Isadora acordou antes do despertador.
Não foi o sol, nem o barulho da rua. Foi o silêncio diferente vindo do quarto ao lado. O tipo de silêncio que quem cuida aprende a temer.
Levantou-se rápido, ainda com o corpo pesado da noite m*l dormida, e foi até a porta da avó.
— Vó…? — chamou baixo.
Dona Alzira estava acordada, sentada na cama, respirando com dificuldade.
— Desculpa te acordar, minha menina — disse, com a voz fraca.
Isadora se aproximou imediatamente, apoiando-lhe as costas com cuidado, ajustando os travesseiros como já tinha feito centenas de vezes.
— Não pede desculpa. Eu tô aqui — respondeu, firme, embora o coração estivesse apertado.
Foi até a cozinha, colocou água para ferver, separou o remédio certo, conferiu o horário duas vezes. Cada gesto era automático, aprendido na prática, no amor e na necessidade.
Enquanto esperava o chá, observou as próprias mãos tremendo levemente. Não era medo. Era cansaço acumulado.
— Hoje eu trabalho o dia todo, mas volto cedo — disse à avó, ajudando-a a tomar o remédio. — Deixo tudo organizado.
— Você não devia carregar isso sozinha — respondeu dona Alzira, segurando a mão da neta. — Você é nova…
Isadora sorriu de leve. — A senhora me carregou quando eu não tinha ninguém.
Arrumou a casa com cuidado excessivo: varreu, passou pano, deixou o almoço quase pronto, separou a roupa da avó. Tudo antes de sair. Tudo antes de existir para o mundo.
Quando fechou a porta, respirou fundo. O dia estava apenas começando — e ela já estava cansada.
No trabalho, a rotina não era gentil.
Isadora organizava prateleiras, limpava balcões, atendia clientes com educação mesmo quando recebia impaciência em troca.
— Essa fila tá demorando demais — reclamou uma mulher, sem sequer olhar para ela.
— Já vou atender a senhora — respondeu Isadora, com calma treinada.
Um senhor idoso entrou logo depois, confuso, segurando a receita com mãos trêmulas.
— Moça… eu não sei se é esse aqui…
Isadora saiu de trás do balcão, leu com atenção, explicou devagar, anotou o horário do remédio num papel.
— Qualquer coisa, o senhor volta, tá bom?
Ele sorriu. — Obrigado, minha filha. Pouca gente tem paciência hoje em dia.
Ela sorriu de volta, sentindo algo aquecer o peito. Pequeno. Mas real.
O dia seguiu pesado. Alguns clientes gentis. Outros ríspidos. O salário curto. O corpo cansado. A mente cheia.
Quando finalmente saiu, o céu já começava a escurecer.
Isadora decidiu voltar a pé. Precisava pensar.
Passou pela praça do bairro e diminuiu o passo sem perceber. No banco mais próximo do coreto, um casal ria baixo. Ele segurava a mão dela com naturalidade. Ela apoiava a cabeça no ombro dele, como quem sabia que ali era seguro.
Isadora parou.
Observou.
Sentiu algo apertar no peito — não era inveja. Era ausência.
Sentou-se no banco oposto e ficou ali, olhando o amor dos outros como quem olha uma língua que nunca aprendeu a falar.
— Será que um dia… — murmurou, mas a frase morreu antes de terminar.
Nunca teve referência.
Nunca teve pai.
Nunca teve mãe presente.
O único amor que conhecia era o da avó — um amor forte, sacrificial, cansado.
Talvez amor fosse isso: ficar quando é difícil.
Talvez não tivesse romance nenhum nisso.
— Acho que amor não é pra mim — pensou, sentindo os olhos arderem. — Talvez eu tenha nascido pra cuidar… não pra ser escolhida.
Levantou-se antes que as lágrimas caíssem.
Em casa, encontrou a avó dormindo tranquila. Cobriu-a com carinho, sentou-se ao lado da cama por alguns minutos, observando aquele rosto que era sua única certeza no mundo.
— Se amor for isso… — sussurrou — então eu conheço.
Mas, no fundo, Isadora sentia.
Sentia que havia algo que ainda não vivera.
Algo que nem sabia nomear.
E, mesmo sem esperança, seu coração cansado ainda batia — como se esperasse por algo que ela não acreditava merecer.