A aliança no chão.O amigo virou inimigo.

780 Words
O apartamento estava silencioso demais. Márcio entrou e fechou a porta atrás de si sem acender as luzes. Jogou as chaves sobre a mesa e deixou o corpo cair no sofá, como se não tivesse mais forças para sustentar a própria existência. O cheiro do buquê ainda impregnava suas mãos. Ele se levantou, caminhou até a cozinha e colocou as flores dentro da pia. As pétalas começaram a se soltar uma a uma, como o amor que ele havia cultivado por dois anos. Com cuidado quase doloroso, tirou a caixa do bolso. Sentou-se no chão. Abriu. A aliança brilhava sob a luz fraca da cozinha, pequena, simples e verdadeira — exatamente como o sentimento que ele tinha oferecido. — Era pra ser hoje… — murmurou, a voz embargada. A imagem de Cíntia se sobrepondo a tudo. O corpo dela entregue. O grito que ainda ecoava em sua cabeça. O rosto de Arnaldo, carregado de culpa — tarde demais. Márcio fechou os olhos, mas não conseguiu fugir. As lágrimas vieram em ondas. Não contidas. Não silenciosas. Ele bateu o punho no chão uma vez. Depois outra. — Por quê? — perguntou ao vazio. Nenhuma resposta veio. Com os dedos trêmulos, tirou a aliança da caixa. Por um instante, levou-a aos lábios, como se pudesse se despedir de um sonho. Então, deixou-a cair. O som metálico ecoou pelo apartamento. A aliança rolou até parar perto da porta — exatamente onde tudo tinha começado. Márcio encostou a testa no chão frio e chorou como não chorava desde menino. Chorou pela traição. Pelo amigo perdido. Pela mulher que ele amou sozinho. Quando o choro cessou, restou um silêncio pesado. Ele se levantou devagar, lavou o rosto e se olhou no espelho. O homem que o encarava parecia mais velho. Mais vazio. — Você não vai me destruir — disse para si mesmo, com firmeza recém-nascida. Pegou a aliança do chão, fechou a mão em volta dela e respirou fundo. Ainda doía. Mas ali, no fundo da dor, algo começava a nascer. Não o amor. A dignidade. E o leitor sente — este homem ainda vai amar de novo. Mas antes, ele vai precisar se reconstruir.O telefone tocava sem parar. Márcio observava a tela acender e apagar sobre a mesa. Arnaldo. Uma vez. Duas. Cinco chamadas perdidas. Ele respirou fundo antes de atender. Não porque ainda houvesse amizade ali, mas porque precisava encerrar algo que sangrava aberto. — O que você quer? — perguntou, frio. Do outro lado, a voz saiu baixa, carregada de culpa. — Cara… eu sei que você não quer me ouvir, mas eu preciso falar com você. Márcio riu. Um riso curto, sem humor. — Precisa? Engraçado… ontem à noite você não precisou pensar em mim. Silêncio. — Eu errei — Arnaldo disse. — Mas não foi planejado. Aconteceu. — Não. — A voz de Márcio endureceu. — Traição não acontece. Ela é escolhida. Houve uma pausa longa demais. — Eu nunca quis te machucar — insistiu Arnaldo. — E mesmo assim fez — respondeu Márcio. — Com consciência. Com desejo. Com prazer. Arnaldo suspirou. — A Cíntia… ela sempre foi confusa. Ela dizia que você não estava presente. O nome dela soou como veneno. — Não ouse usar meu nome pra justificar o que vocês fizeram — Márcio rebateu, sentindo o peito queimar. — Se ela era infeliz, tinha boca pra falar. Se você fosse homem, tinha caráter pra recuar. — Eu a amo — Arnaldo soltou, quase num sussurro. Foi ali que algo se rompeu de vez. — Não — Márcio respondeu, firme. — Você ama a adrenalina. Ama o proibido. Ama ganhar o que não te pertence. Ele caminhou pelo apartamento, sentindo a raiva tomar forma. — Amigo não toca na mulher do outro. Amigo protege. Respeita. Se afasta. — Então é isso? — perguntou Arnaldo, a voz falhando. — Dois anos jogados fora? Márcio fechou os olhos por um instante. — Foram jogados fora no momento em que você entrou naquele quarto. Do outro lado da linha, só se ouvia a respiração pesada. — Não me procure mais — concluiu Márcio. — Pra mim, você morreu ontem à noite. E desligou. O silêncio voltou a ocupar o espaço. Mas agora era diferente. Mais limpo. Mais definitivo. Márcio sentou-se novamente no sofá e passou as mãos pelo rosto. A dor ainda estava ali, mas algo havia mudado. Ele não era mais o homem enganado. Era o homem que escolheu não se perder junto com eles. E, enquanto a cidade seguia indiferente lá fora, um novo caminho começava a se desenhar — longe de Cíntia, longe de Arnaldo… e perigosamente perto de alguém que ainda nem sabia seu nome.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD