Quando o amor para de esperar.

523 Words
Márcio tentava fingir que estava concentrado no trabalho, mas Dona Solange conhecia aquele olhar inquieto melhor do que ele próprio. Ela apoiou os óculos na ponta do nariz, observou-o por alguns segundos e então falou, sem rodeios: — Você já está bem grandinho pra recuar assim, não acha? Ele ergueu o rosto, surpreso. — Como é? — Amor não é coisa pra quem vive adiando — continuou ela, cruzando os braços. — Se você achou algo verdadeiro, não é se afastando que vai proteger ninguém. É lutando. Márcio respirou fundo. — Eu não quis machucar… ela pediu espaço. — Espaço não é abandono — Dona Solange rebateu com firmeza. — Mas silêncio demais vira medo. E medo estraga até o que nasceu certo. Ele ficou quieto. — Olha pra você — ela continuou, agora com a voz mais branda. — Desde quando você anda assim, perdido? Aquela moça fez você voltar a sentir. O que mais isso pode ser? Ele engoliu seco. — Você acha que é amor? Dona Solange sorriu de canto. — O que mais seria? Vai ser feliz, Márcio. Chega de adiar a própria vida. As palavras ficaram ecoando. Amor… será que é isso? Ele terminou o expediente em silêncio, mas decidido. Em casa, tomou um banho demorado, como se quisesse lavar as dúvidas. Vestiu uma camisa simples, passou a mão pelos cabelos e, antes de sair, respirou fundo. No caminho, parou numa floricultura pequena. Olhou as opções, mas escolheu apenas uma rosa. — Às vezes, uma é suficiente — murmurou. E seguiu.Isadora tinha acabado de chegar do trabalho. O corpo cansado, a mente cheia. Preparou a janta da avó com carinho, ajudou-a a se acomodar na cama e ficou ali alguns minutos, observando-a dormir. Depois, tomou um banho rápido, vestiu um pijama simples e se deitou, decidida a dormir cedo. Foi então que a campainha tocou. Ela se sentou na cama de imediato. — Quem será a essa hora…? O coração acelerou sem pedir permissão. Será que é ele? Não… não pode ser. Queria que fosse. Morria de medo que fosse. Caminhou até a porta devagar, respirando fundo antes de abrir. Quando abriu… Era Márcio. Ali. Em pé. Olhando para ela como quem finalmente chegou onde devia estar. — Márcio… eu… Ela não teve tempo de terminar. Ele avançou um passo e a beijou. Não foi um beijo delicado. Foi um beijo carregado de saudade, urgência e decisão. Um beijo que dizia eu fiquei, eu voltei, eu não vou embora. Isadora ficou imóvel por um segundo — e então correspondeu. O coração disparou. As pernas quase falharam. Ela não sabia que queria tanto aquele beijo… mas queria. Quando ele se afastou, ambos respiravam fundo. Márcio tirou a rosa de trás das costas e entregou a ela. — A espera acabou — disse, com a voz firme. — Espero que você já tenha tido tempo de pensar. Porque eu não vou sair daqui enquanto você não me aceitar. Os olhos dela se encheram de lágrimas. Não de medo. De alívio. Ela segurou a rosa como quem segura algo precioso, sentindo o coração finalmente escolher. E, pela primeira vez, não fugiu.
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