Depois da porta fechada.

677 Words
Isadora acreditou que aquele era o fim. Depois da porta fechada, o silêncio voltou a ocupar a casa. Um silêncio pesado, mas necessário. Ela passou os dias seguintes tentando convencer o próprio coração de que tinha feito a coisa certa. Mesmo assim, à noite, deitada na cama, a imagem da mãe não saía da sua mente. “E se ela tiver mudado?” “E se dessa vez for diferente?” O coração de quem foi abandonado nunca aprende a desconfiar totalmente. Duas semanas depois, as batidas voltaram. Dessa vez eram mais fortes. Mais insistentes. Isadora sentiu o corpo gelar. Olhou para a avó, que percebeu o medo no rosto da neta. — Eu atendo — disse Dona Alzira, firme. Mas Isadora se levantou. — Não… deixa que eu vou. Ao abrir a porta, encontrou a mãe sentada na calçada, com uma bolsa velha ao lado e os olhos inchados de choro. — Eu não tinha pra onde ir — disse ela, antes mesmo de ser questionada. — Eu só pensei em você. O coração de Isadora apertou. — O que aconteceu? — perguntou, já sentindo a muralha interna rachar. — Tudo deu errado — respondeu a mulher, levantando-se devagar. — Eu perdi meu emprego, perdi a casa… eu só queria ficar um pouco perto de você. Dona Alzira observava em silêncio. Isadora hesitou. Cada instinto gritava perigo, mas havia algo mais alto: a esperança. A esperança infantil, antiga, que nunca morreu. — Pode ficar… por alguns dias — disse, por fim. — Mas isso não apaga o passado. A mãe chorou, abraçando-a com força. — Eu prometo que vou tentar ser melhor. Nos dias seguintes, a mulher parecia outra pessoa. Ajudava na casa, fazia comida, contava histórias do passado — histórias que Isadora nunca tinha ouvido. — Eu pensava em você o tempo todo — repetia. Isadora começou a acreditar. Começou a pensar que talvez o amor estivesse ali o tempo todo, apenas adormecido. Mas o amor verdadeiro não se esconde por anos. As noites passaram a incomodar Dona Alzira. A mãe ficava acordada até tarde, com o celular na mão, luz baixa, o rosto tenso. — O que você tanto faz nesse telefone? — perguntou a avó, certa vez. — Nada… só distração — respondeu rápido demais. Até que a verdade resolveu aparecer sozinha. Numa tarde, Isadora chegou mais cedo do trabalho e encontrou a mãe desesperada, andando de um lado para o outro. — Aconteceu alguma coisa? — perguntou. A mulher se sentou, derrotada. — Eu preciso te contar algo… antes que você descubra por outros. Isadora sentiu o estômago revirar. — Eu… eu me viciei em jogos online — confessou. — Começou como distração. Depois virou fuga. Quando vi, eu tinha perdido tudo. Dinheiro, casa… tudo. O mundo de Isadora desabou. — Então você não voltou por mim… — sussurrou. — Eu voltei porque não tinha mais ninguém — respondeu a mãe, chorando. — Mas isso não quer dizer que eu não te ame. Isadora sentiu o coração se partir em silêncio. — Você sabe o que mais dói? — disse, com a voz embargada. — Não é o vício. É você ter me feito acreditar que, dessa vez, eu era o motivo. A mãe tentou se aproximar. — Eu sou fraca, Isadora… — Não — ela interrompeu. — Você é irresponsável com sentimentos. Os meus. Dona Alzira entrou na sala, firme como sempre. — Essa casa não é abrigo para mentiras. A mulher olhou para as duas, derrotada novamente. — Eu não sei amar como vocês — murmurou. Isadora respirou fundo. As lágrimas caíam, mas sua voz estava firme. — Então não finja. Eu sobrevivi sem você antes. Vou sobreviver agora. Naquela noite, Isadora não dormiu. Sentou-se na cama, abraçada aos próprios joelhos, sentindo algo morrer dentro dela: a última esperança de ser escolhida. Ela entendeu, com dor, que algumas pessoas não abandonam só uma vez. Abandonam sempre. E, mesmo com o coração quebrado, ela fez o que aprendeu com a avó: Seguiu. Porque amar alguém não pode custar a própria dignidade.
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