vergonha carregada

440 Words
A lanchonete dos pais de Márcio ficava na mesma esquina há mais de vinte anos. Pequena, sem fachada chamativa, mas sempre cheia de gente. O cheiro de café forte e pão na chapa era o mesmo da infância dele. Ao empurrar a porta, o sino tocou. — Meu filho! — Melissa foi a primeira a correr até ele, enxugando as mãos no avental. Osvaldo veio logo atrás, com o sorriso cansado de quem nunca reclamou da vida. — Não avisou que vinha. — Foi de surpresa… — Márcio respondeu, tentando sorrir. Eles o abraçaram como se o mundo fosse simples assim: braços abertos, sem perguntas, sem julgamentos. E isso doeu. Porque Márcio se lembrou de quantas vezes sentiu vergonha daquele lugar quando estava com Cíntia. De quantas desculpas inventou para não trazê-la ali. De como permitiu que ela diminuísse seus pais com o olhar. Sentou-se à mesa do canto, a mesma de sempre. — Você está mais magro — disse Melissa, servindo café. — Trabalho demais — respondeu ele, automaticamente. Osvaldo o observava em silêncio. Um silêncio atento, de pai que conhece o filho sem precisar de palavras. — Você não veio só pra comer — disse enfim. Márcio baixou os olhos. — Não. A dor veio inteira. Contou tudo. A traição. O amigo. A aliança. A humilhação. Melissa segurou a mão dele com firmeza. — Quem perde não é você, meu filho. — Eu falhei — ele respondeu, com a voz embargada. — Escolhi errado. Ignorei sinais. Osvaldo se inclinou sobre a mesa. — Você amou. Isso nunca é vergonha. A palavra vergonha ecoou dentro dele. Era isso que carregava. Não da origem simples. Mas de ter duvidado dela. Depois de ajudar a fechar a lanchonete, Márcio saiu para caminhar. Precisava respirar. Precisava pensar. Foi quando entrou numa pequena farmácia da esquina. Isadora estava no balcão, organizando produtos com cuidado. Era seu primeiro dia ali. O emprego simples não era o sonho, mas era dignidade — e isso bastava. — Boa noite — disse ela, levantando os olhos. O mundo deu uma pausa. Márcio respondeu: — Boa noite. Nada mais. Nenhuma frase bonita. Nenhuma promessa. Mas algo no olhar dela não exigia nada. Não cobrava nada. Não avaliava. Ela passou o remédio, explicou com atenção e sorriu de leve. — Melhoras. Quando ele saiu, levou mais do que uma sacola na mão. Levou um estranho alívio no peito. Isadora o observou ir embora pela vitrine. Não sabia por quê, mas sentiu algo diferente. Como se aquele homem carregasse um cansaço que ela conhecia bem. Dois estranhos. Duas histórias quebradas. Um encontro simples. E o destino, silencioso, começava a trabalhar.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD