A saudade que não sabe dizer o nome.

520 Words
Isadora achou que seria mais fácil. Ela sempre acreditou que sabia se virar sozinha, que o afastamento era um território conhecido. Mas daquela vez era diferente. O silêncio não trazia paz — trazia ausência. A casa parecia maior. Mais vazia. O portão rangia do mesmo jeito, a rua tinha o mesmo barulho de sempre, mas algo estava fora do lugar. Faltava alguém que nunca tinha prometido ficar, e mesmo assim deixou falta. Ela tentou não pensar nele. Tentou se ocupar: lavou a louça com força demais, varreu o quintal duas vezes, organizou gavetas que já estavam em ordem. Mas bastava um instante de descanso para o pensamento voltar, teimoso. Ele devia estar chegando agora… Talvez fosse hoje. Isadora se pegava olhando para o portão, esperando um passo que não vinha. E quando percebia, desviava o olhar, como se tivesse sido pega em falta. — Que besteira… — murmurou para si mesma. Mas não era besteira. Era saudade. À noite, sentou na cama com o celular na mão. Abriu a conversa dele. Leu a última mensagem, simples demais para explicar o vazio que tinha deixado. Digitou: "Oi… você tá bem?" Apagou. Digitou de novo: "Desculpa por aquele dia." Apagou outra vez. O medo falava mais alto. O mesmo medo antigo, que tinha aprendido cedo demais que quem vai embora não avisa. Que pai some. Que mãe escolhe outra vida. Que apego custa caro. — Não faz isso, Isadora — sussurrou, bloqueando a tela. — Você sobreviveu sem ninguém. Mas o coração não concordava. Do outro lado da cidade, Márcio também lutava contra o próprio silêncio. Ele respeitava o espaço dela, mesmo doendo. Cada dia sem aparecer parecia um exercício de resistência. Ele passava perto da farmácia e desviava o caminho. Pensava em bater no portão e não batia. Ensaiava mensagens que nunca enviava. — Dá tempo pra ela — dizia para si mesmo. — Não seja mais alguém que força. Mas a saudade não obedecia. À noite, ele se sentava no sofá, lembrando do sorriso tímido, do jeito como ela desviava o olhar quando ficava nervosa. Do cuidado com a avó. Da força silenciosa que ela carregava. — Eu não vou embora — falou sozinho. — Mesmo que você ache que eu vá. Mas não disse isso a ela. Porque amor, às vezes, também é esperar. Isadora passou dias assim. Trabalhando no automático. Respondendo clientes. Sorrindo sem sentir. E sempre com a sensação de que alguém faltava — como quando a gente esquece algo importante e só percebe tarde demais. Na volta pra casa, viu um casal atravessando a rua de mãos dadas. Não sentiu inveja. Sentiu medo. E se eu quiser isso? E se eu estragar tudo de novo? Apertou o celular no bolso. — Não liga — repetiu. — Não liga. Mas naquela noite, antes de dormir, ela fez algo diferente. Não escreveu. Não ligou. Apenas abriu a conversa dele… e deixou ali. Como quem deixa a porta encostada, sem coragem de fechar. E, do outro lado, Márcio sentiu — sem saber como — que ela ainda estava ali. Esperando. Não por alguém perfeito. Mas por alguém que ficasse.
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