
— Não fala agora, vó, só respira… por favor — Isadora chorava, ajoelhada ao lado da cama.
O tempo parecia c***l. Cada segundo era um risco.
Isadora sabia que não conseguiria ir trabalhar. Não conseguiria sair dali. Tudo o que existia naquele momento era a vida da avó.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Márcio entrou na farmácia com uma sensação estranha no peito.
Procurou por Isadora quase sem perceber.
Mas quem estava no balcão era outra atendente.
— Boa tarde — disse ele, meio sem jeito.
— Boa tarde.
Ele ficou parado por alguns segundos, indeciso. Não queria parecer invasivo. Não queria ultrapassar limites que não existiam.
Mas algo apertava dentro dele.
— A Isadora… ela não tá hoje? — perguntou, tentando soar casual.
A atendente franziu o rosto. — Não. Ela faltou. A avó dela passou m*l esta manhã.
O coração de Márcio apertou.
— Ela… ela tá bem? — perguntou, quase num sussurro.
— Não sei dizer. Só avisaram que foi sério.
Márcio agradeceu e saiu da farmácia com a cabeça cheia. Caminhou alguns metros, parou, respirou fundo.
“Não é da sua conta”, pensou.
“Você não tem esse direito.”
Mas o corpo já tinha decidido antes da razão.
Ele voltou.
— Desculpa — disse à atendente. — Eu… eu sou amigo dela. Você sabe onde ela mora?
A mulher hesitou, mas algo na expressão dele parecia sincero demais para negar.
— Anota aí.
Márcio entrou no carro com o endereço nas mãos e um aperto no peito que não sabia explicar. Só sabia de uma coisa: precisava ir.
Quando chegou, ouviu a voz de Isadora antes mesmo de bater.
— Respira, vó… pelo amor de Deus, respira…
Ele bateu na porta, forte.
— Isadora!
Ela apareceu na porta com os olhos vermelhos, o rosto pálido.
— Márcio? — disse, confusa. — O que você tá fazendo aqui?
— Eu soube que sua avó passou m*l — respondeu rápido. — Me deixa ajudar.
Ela hesitou apenas um segundo.
— Ela tá sem ar — disse, desesperada. — Eu não sei mais o que fazer.
— Vamos levá-la pro hospital agora — disse ele, firme.
Márcio ajudou a colocar Dona Alzira no carro, segurou o oxigênio improvisado, falou com calma durante todo o caminho.
— Vai dar tudo certo, dona Alzira. A senhora não tá sozinha.
No hospital, o tempo voltou a ser c***l.
Médicos. Macas. Portas fechadas.
Isadora sentou-se na cadeira dura da sala de espera e finalmente desabou. Chorou como quem segura o mundo sozinha há anos.
Márcio sentou-se ao lado dela, sem tocar, sem invadir.
— Eu posso ir embora se você quiser — disse ele, com cuidado.
Ela balançou a cabeça, chorando. — Não… fica. Por favor.
Horas depois, o médico saiu.
— Ela vai precisar passar a noite em observação — explicou. — Foi uma crise respiratória, mas chegou a tempo.
Isadora respirou pela primeira vez naquele dia.
— Obrigada… obrigada — disse ao médico, depois olhou para Márcio. — Obrigada por tudo.
Ele deu um sorriso cansado. — Foi a escolha certa vir.
Já passava da meia-noite quando Isadora insistiu: — Você devia ir descansar.
Márcio cruzou os braços. — Não vou deixar você sozinha aqui.
Ela o olhou, emocionada. — Você nem me conhece direito…
— Conheço o suficiente — respondeu. — Sei que você faria o mesmo.
Isadora encostou a cabeça na parede, exausta.
Naquela madrugada fria, sentados em cadeiras duras, sem romance, sem promessa, algo se firmou entre eles.
Não era amor ainda.
Era presença.
E, às vezes, isso salva mais do que qualquer palavra.