A casa de Isadora não tinha luxo, mas tinha cheiro de café passado na hora certa e pão amanhecido aquecido na frigideira. Era pequena, antiga, com paredes marcadas pelo tempo — assim como a vida que ela levava desde cedo.
Isadora acordava antes do sol.
Aos vinte anos, aprendera que ninguém viria salvá-la. Aprendera também que amar, às vezes, era ficar. E ela ficou. Pela avó.
— Já levantou, minha menina? — perguntou dona Alzira, da cama, com a voz fraca, mas carregada de carinho.
— Já, vó. Vou fazer seu chá — respondeu Isadora, sorrindo, mesmo cansada.
Ela caminhou pela casa descalça, os pensamentos inquietos. Estava desempregada havia semanas. Cada “não” que recebera nas entrevistas era engolido em silêncio para não preocupar a avó. Não queria ser peso. Nunca quis.
Seu pai era apenas um nome nunca pronunciado.
Sua mãe, viva, escolhera outra cidade — e outra vida.
Isadora não guardava rancor. Guardava ausência.
Enquanto mexia o chá, olhou para a pequena janela da cozinha. A cidade despertava lá fora, indiferente à sua luta diária. Mesmo assim, ela respirou fundo.
— Vai dar certo — murmurou para si mesma, como uma oração.
Mais tarde, saiu para mais uma tentativa. Vestiu sua roupa simples, mas limpa, prendeu o cabelo com cuidado e beijou a testa da avó.
— Volto logo.
— Deus te acompanhe — respondeu dona Alzira.
Na rua, Isadora caminhava com passos firmes, ainda que o coração estivesse cansado. Não tinha tudo. Não tinha quase nada. Mas tinha algo raro: dignidade.
Naquele mesmo instante, em outra parte da cidade, Márcio dirigia sem rumo. Os olhos ainda ardiam. O peito parecia um lugar vazio demais para continuar existindo.
Ele não sabia ainda, mas os destinos deles já estavam em movimento.
Porque, às vezes, quando tudo se quebra de um lado, algo começa a se construir do outro.
E o amor…
o amor gosta de nascer onde ninguém espera.