O caminho de volta foi longo demais para tão poucas ruas.
Dentro do carro, o silêncio de Isadora era pesado. Ela olhava pela janela sem realmente ver nada, os braços cruzados contra o próprio corpo, como se estivesse tentando se proteger de algo que vinha de dentro.
Márcio dirigia com cuidado, mas a mente estava longe. Ele a observava de relance, tentando encontrar uma brecha, um sinal, qualquer coisa que dissesse que ela ainda estava ali.
— Você quer que eu te leve direto pra casa? — perguntou baixo.
Isadora apenas assentiu, sem virar o rosto.
Aquilo doeu mais do que qualquer discussão.
Quando ele parou em frente à casa dela, ela abriu a porta rápido demais, como quem foge antes de mudar de ideia.
— Isadora… — ele chamou.
Ela parou, mas não se virou.
— Obrigada pelo café — disse, num tom educado demais para quem estava machucada. — Boa noite.
E entrou.
Márcio ficou ali alguns segundos, com o motor ligado, sentindo que algo importante tinha escapado por entre os dedos.
No dia seguinte, Isadora acordou cansada — mesmo sem ter dormido quase nada.
Foi trabalhar no automático.
Atendeu clientes. Sorriu quando precisava. Respondeu perguntas decoradas. Mas por dentro, a mente repetia a mesma frase, como um aviso c***l:
Isso não é pra você.
Ele é demais.
Você sabe como isso termina.
Cada lembrança do café vinha acompanhada da sensação de ser observada, julgada, diminuída. E junto com ela, o medo antigo de nunca ser escolhida de verdade.
— Melhor parar agora — murmurou para si mesma, enquanto organizava uma prateleira. — Antes que doa mais.
Ela já tinha aprendido a sobreviver se retirando.
Márcio passou o dia inquieto.
Trabalhou, resolveu pendências, respondeu reuniões — mas a cabeça estava nela. No silêncio dela. No jeito como tinha pedido para ir embora. No olhar que não o procurou.
No fim do expediente, ele não aguentou.
Foi até a farmácia.
Quando entrou, Isadora estava no balcão. O rosto sério, profissional. Mas o corpo inteiro ficou tenso ao vê-lo.
— Oi — ele disse, cuidadoso.
— Oi — respondeu, sem emoção.
Esperou atender o último cliente, respirou fundo e então falou:
— A gente pode conversar um pouco?
Ela hesitou. Olhou para o relógio. Depois assentiu.
Foram para um canto mais reservado.
— Eu fiquei preocupado com você — ele começou. — Desde ontem.
Isadora respirou fundo, como quem junta coragem.
— Márcio… essa aproximação nossa não vai dar certo.
Ele franziu a testa.
— Por quê?
— Porque eu já sei onde isso vai parar — respondeu, a voz firme, mas os olhos brilhando. — Eu não sou esse tipo de mulher que você anda. Eu não sei lidar com escândalo, com gente apontando, com comparação.
Ele tentou falar, mas ela levantou a mão.
— Deixa eu terminar, por favor.
Ela engoliu seco.
— Eu passei a vida inteira sendo a opção fácil de deixar pra depois. Nunca fui prioridade. E eu… — a voz falhou — eu não aguento ser humilhada de novo.
— Ninguém te humilhou — ele disse, sentindo o peito apertar.
— Humilhar não é só gritar — ela respondeu. — É fazer a gente se sentir pequena.
O silêncio caiu entre eles.
— Eu acho melhor você não voltar mais — ela completou, quase num sussurro. — É mais seguro assim.
— Seguro pra quem? — ele questionou. — Pra você ou pro seu medo?
Ela fechou os olhos por um segundo.
— Pra mim.
Márcio deu um passo à frente.
— Isadora, eu não sou ele. Eu não vou te tratar como sobra.
— Você não pode prometer isso — ela disse, agora olhando para ele. — E eu não posso pagar pra ver.
Ele respirou fundo, lutando contra a vontade de abraçá-la, de dizer que ficaria, que insistiria.
— Então é isso? — perguntou. — Você decide por nós dois?
— Eu estou decidindo por mim — respondeu. — Por favor… vai.
Aquilo foi o que mais doeu.
Ele assentiu devagar.
— Eu vou dar um tempo — disse. — Não porque eu desisti… mas porque eu sei que você precisa respirar.
Ele se virou, deu alguns passos… e parou.
— Só não pense que isso não significou nada pra mim — completou, sem olhar pra trás.
E saiu.
Isadora ficou ali, com o coração em pedaços, repetindo para si mesma que tinha feito a coisa certa.
Mas, pela primeira vez, a decisão de se afastar doía mais do que ficar.
E Márcio, do outro lado da rua, teve certeza de uma coisa:
Ele não ia aprender a desistir dela.
Não agora.
Não depois de sentir algo que nunca tinha sentido antes.