Cintia sem saída.

555 Words
Cíntia passou a noite em claro. O silêncio do apartamento, antes confortável, agora parecia acusador. Cada canto guardava lembranças que ela nunca valorizara. O cheiro do perfume de Márcio ainda estava ali — e isso a irritava mais do que entristecia. Ela não estava arrependida pelo que fez. Estava desesperada por ter sido descoberta. Pegou o celular com mãos trêmulas. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Nenhum pedido de explicação. — Ele vai voltar — murmurou, tentando convencer a si mesma. Mas o medo crescia. Na manhã seguinte, Cíntia vestiu-se com cuidado excessivo. Queria parecer frágil. Vulnerável. Queria despertar culpa. Foi direto ao apartamento de Márcio. Bateu à porta uma vez. Duas. Quando ele abriu, o olhar que recebeu foi pior do que um grito. Não havia raiva. Havia indiferença. — Márcio, a gente precisa conversar — disse ela, tentando tocar seu braço. Ele recuou. — Não encosta em mim. A frase foi curta, seca, definitiva. — Você não pode acabar com tudo assim — insistiu. — Foram dois anos. Márcio respirou fundo, mantendo a voz firme. — Foram dois anos em que eu te amei sozinho. Cíntia sentiu o chão fugir. — Foi um erro… eu estava confusa… — Confusa não abre a porta do quarto — respondeu ele. — Confusa não chama o melhor amigo do namorado. Ela elevou o tom, perdendo o controle. — Você também errou! Nunca estava presente! Márcio sorriu, triste. — Eu estava trabalhando. Construindo um futuro. Você estava destruindo o nosso. As lágrimas vieram, mas não eram de arrependimento. Eram de perda. — Eu sou tudo o que você sempre quis — ela gritou. — Você nunca vai encontrar alguém como eu! Foi então que ele respondeu, calmo demais: — É exatamente isso que me dá esperança. Cíntia sentiu algo quebrar por dentro. — Não seja ridículo — disse, rindo nervosa. — Você vai voltar. Você sempre volta. — Não desta vez. Ele fechou a porta. Cíntia ficou ali, parada, sentindo o peso da rejeição esmagá-la. Pela primeira vez, não era desejada. Não era escolhida. Não era o centro. E isso a enlouqueceu. Horas depois, ela dirigia sem rumo, chorando, gritando sozinha dentro do carro. O mundo não estava obedecendo. As pessoas não estavam fazendo o que ela queria. Desesperada, foi até a imobiliária. Dona Solange estava em sua sala, como sempre, postura firme, olhar atento. — O Márcio está? — Cíntia perguntou, a voz trêmula. — Não — respondeu Solange, sem rodeios. — Mas eu estou. Cíntia respirou fundo. — Eu preciso falar com ele. A senhora pode ajudar. Dona Solange cruzou as mãos sobre a mesa. — Eu sempre soube quem você era, Cíntia. A frase caiu como sentença. — Você nunca o amou — continuou Solange. — Amava o que ele podia te oferecer. Status. Segurança. Aparência. — Isso não é verdade! — Cíntia rebateu, exaltada. — É sim — respondeu Solange, firme. — E agora que perdeu o controle, está desesperada. Cíntia sentiu o rosto queimar. — Ele é meu! Dona Solange levantou-se lentamente. — Não. Ele é um homem livre. E você não passa de um capítulo que ele precisa esquecer. O silêncio tomou conta da sala. Cíntia saiu dali com o orgulho ferido, o coração vazio e a certeza de algo que jamais experimentara antes: Ela estava perdendo. E não sabia lidar com isso.
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