O apartamento estava silencioso demais.
Márcio entrou e fechou a porta atrás de si sem acender as luzes. Jogou as chaves sobre a mesa e deixou o corpo cair no sofá, como se não tivesse mais forças para sustentar a própria existência.
O cheiro do buquê ainda impregnava suas mãos.
Ele se levantou, caminhou até a cozinha e colocou as flores dentro da pia. As pétalas começaram a se soltar uma a uma, como o amor que ele havia cultivado por dois anos.
Com cuidado quase doloroso, tirou a caixa do bolso.
Sentou-se no chão.
Abriu.
A aliança brilhava sob a luz fraca da cozinha, pequena, simples e verdadeira — exatamente como o sentimento que ele tinha oferecido.
— Era pra ser hoje… — murmurou, a voz embargada.
A imagem de Cíntia se sobrepondo a tudo. O corpo dela entregue. O grito que ainda ecoava em sua cabeça. O rosto de Arnaldo, carregado de culpa — tarde demais.
Márcio fechou os olhos, mas não conseguiu fugir.
As lágrimas vieram em ondas. Não contidas. Não silenciosas.
Ele bateu o punho no chão uma vez. Depois outra. — Por quê? — perguntou ao vazio.
Nenhuma resposta veio.
Com os dedos trêmulos, tirou a aliança da caixa. Por um instante, levou-a aos lábios, como se pudesse se despedir de um sonho.
Então, deixou-a cair.
O som metálico ecoou pelo apartamento.
A aliança rolou até parar perto da porta — exatamente onde tudo tinha começado.
Márcio encostou a testa no chão frio e chorou como não chorava desde menino. Chorou pela traição. Pelo amigo perdido. Pela mulher que ele amou sozinho.
Quando o choro cessou, restou um silêncio pesado.
Ele se levantou devagar, lavou o rosto e se olhou no espelho. O homem que o encarava parecia mais velho. Mais vazio.
— Você não vai me destruir — disse para si mesmo, com firmeza recém-nascida.
Pegou a aliança do chão, fechou a mão em volta dela e respirou fundo.
Ainda doía.
Mas ali, no fundo da dor, algo começava a nascer.
Não o amor.
A dignidade.
E o leitor sente — este homem ainda vai amar de novo.
Mas antes, ele vai precisar se reconstruir.O telefone tocava sem parar.
Márcio observava a tela acender e apagar sobre a mesa.
Arnaldo.
Uma vez. Duas. Cinco chamadas perdidas.
Ele respirou fundo antes de atender. Não porque ainda houvesse amizade ali, mas porque precisava encerrar algo que sangrava aberto.
— O que você quer? — perguntou, frio.
Do outro lado, a voz saiu baixa, carregada de culpa. — Cara… eu sei que você não quer me ouvir, mas eu preciso falar com você.
Márcio riu. Um riso curto, sem humor. — Precisa? Engraçado… ontem à noite você não precisou pensar em mim.
Silêncio.
— Eu errei — Arnaldo disse. — Mas não foi planejado. Aconteceu.
— Não. — A voz de Márcio endureceu. — Traição não acontece. Ela é escolhida.
Houve uma pausa longa demais.
— Eu nunca quis te machucar — insistiu Arnaldo.
— E mesmo assim fez — respondeu Márcio. — Com consciência. Com desejo. Com prazer.
Arnaldo suspirou. — A Cíntia… ela sempre foi confusa. Ela dizia que você não estava presente.
O nome dela soou como veneno.
— Não ouse usar meu nome pra justificar o que vocês fizeram — Márcio rebateu, sentindo o peito queimar. — Se ela era infeliz, tinha boca pra falar. Se você fosse homem, tinha caráter pra recuar.
— Eu a amo — Arnaldo soltou, quase num sussurro.
Foi ali que algo se rompeu de vez.
— Não — Márcio respondeu, firme. — Você ama a adrenalina. Ama o proibido. Ama ganhar o que não te pertence.
Ele caminhou pelo apartamento, sentindo a raiva tomar forma. — Amigo não toca na mulher do outro. Amigo protege. Respeita. Se afasta.
— Então é isso? — perguntou Arnaldo, a voz falhando. — Dois anos jogados fora?
Márcio fechou os olhos por um instante. — Foram jogados fora no momento em que você entrou naquele quarto.
Do outro lado da linha, só se ouvia a respiração pesada.
— Não me procure mais — concluiu Márcio. — Pra mim, você morreu ontem à noite.
E desligou.
O silêncio voltou a ocupar o espaço. Mas agora era diferente. Mais limpo. Mais definitivo.
Márcio sentou-se novamente no sofá e passou as mãos pelo rosto. A dor ainda estava ali, mas algo havia mudado.
Ele não era mais o homem enganado.
Era o homem que escolheu não se perder junto com eles.
E, enquanto a cidade seguia indiferente lá fora, um novo caminho começava a se desenhar — longe de Cíntia, longe de Arnaldo… e perigosamente perto de alguém que ainda nem sabia seu nome.