Radiancias que assustam.

590 Words
Márcio percebeu que algo estava diferente antes mesmo de estacionar o carro. O trânsito estava o mesmo. A cidade também. Mas ele… ele estava leve. Entrou na imobiliária com passos mais soltos, cumprimentou o porteiro com um sorriso que não precisava ser ensaiado, respondeu aos colegas com um “bom dia” que soava sincero demais para alguém que vinha de dias tão pesados. Dona Solange observava tudo do vidro da sua sala. Quando ele passou por ela, não resistiu. — Interessante — disse, cruzando os braços. — Muito interessante. Márcio parou. — O quê? Ela o analisou dos pés à cabeça. — Você chegou cedo. Está sorrindo. E não reclamou do café da recepção. Ele riu. — Isso é crime? — Não — ela respondeu. — Mas é suspeito. Márcio balançou a cabeça, divertido. — Só estou… bem. Dona Solange sorriu com um canto da boca. — Ah… então é isso. Finalmente. — Finalmente o quê? — Finalmente alguém fez você esquecer aquela criatura — disse, sem rodeios. — E antes que você negue: eu sempre soube que você merecia ser feliz. Só estava esperando você perceber. Márcio ficou em silêncio por um segundo, depois respirou fundo. — É estranho… — confessou. — Eu não sinto o que sentia antes. Não tem peso. Não tem medo. É… tranquilo. — Amor bom não dá dor de cabeça — Solange respondeu, sarcástica. — Dá vontade de trabalhar melhor. Ele riu. — Isso explica a minha produtividade hoje. Enquanto isso, Isadora estava em casa, sentada na beira da cama, olhando para o nada… e para tudo ao mesmo tempo. O beijo vinha e voltava como um filme sem botão de pausa. O jeito cuidadoso. O calor. O sorriso depois. — Para — disse em voz alta. — Para agora. Mas não parou. No caminho para o trabalho, ela caminhava distraída, quase tropeçando na própria sombra. No ônibus, apoiou a cabeça no vidro e suspirou. — Ele vai voltar — murmurou, sem perceber. — Vai, né? Na farmácia, tentou se concentrar. Organizou prateleiras, atendeu clientes, anotou pedidos. Mas tudo parecia atravessado por um pensamento insistente. Márcio. O sorriso dele. A calma. A sensação de segurança. — Isadora — ela disse para si mesma, em tom sério — não se apaixona. Respirou fundo. — Você não aguenta outra rejeição. Mas o coração não concordou. Ela se pegou sorrindo sozinha ao lembrar da reação dele quando ela confessou nunca ter beijado ninguém. Nenhum julgamento. Nenhuma pressa. Só cuidado. — Isso é perigoso — sussurrou. Perigoso porque era bom. No escritório, Márcio assinava contratos, resolvia pendências, mas a mente voltava sempre para o mesmo lugar: o rosto de Isadora quando sorriu depois do beijo. A mistura de timidez e coragem. “Por que com ela é diferente?”, pensou. Com Cíntia, tudo sempre foi intenso demais. Barulhento demais. Cansativo demais. Com Isadora, era silêncio confortável. Presença sem cobrança. — É isso — murmurou. — Eu nunca estive apaixonado daquele jeito. E a constatação não assustou. Aqueceu. Isadora fechou a farmácia no fim do dia com o coração apertado de saudade antecipada. Olhou o celular. Nenhuma mensagem ainda. — Calma — disse a si mesma. — Ele trabalha. Mesmo assim, desejou que ele aparecesse. Que tocasse o interfone. Que dissesse “voltei”. Márcio, do outro lado da cidade, desligava o computador pensando exatamente nela. Dois pensamentos cruzavam a cidade em silêncio: “Não se apaixona.” “Talvez já seja tarde.” E entre o medo e a esperança, algo crescia. Lento. Verdadeiro. Irreversível.
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