Isadora ainda segurava a rosa quando o silêncio caiu entre eles.
Não era um silêncio vazio. Era carregado de tudo o que ainda não tinha sido dito.
— Você vai me deixar falar agora? — ela perguntou, tentando parecer firme, mas a voz saiu trêmula.
Márcio sorriu de leve.
— Eu vim pra isso.
Ela respirou fundo, deu dois passos para trás e abriu espaço para ele entrar.
— Entra… antes que eu desista.
Ele entrou.
A porta se fechou devagar, como se o mundo lá fora não fosse mais importante naquele momento.
Isadora encostou-se na parede, abraçando a rosa contra o peito.
— Eu fiquei com medo — começou. — Não de você… mas de mim.
Márcio franziu a testa, atento.
— Medo de quê?
— De confiar. De acreditar. De gostar… — ela falou rápido demais. — Porque quando eu gosto, eu fico exposta. E quando fico exposta, as pessoas vão embora.
Ele deu um passo à frente, mas parou, respeitando o espaço dela.
— Eu não fui embora.
— Mas podia ter ido — ela respondeu. — E isso já é suficiente pra me assustar.
Ela suspirou, passando a mão pelos cabelos.
— Eu não sei fazer isso direito, Márcio. Eu nunca fiz. Nunca namorei. Nunca… — ela parou, engoliu seco — nunca deixei alguém chegar tão perto.
Ele sentiu o peito apertar.
— Eu também tô sentindo algo que nunca senti — confessou. — E isso me assusta um pouco. Porque não é leve, não é passageiro. É… real.
Ela arregalou os olhos.
— Não fala assim — disse rápido. — Porque se não der certo vai doer muito. E se você for embora eu vou sentir sua falta igual senti nesses dias, e isso foi h******l, e eu fiquei querendo te ver chegando, e—
Ela parou de repente.
Piscou.
— Eu tô falando demais, né?
Márcio mordeu o lábio para não rir.
— Um pouco.
— Tá vendo? Eu fico nervosa — ela continuou, já embalada. — Aí eu falo, falo, falo… e começo a dizer coisas que não devia.
— Tipo?
Ela corou na mesma hora.
— Tipo… que eu tenho medo dos seus beijos.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Medo?
— É! — respondeu rápido. — Porque depois eu fico tendo sonhos que eu não queria sonhar… mas que adoraria que acontecessem.
Silêncio.
Márcio ficou parado por dois segundos.
E então começou a rir.
— Então quer dizer que você estava sentindo a minha falta… e sonhando comigo?
Ela congelou.
— Não! — disse rápido demais. — Quer dizer… sim… não… quer dizer… depende!
— Depende do quê? — ele perguntou, divertindo-se.
— Do dia! — ela respondeu, cobrindo o rosto com as mãos. — Meu Deus, para de rir!
Ele riu ainda mais.
— Isadora, você acabou de dizer que sente minha falta, que fica nervosa comigo, que sonha comigo… e ainda assim quer fingir que isso não significa nada?
Ela tirou as mãos do rosto, envergonhada.
— Eu tô tentando sobreviver — murmurou.
Ele se aproximou devagar.
— Eu não quero ser mais alguém que você precise sobreviver depois — disse sério. — Eu quero ser alguém que fique.
Ela sentiu os olhos marejarem.
— Eu não sei se consigo prometer não ter medo.
— Eu não preciso disso — respondeu. — Só preciso que você não fuja.
Ela respirou fundo.
— Então… talvez… eu possa tentar.
Ele sorriu.
— Isso já é tudo pra mim.
Isadora apertou a rosa entre os dedos, o coração acelerado, mas pela primeira vez sem vontade de correr.
Ela ainda tinha medo.
Mas agora, tinha algo maior que ele.
Esperança.