Cíntia passou a noite em claro.
O silêncio do apartamento, antes confortável, agora parecia acusador. Cada canto guardava lembranças que ela nunca valorizara. O cheiro do perfume de Márcio ainda estava ali — e isso a irritava mais do que entristecia.
Ela não estava arrependida pelo que fez.
Estava desesperada por ter sido descoberta.
Pegou o celular com mãos trêmulas. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Nenhum pedido de explicação.
— Ele vai voltar — murmurou, tentando convencer a si mesma.
Mas o medo crescia.
Na manhã seguinte, Cíntia vestiu-se com cuidado excessivo. Queria parecer frágil. Vulnerável. Queria despertar culpa.
Foi direto ao apartamento de Márcio.
Bateu à porta uma vez. Duas.
Quando ele abriu, o olhar que recebeu foi pior do que um grito. Não havia raiva. Havia indiferença.
— Márcio, a gente precisa conversar — disse ela, tentando tocar seu braço.
Ele recuou. — Não encosta em mim.
A frase foi curta, seca, definitiva.
— Você não pode acabar com tudo assim — insistiu. — Foram dois anos.
Márcio respirou fundo, mantendo a voz firme. — Foram dois anos em que eu te amei sozinho.
Cíntia sentiu o chão fugir. — Foi um erro… eu estava confusa…
— Confusa não abre a porta do quarto — respondeu ele. — Confusa não chama o melhor amigo do namorado.
Ela elevou o tom, perdendo o controle. — Você também errou! Nunca estava presente!
Márcio sorriu, triste. — Eu estava trabalhando. Construindo um futuro. Você estava destruindo o nosso.
As lágrimas vieram, mas não eram de arrependimento. Eram de perda.
— Eu sou tudo o que você sempre quis — ela gritou. — Você nunca vai encontrar alguém como eu!
Foi então que ele respondeu, calmo demais: — É exatamente isso que me dá esperança.
Cíntia sentiu algo quebrar por dentro.
— Não seja ridículo — disse, rindo nervosa. — Você vai voltar. Você sempre volta.
— Não desta vez.
Ele fechou a porta.
Cíntia ficou ali, parada, sentindo o peso da rejeição esmagá-la. Pela primeira vez, não era desejada. Não era escolhida. Não era o centro.
E isso a enlouqueceu.
Horas depois, ela dirigia sem rumo, chorando, gritando sozinha dentro do carro. O mundo não estava obedecendo. As pessoas não estavam fazendo o que ela queria.
Desesperada, foi até a imobiliária.
Dona Solange estava em sua sala, como sempre, postura firme, olhar atento.
— O Márcio está? — Cíntia perguntou, a voz trêmula.
— Não — respondeu Solange, sem rodeios. — Mas eu estou.
Cíntia respirou fundo. — Eu preciso falar com ele. A senhora pode ajudar.
Dona Solange cruzou as mãos sobre a mesa. — Eu sempre soube quem você era, Cíntia.
A frase caiu como sentença.
— Você nunca o amou — continuou Solange. — Amava o que ele podia te oferecer. Status. Segurança. Aparência.
— Isso não é verdade! — Cíntia rebateu, exaltada.
— É sim — respondeu Solange, firme. — E agora que perdeu o controle, está desesperada.
Cíntia sentiu o rosto queimar. — Ele é meu!
Dona Solange levantou-se lentamente. — Não. Ele é um homem livre. E você não passa de um capítulo que ele precisa esquecer.
O silêncio tomou conta da sala.
Cíntia saiu dali com o orgulho ferido, o coração vazio e a certeza de algo que jamais experimentara antes:
Ela estava perdendo.
E não sabia lidar com isso.