Dona Solange sempre soube.

464 Words
Márcio passou a chegar cada vez mais cedo à imobiliária e a sair cada vez mais tarde. O trabalho virou refúgio. E também castigo. Pilhas de contratos se acumulavam sobre a mesa, cafés frios eram esquecidos ao lado do computador, e o celular permanecia virado para baixo — como se ignorar o mundo pudesse fazê-lo parar de doer. Dona Solange observava tudo em silêncio. Ela conhecia aquele olhar. Já o vira antes, em homens que acreditaram demais nas pessoas erradas. Naquela tarde, bateu levemente à porta da sala dele. — Márcio, fecha isso um pouco — pediu, com voz firme, mas carregada de cuidado. Ele tentou sorrir. — Só mais esse contrato, dona Solange. — Não é um pedido — respondeu. — É um aviso. Márcio suspirou e fechou o notebook. Ela sentou-se à frente dele. — Você está se afundando. — Estou trabalhando — rebateu, sem levantar os olhos. — Não — corrigiu. — Está se punindo. O silêncio se instalou. — Eu sempre soube — ela continuou, sem rodeios. — Sempre vi além do sorriso da Cíntia. Márcio levantou o olhar, surpreso. — Então por que nunca me disse? Dona Solange respirou fundo. — Porque certas dores só convencem quando acontecem. Você estava cego de amor. Ele passou a mão pelo rosto. — Eu acreditei nela. Acreditei no Arnaldo. — E isso não te faz fraco — disse Solange, com firmeza. — Te faz inteiro. Quem ama de verdade, corre riscos. Ela se levantou e caminhou até a janela. — Mas agora você precisa parar. — Parar? — ele perguntou, confuso. — Sim. Tirar uns dias. Se afastar. Respirar. — Ela virou-se para ele. — Se você continuar assim, vai virar um homem amargo. E eu não te criei pra isso. A palavra criei tocou fundo. — Eu não sei o que fazer sem trabalhar — confessou Márcio, com a voz falha. — Quando paro, tudo volta. Dona Solange se aproximou e colocou a mão sobre o ombro dele. — Então é exatamente por isso que você precisa parar. Ela sorriu de leve. — Vai visitar seus pais. Lembra de quem você é. O amor certo não machuca desse jeito. Márcio fechou os olhos por um instante. As palavras dela entraram onde a dor ainda estava aberta. — Você merece ser amado com verdade — concluiu. — E isso começa quando você se trata com respeito. Ele assentiu lentamente. — Obrigado… por não desistir de mim. Dona Solange sorriu, orgulhosa. — Nunca pensei nisso. Você é como um filho pra mim. Quando Márcio saiu da sala, sentiu algo diferente no peito. Não era felicidade. Mas era o começo da cura. E, sem saber, ao obedecer aquele conselho, ele daria o primeiro passo para encontrar alguém que nunca precisaria mentir para ser amada.
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