Márcio passou a chegar cada vez mais cedo à imobiliária e a sair cada vez mais tarde.
O trabalho virou refúgio. E também castigo.
Pilhas de contratos se acumulavam sobre a mesa, cafés frios eram esquecidos ao lado do computador, e o celular permanecia virado para baixo — como se ignorar o mundo pudesse fazê-lo parar de doer.
Dona Solange observava tudo em silêncio.
Ela conhecia aquele olhar. Já o vira antes, em homens que acreditaram demais nas pessoas erradas.
Naquela tarde, bateu levemente à porta da sala dele.
— Márcio, fecha isso um pouco — pediu, com voz firme, mas carregada de cuidado.
Ele tentou sorrir. — Só mais esse contrato, dona Solange.
— Não é um pedido — respondeu. — É um aviso.
Márcio suspirou e fechou o notebook.
Ela sentou-se à frente dele. — Você está se afundando.
— Estou trabalhando — rebateu, sem levantar os olhos.
— Não — corrigiu. — Está se punindo.
O silêncio se instalou.
— Eu sempre soube — ela continuou, sem rodeios. — Sempre vi além do sorriso da Cíntia.
Márcio levantou o olhar, surpreso. — Então por que nunca me disse?
Dona Solange respirou fundo. — Porque certas dores só convencem quando acontecem. Você estava cego de amor.
Ele passou a mão pelo rosto. — Eu acreditei nela. Acreditei no Arnaldo.
— E isso não te faz fraco — disse Solange, com firmeza. — Te faz inteiro. Quem ama de verdade, corre riscos.
Ela se levantou e caminhou até a janela. — Mas agora você precisa parar.
— Parar? — ele perguntou, confuso.
— Sim. Tirar uns dias. Se afastar. Respirar. — Ela virou-se para ele. — Se você continuar assim, vai virar um homem amargo. E eu não te criei pra isso.
A palavra criei tocou fundo.
— Eu não sei o que fazer sem trabalhar — confessou Márcio, com a voz falha. — Quando paro, tudo volta.
Dona Solange se aproximou e colocou a mão sobre o ombro dele. — Então é exatamente por isso que você precisa parar.
Ela sorriu de leve. — Vai visitar seus pais. Lembra de quem você é. O amor certo não machuca desse jeito.
Márcio fechou os olhos por um instante. As palavras dela entraram onde a dor ainda estava aberta.
— Você merece ser amado com verdade — concluiu. — E isso começa quando você se trata com respeito.
Ele assentiu lentamente. — Obrigado… por não desistir de mim.
Dona Solange sorriu, orgulhosa. — Nunca pensei nisso. Você é como um filho pra mim.
Quando Márcio saiu da sala, sentiu algo diferente no peito.
Não era felicidade.
Mas era o começo da cura.
E, sem saber, ao obedecer aquele conselho, ele daria o primeiro passo para encontrar alguém que nunca precisaria mentir para ser amada.