Isadora achou que seria mais fácil.
Ela sempre acreditou que sabia se virar sozinha, que o afastamento era um território conhecido. Mas daquela vez era diferente. O silêncio não trazia paz — trazia ausência.
A casa parecia maior. Mais vazia.
O portão rangia do mesmo jeito, a rua tinha o mesmo barulho de sempre, mas algo estava fora do lugar. Faltava alguém que nunca tinha prometido ficar, e mesmo assim deixou falta.
Ela tentou não pensar nele.
Tentou se ocupar: lavou a louça com força demais, varreu o quintal duas vezes, organizou gavetas que já estavam em ordem. Mas bastava um instante de descanso para o pensamento voltar, teimoso.
Ele devia estar chegando agora…
Talvez fosse hoje.
Isadora se pegava olhando para o portão, esperando um passo que não vinha. E quando percebia, desviava o olhar, como se tivesse sido pega em falta.
— Que besteira… — murmurou para si mesma.
Mas não era besteira. Era saudade.
À noite, sentou na cama com o celular na mão. Abriu a conversa dele. Leu a última mensagem, simples demais para explicar o vazio que tinha deixado.
Digitou:
"Oi… você tá bem?"
Apagou.
Digitou de novo:
"Desculpa por aquele dia."
Apagou outra vez.
O medo falava mais alto.
O mesmo medo antigo, que tinha aprendido cedo demais que quem vai embora não avisa. Que pai some. Que mãe escolhe outra vida. Que apego custa caro.
— Não faz isso, Isadora — sussurrou, bloqueando a tela. — Você sobreviveu sem ninguém.
Mas o coração não concordava.
Do outro lado da cidade, Márcio também lutava contra o próprio silêncio.
Ele respeitava o espaço dela, mesmo doendo. Cada dia sem aparecer parecia um exercício de resistência. Ele passava perto da farmácia e desviava o caminho. Pensava em bater no portão e não batia. Ensaiava mensagens que nunca enviava.
— Dá tempo pra ela — dizia para si mesmo. — Não seja mais alguém que força.
Mas a saudade não obedecia.
À noite, ele se sentava no sofá, lembrando do sorriso tímido, do jeito como ela desviava o olhar quando ficava nervosa. Do cuidado com a avó. Da força silenciosa que ela carregava.
— Eu não vou embora — falou sozinho. — Mesmo que você ache que eu vá.
Mas não disse isso a ela.
Porque amor, às vezes, também é esperar.
Isadora passou dias assim.
Trabalhando no automático. Respondendo clientes. Sorrindo sem sentir. E sempre com a sensação de que alguém faltava — como quando a gente esquece algo importante e só percebe tarde demais.
Na volta pra casa, viu um casal atravessando a rua de mãos dadas. Não sentiu inveja. Sentiu medo.
E se eu quiser isso?
E se eu estragar tudo de novo?
Apertou o celular no bolso.
— Não liga — repetiu. — Não liga.
Mas naquela noite, antes de dormir, ela fez algo diferente.
Não escreveu. Não ligou.
Apenas abriu a conversa dele… e deixou ali.
Como quem deixa a porta encostada, sem coragem de fechar.
E, do outro lado, Márcio sentiu — sem saber como — que ela ainda estava ali.
Esperando.
Não por alguém perfeito.
Mas por alguém que ficasse.