Quando ele voltar.

549 Words
Isadora atendeu a ligação com o coração acelerado demais para fingir calma. — Oi — disse, baixo. — Oi… — a voz de Márcio veio do outro lado, mais cansada do que ela lembrava. — Obrigado por atender. Houve um silêncio breve. Não era constrangedor. Era cuidadoso. — Eu pensei que você não fosse ligar — Isadora confessou, antes que pudesse se conter. Márcio respirou fundo. — Eu pensei que você não fosse querer falar comigo depois de tanto silêncio. Os dois sorriram sozinhos, cada um do seu lado da linha. — Eu precisei resolver coisas difíceis — ele continuou. — Não queria te puxar pra algo pesado. Isadora fechou os olhos. — Eu entendo… mas senti medo. As palavras saíram trêmulas. Verdadeiras. — Medo de quê? — ele perguntou, com a voz mais suave. — De ser deixada — respondeu, sem rodeios. — De novo. Márcio ficou em silêncio por alguns segundos. Não por falta de resposta, mas por respeito ao que ela tinha acabado de dizer. — Eu não fui embora — disse enfim. — Eu só precisei lutar pra voltar inteiro. Ela engoliu em seco. — E agora? — perguntou. — Agora… eu queria te ver. Mas só se você quiser. O coração de Isadora disparou. — Eu quero — disse. — Mas eu tô com medo. — Eu também — ele admitiu. — Então vamos com cuidado. No dia seguinte, Isadora acordou com um nó no estômago. Tomou banho mais demorado, escolheu a roupa com indecisão, prendeu e soltou o cabelo várias vezes. Não era vaidade. Era nervosismo. A avó observava da porta. — Ele vai vir? Isadora assentiu. — Vai. — Então respira, minha filha — Dona Alzira sorriu. — Quem chega com respeito não vem pra ferir. O interfone tocou. O som ecoou pela casa como um anúncio importante demais. Isadora caminhou até a porta com passos lentos. Abriu. Márcio estava ali. Um pouco mais magro. Olhos cansados. Mas o mesmo olhar atento, cuidadoso, que ela reconheceu na hora. — Oi — ele disse. — Oi. Por um segundo, nenhum dos dois se mexeu. — Eu não sabia se trazia alguma coisa — ele comentou, meio sem jeito. — Então trouxe só… eu. Ela sorriu de leve. — Tá bom assim. Sentaram-se na sala simples, lado a lado, com um espaço respeitoso entre eles. O silêncio voltou, mas não pesou. — Esses dias sem falar com você — Márcio começou — me mostraram que eu não quero desaparecer da vida das pessoas que importam. Isadora abaixou o olhar. — Eu fiquei triste… e com raiva de mim por isso. — Por quê? — Porque comecei a sentir falta. E sentir falta é… perigoso. Ele virou-se para ela, devagar. — Eu também senti. O coração dela bateu forte. — Mas não quero te prometer nada que não possa cumprir — ele completou. — Só posso te prometer presença e verdade. Isadora respirou fundo. — Isso já é muito. Ele estendeu a mão, hesitou. — Posso? Ela colocou a mão sobre a dele. Não foi um gesto grandioso. Foi inteiro. A ansiedade ainda existia. O medo também. Mas agora eles tinham algo novo: cuidado mútuo. E às vezes, o amor começa assim. Não com pressa. Não com certezas. Mas com alguém que volta… e fica.
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