a surpresa que chegou cedo de mais.

659 Words
Márcio segurava o buquê com cuidado, como se carregasse algo sagrado. No bolso do paletó, a pequena caixa com a aliança parecia pesar toneladas. — É hoje, — sussurrou para si mesmo. O porteiro apenas acenou. — Boa noite, senhor Márcio. Ele subiu direto. Tinha a chave. Tinha confiança. Tinha amor. Ao entrar no apartamento, o sorriso vacilou. Duas taças na mesa. Uma ainda morna. — Cíntia? — chamou, sem resposta. O coração começou a bater errado. O barulho vindo do quarto não combinava com a mulher que ele idealizava. Cada passo era mais pesado que o outro. A porta estava aberta. E ali… O mundo dele acabou. Arnaldo. Seu melhor amigo. Cíntia. A mulher que ele ia pedir em casamento. Ela gritava, entregue, sem perceber que o amor verdadeiro estava morrendo ali, em silêncio. A aliança caiu da mão de Márcio e rolou pelo chão. — Não… — foi tudo o que ele conseguiu dizer. Eles se viraram tarde demais. E nada, absolutamente nada, seria como antesO tempo parou. Márcio não sabia quanto tempo ficou ali, parado à porta do quarto, com o coração dilacerado e os olhos queimando. O ar parecia pesado demais para entrar nos pulmões. O mundo inteiro havia encolhido naquele espaço pequeno, naquela cama que deveria ser apenas deles. Cíntia foi a primeira a recuperar a voz. — Márcio… eu… — ela tentou se cobrir com o lençol, o rosto pálido, os olhos arregalados pelo medo de ter sido descoberta. Arnaldo saiu de cima dela às pressas, tropeçando nos próprios movimentos. — Cara… deixa eu explicar… Márcio ergueu a mão, num gesto silencioso, pedindo que parassem. Ou talvez pedindo a si mesmo que aquilo não fosse real. — Explicar o quê? — a voz dele saiu baixa, quebrada, irreconhecível até para si mesmo. — Explicar há quanto tempo vocês riem de mim? Ele deu um passo à frente. Depois outro. Cada movimento era como pisar em vidro. Cíntia desceu da cama, o corpo ainda tremendo, mas não de arrependimento — de medo de perder o conforto, a segurança, a vida que Márcio lhe proporcionava. — Não é isso que você está pensando — disse ela, rápido demais, como quem já havia ensaiado aquela mentira. Márcio sorriu. Um sorriso triste, desacreditado. — Eu vi. — Ele levou a mão ao peito. — Eu vi tudo, Cíntia. Ou você acha que eu não sei o que é amor? Arnaldo tentou se aproximar. — Márcio, eu errei… foi um momento… — Um momento? — Ele se virou bruscamente. — Dois anos de amizade não valem um “momento”? O silêncio caiu pesado. Cíntia cruzou os braços, numa tentativa inútil de recuperar o controle. — Você também tem culpa. Vive trabalhando, nunca está presente… Foi ali que algo morreu dentro dele. — Eu trabalhava… — ele respondeu, com os olhos marejados — pra te dar o futuro que você dizia querer. Devagar, ele se abaixou e pegou a aliança do chão. O pequeno círculo dourado refletia a luz fraca do quarto, irônico demais para aquele momento. — Eu ia te pedir em casamento hoje — disse, quase num sussurro. — Economizei cada centavo. Sonhei com isso. Cíntia não respondeu. E esse silêncio foi mais c***l que qualquer palavra. Márcio fechou a caixa da aliança e a guardou no bolso. — Fica com ele. — Olhou para Arnaldo, com nojo e decepção. — Vocês merecem um ao outro. Ele caminhou até a porta, mas antes de sair, parou. — Eu te amei de verdade, Cíntia. E isso… — respirou fundo — isso você nunca vai saber o que é. A porta se fechou. E, do lado de fora, Márcio desabou. Sentou-se no chão do corredor, o buquê caído ao seu lado, enquanto as lágrimas finalmente vinham. Não era só a traição. Era o luto de um amor que ele acreditou ser eterno. Dentro do apartamento, Cíntia sentiu algo estranho apertar o peito. Não era amor. Era medo.
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