Isadora atendeu a ligação com o coração acelerado demais para fingir calma.
— Oi — disse, baixo.
— Oi… — a voz de Márcio veio do outro lado, mais cansada do que ela lembrava. — Obrigado por atender.
Houve um silêncio breve. Não era constrangedor. Era cuidadoso.
— Eu pensei que você não fosse ligar — Isadora confessou, antes que pudesse se conter.
Márcio respirou fundo. — Eu pensei que você não fosse querer falar comigo depois de tanto silêncio.
Os dois sorriram sozinhos, cada um do seu lado da linha.
— Eu precisei resolver coisas difíceis — ele continuou. — Não queria te puxar pra algo pesado.
Isadora fechou os olhos. — Eu entendo… mas senti medo.
As palavras saíram trêmulas. Verdadeiras.
— Medo de quê? — ele perguntou, com a voz mais suave.
— De ser deixada — respondeu, sem rodeios. — De novo.
Márcio ficou em silêncio por alguns segundos. Não por falta de resposta, mas por respeito ao que ela tinha acabado de dizer.
— Eu não fui embora — disse enfim. — Eu só precisei lutar pra voltar inteiro.
Ela engoliu em seco.
— E agora? — perguntou.
— Agora… eu queria te ver. Mas só se você quiser.
O coração de Isadora disparou.
— Eu quero — disse. — Mas eu tô com medo.
— Eu também — ele admitiu. — Então vamos com cuidado.
No dia seguinte, Isadora acordou com um nó no estômago. Tomou banho mais demorado, escolheu a roupa com indecisão, prendeu e soltou o cabelo várias vezes.
Não era vaidade. Era nervosismo.
A avó observava da porta. — Ele vai vir?
Isadora assentiu. — Vai.
— Então respira, minha filha — Dona Alzira sorriu. — Quem chega com respeito não vem pra ferir.
O interfone tocou.
O som ecoou pela casa como um anúncio importante demais.
Isadora caminhou até a porta com passos lentos. Abriu.
Márcio estava ali. Um pouco mais magro. Olhos cansados. Mas o mesmo olhar atento, cuidadoso, que ela reconheceu na hora.
— Oi — ele disse.
— Oi.
Por um segundo, nenhum dos dois se mexeu.
— Eu não sabia se trazia alguma coisa — ele comentou, meio sem jeito. — Então trouxe só… eu.
Ela sorriu de leve. — Tá bom assim.
Sentaram-se na sala simples, lado a lado, com um espaço respeitoso entre eles. O silêncio voltou, mas não pesou.
— Esses dias sem falar com você — Márcio começou — me mostraram que eu não quero desaparecer da vida das pessoas que importam.
Isadora abaixou o olhar. — Eu fiquei triste… e com raiva de mim por isso.
— Por quê?
— Porque comecei a sentir falta. E sentir falta é… perigoso.
Ele virou-se para ela, devagar. — Eu também senti.
O coração dela bateu forte.
— Mas não quero te prometer nada que não possa cumprir — ele completou. — Só posso te prometer presença e verdade.
Isadora respirou fundo. — Isso já é muito.
Ele estendeu a mão, hesitou. — Posso?
Ela colocou a mão sobre a dele.
Não foi um gesto grandioso.
Foi inteiro.
A ansiedade ainda existia. O medo também. Mas agora eles tinham algo novo: cuidado mútuo.
E às vezes, o amor começa assim.
Não com pressa.
Não com certezas.
Mas com alguém que volta…
e fica.