Márcio segurava o buquê com cuidado, como se carregasse algo sagrado.
No bolso do paletó, a pequena caixa com a aliança parecia pesar toneladas.
— É hoje, — sussurrou para si mesmo.
O porteiro apenas acenou. — Boa noite, senhor Márcio.
Ele subiu direto.
Tinha a chave. Tinha confiança. Tinha amor.
Ao entrar no apartamento, o sorriso vacilou.
Duas taças na mesa.
Uma ainda morna.
— Cíntia? — chamou, sem resposta.
O coração começou a bater errado.
O barulho vindo do quarto não combinava com a mulher que ele idealizava.
Cada passo era mais pesado que o outro.
A porta estava aberta.
E ali…
O mundo dele acabou.
Arnaldo.
Seu melhor amigo.
Cíntia.
A mulher que ele ia pedir em casamento.
Ela gritava, entregue, sem perceber que o amor verdadeiro estava morrendo ali, em silêncio.
A aliança caiu da mão de Márcio e rolou pelo chão.
— Não… — foi tudo o que ele conseguiu dizer.
Eles se viraram tarde demais.
E nada, absolutamente nada, seria como antesO tempo parou.
Márcio não sabia quanto tempo ficou ali, parado à porta do quarto, com o coração dilacerado e os olhos queimando. O ar parecia pesado demais para entrar nos pulmões. O mundo inteiro havia encolhido naquele espaço pequeno, naquela cama que deveria ser apenas deles.
Cíntia foi a primeira a recuperar a voz.
— Márcio… eu… — ela tentou se cobrir com o lençol, o rosto pálido, os olhos arregalados pelo medo de ter sido descoberta.
Arnaldo saiu de cima dela às pressas, tropeçando nos próprios movimentos. — Cara… deixa eu explicar…
Márcio ergueu a mão, num gesto silencioso, pedindo que parassem. Ou talvez pedindo a si mesmo que aquilo não fosse real.
— Explicar o quê? — a voz dele saiu baixa, quebrada, irreconhecível até para si mesmo. — Explicar há quanto tempo vocês riem de mim?
Ele deu um passo à frente. Depois outro. Cada movimento era como pisar em vidro.
Cíntia desceu da cama, o corpo ainda tremendo, mas não de arrependimento — de medo de perder o conforto, a segurança, a vida que Márcio lhe proporcionava.
— Não é isso que você está pensando — disse ela, rápido demais, como quem já havia ensaiado aquela mentira.
Márcio sorriu. Um sorriso triste, desacreditado.
— Eu vi. — Ele levou a mão ao peito. — Eu vi tudo, Cíntia. Ou você acha que eu não sei o que é amor?
Arnaldo tentou se aproximar. — Márcio, eu errei… foi um momento…
— Um momento? — Ele se virou bruscamente. — Dois anos de amizade não valem um “momento”?
O silêncio caiu pesado.
Cíntia cruzou os braços, numa tentativa inútil de recuperar o controle. — Você também tem culpa. Vive trabalhando, nunca está presente…
Foi ali que algo morreu dentro dele.
— Eu trabalhava… — ele respondeu, com os olhos marejados — pra te dar o futuro que você dizia querer.
Devagar, ele se abaixou e pegou a aliança do chão. O pequeno círculo dourado refletia a luz fraca do quarto, irônico demais para aquele momento.
— Eu ia te pedir em casamento hoje — disse, quase num sussurro. — Economizei cada centavo. Sonhei com isso.
Cíntia não respondeu.
E esse silêncio foi mais c***l que qualquer palavra.
Márcio fechou a caixa da aliança e a guardou no bolso. — Fica com ele. — Olhou para Arnaldo, com nojo e decepção. — Vocês merecem um ao outro.
Ele caminhou até a porta, mas antes de sair, parou.
— Eu te amei de verdade, Cíntia. E isso… — respirou fundo — isso você nunca vai saber o que é.
A porta se fechou.
E, do lado de fora, Márcio desabou.
Sentou-se no chão do corredor, o buquê caído ao seu lado, enquanto as lágrimas finalmente vinham. Não era só a traição. Era o luto de um amor que ele acreditou ser eterno.
Dentro do apartamento, Cíntia sentiu algo estranho apertar o peito.
Não era amor.
Era medo.