Quando o medo fal mais alto.

780 Words
O caminho de volta foi longo demais para tão poucas ruas. Dentro do carro, o silêncio de Isadora era pesado. Ela olhava pela janela sem realmente ver nada, os braços cruzados contra o próprio corpo, como se estivesse tentando se proteger de algo que vinha de dentro. Márcio dirigia com cuidado, mas a mente estava longe. Ele a observava de relance, tentando encontrar uma brecha, um sinal, qualquer coisa que dissesse que ela ainda estava ali. — Você quer que eu te leve direto pra casa? — perguntou baixo. Isadora apenas assentiu, sem virar o rosto. Aquilo doeu mais do que qualquer discussão. Quando ele parou em frente à casa dela, ela abriu a porta rápido demais, como quem foge antes de mudar de ideia. — Isadora… — ele chamou. Ela parou, mas não se virou. — Obrigada pelo café — disse, num tom educado demais para quem estava machucada. — Boa noite. E entrou. Márcio ficou ali alguns segundos, com o motor ligado, sentindo que algo importante tinha escapado por entre os dedos. No dia seguinte, Isadora acordou cansada — mesmo sem ter dormido quase nada. Foi trabalhar no automático. Atendeu clientes. Sorriu quando precisava. Respondeu perguntas decoradas. Mas por dentro, a mente repetia a mesma frase, como um aviso c***l: Isso não é pra você. Ele é demais. Você sabe como isso termina. Cada lembrança do café vinha acompanhada da sensação de ser observada, julgada, diminuída. E junto com ela, o medo antigo de nunca ser escolhida de verdade. — Melhor parar agora — murmurou para si mesma, enquanto organizava uma prateleira. — Antes que doa mais. Ela já tinha aprendido a sobreviver se retirando. Márcio passou o dia inquieto. Trabalhou, resolveu pendências, respondeu reuniões — mas a cabeça estava nela. No silêncio dela. No jeito como tinha pedido para ir embora. No olhar que não o procurou. No fim do expediente, ele não aguentou. Foi até a farmácia. Quando entrou, Isadora estava no balcão. O rosto sério, profissional. Mas o corpo inteiro ficou tenso ao vê-lo. — Oi — ele disse, cuidadoso. — Oi — respondeu, sem emoção. Esperou atender o último cliente, respirou fundo e então falou: — A gente pode conversar um pouco? Ela hesitou. Olhou para o relógio. Depois assentiu. Foram para um canto mais reservado. — Eu fiquei preocupado com você — ele começou. — Desde ontem. Isadora respirou fundo, como quem junta coragem. — Márcio… essa aproximação nossa não vai dar certo. Ele franziu a testa. — Por quê? — Porque eu já sei onde isso vai parar — respondeu, a voz firme, mas os olhos brilhando. — Eu não sou esse tipo de mulher que você anda. Eu não sei lidar com escândalo, com gente apontando, com comparação. Ele tentou falar, mas ela levantou a mão. — Deixa eu terminar, por favor. Ela engoliu seco. — Eu passei a vida inteira sendo a opção fácil de deixar pra depois. Nunca fui prioridade. E eu… — a voz falhou — eu não aguento ser humilhada de novo. — Ninguém te humilhou — ele disse, sentindo o peito apertar. — Humilhar não é só gritar — ela respondeu. — É fazer a gente se sentir pequena. O silêncio caiu entre eles. — Eu acho melhor você não voltar mais — ela completou, quase num sussurro. — É mais seguro assim. — Seguro pra quem? — ele questionou. — Pra você ou pro seu medo? Ela fechou os olhos por um segundo. — Pra mim. Márcio deu um passo à frente. — Isadora, eu não sou ele. Eu não vou te tratar como sobra. — Você não pode prometer isso — ela disse, agora olhando para ele. — E eu não posso pagar pra ver. Ele respirou fundo, lutando contra a vontade de abraçá-la, de dizer que ficaria, que insistiria. — Então é isso? — perguntou. — Você decide por nós dois? — Eu estou decidindo por mim — respondeu. — Por favor… vai. Aquilo foi o que mais doeu. Ele assentiu devagar. — Eu vou dar um tempo — disse. — Não porque eu desisti… mas porque eu sei que você precisa respirar. Ele se virou, deu alguns passos… e parou. — Só não pense que isso não significou nada pra mim — completou, sem olhar pra trás. E saiu. Isadora ficou ali, com o coração em pedaços, repetindo para si mesma que tinha feito a coisa certa. Mas, pela primeira vez, a decisão de se afastar doía mais do que ficar. E Márcio, do outro lado da rua, teve certeza de uma coisa: Ele não ia aprender a desistir dela. Não agora. Não depois de sentir algo que nunca tinha sentido antes.
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